Tem um título da Igreja que pesa: doutor. São só trinta e sete pessoas em dois mil anos de cristianismo que a Igreja olhou e disse: este aqui não apenas viveu a fé — ele a ensinou de um jeito que ilumina o corpo inteiro do povo de Deus. Tomás de Aquino é doutor. Agostinho é doutor. Teresa de Ávila é doutora.
E no meio dessa lista de gigantes tem um homem que nunca foi padre.
Santo Efrém Sírio era diácono. Diácono e ponto. Nunca foi ordenado presbítero, nunca celebrou uma missa, nunca foi bispo, nunca governou diocese nenhuma. E mesmo assim a Igreja o fez doutor — o único doutor de toda a tradição siríaca, proclamado pelo Papa Bento XV em 1920. Repara só nisso antes de seguir: a santidade que ensina a Igreja inteira não depende do teu cargo. Depende do que tu fazes com o que Deus te deu.
O homem que falava quase a língua de Cristo
Efrém nasceu lá pelo ano de 306, na cidade de Nísibe — hoje na fronteira da Turquia com a Síria. E ele escrevia numa língua que devia fazer o coração tremer: o siríaco, uma língua aparentada do aramaico, aquela que o próprio Cristo falava em casa, na sinagoga, na cruz. Quer dizer: a doutrina que Efrém compôs nasceu num idioma irmão do idioma de Jesus.
Mas o detalhe da língua não é o mais bonito. O mais bonito é como ele ensinou.
Ele viu a heresia cantando — e respondeu cantando mais bonito
O tempo de Efrém era um tempo de heresia barata e contagiante. Havia um sujeito chamado Bardesanes, e depois os seus seguidores, que tinham descoberto uma arma genial para espalhar erro: a música. Eles pegavam doutrinas falsas sobre Deus, sobre Cristo, sobre a criação, e as embrulhavam em hinos bonitos, em melodias fáceis. O povo simples saía cantando aquilo na rua, na fonte, no trabalho — e ia decorando a heresia sem nem perceber, do jeito que a gente decora uma música de rádio.
E aqui está o gênio de Santo Efrém. Ele não respondeu com um tratado grosso que ninguém ia ler. Ele não subiu num púlpito para brigar. Ele fez a mesma coisa que os hereges faziam — só que com a verdade, e mais bonito.
Efrém compôs hinos. Centenas deles. Poemas inteiros sobre a fé, sobre a Virgem, sobre o paraíso, sobre a Eucaristia, sobre a divindade de Cristo. E — conta a tradição — organizou coros de mulheres para cantar esses hinos na igreja e fora dela. De repente o povo que andava decorando erro estava decorando a verdade católica, no mesmo formato, com a mesma facilidade, com uma beleza maior. A heresia perdeu a guerra no terreno em que ela achava que era invencível.
Por isso a tradição lhe deu um dos apelidos mais lindos da história dos santos: “a cítara do Espírito Santo”. A cítara é o instrumento de cordas. Efrém era o instrumento que o Espírito Santo dedilhava para fazer a verdade soar de um jeito que entrasse pelo ouvido e ficasse no coração.
A beleza também salva almas
Quando a Pérsia invadiu Nísibe, Efrém teve que fugir. Foi parar em Edessa, e lá, refugiado, lançou os fundamentos de uma escola teológica que formaria gente por séculos. Um homem sem cargo, sem poder, deixando atrás de si uma escola e uma montanha de hinos que a Igreja canta até hoje no Oriente.
E é aqui que ele encosta na tua vida e na minha.
A gente tem uma tendência meio feia de achar que a fé séria é a fé carrancuda — que doutrina é coisa de gente cinzenta, que catequese é dever chato, que evangelizar é discutir e vencer no grito. Santo Efrém desmente isso com a vida inteira. Ele provou que a beleza não é o açúcar que disfarça a verdade — a beleza é um caminho da própria verdade. Que um poema pode catequizar. Que uma melodia pode arrancar uma alma da heresia. Que a arte, quando se ajoelha, evangeliza.
Então se tu és daqueles que amam música, poesia, pintura, cinema, e às vezes sentes uma culpazinha de que isso é “menos espiritual” do que rezar um terço — para de sentir. Santo Efrém é doutor da Igreja por causa disso, não apesar disso. O dom que Deus te deu — seja ele qual for — pode ser posto a serviço da fé exatamente como é. Ele não precisa virar outra coisa. Ele precisa virar oferta.
Efrém morreu em 373, ainda diácono, ainda pobre, ainda no deserto. Nunca celebrou uma missa. E ensina a Igreja inteira há mil e seiscentos anos.
A santidade não pergunta o teu cargo. Pergunta o que tu vais fazer com a tua cítara.
Santo Efrém Sírio, a cítara do Espírito Santo, rogai por nós.