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ELE ENTROU NO MOSTEIRO PRA PAGAR UM PECADO — E ACABOU REFORMANDO A VIDA RELIGIOSA DO OCIDENTE

Andrea Sacchi, «A Visão de São Romualdo» (c. 1631) — Palazzo Barberini / Pinacoteca Vaticana · Wikimedia Commons (domínio público)

Um jovem nobre vê o próprio pai matar um parente num duelo por causa de herança. E pra pagar aquele pecado, tranca-se num mosteiro por quarenta dias. Só que os quarenta dias viraram a vida inteira — e daquela dor nasceu uma das reformas mais radicais que o monaquismo do Ocidente já viu.

Hoje é memória de São Romualdo, abade. E a história é grande demais pra passar batida.

O problema que São Romualdo veio resolver

Caro leitor, pra entender São Romualdo você precisa entender o tempo em que ele viveu — porque o tempo é parte do milagre.

Estamos na Itália do fim do século X, começo do século XI. Os mosteiros europeus, que tinham sido o coração pulsante da fé nos séculos anteriores — que tinham salvado a cultura, evangelizado os povos, mantido acesa a lamparina do Evangelho enquanto o mundo antigo desmoronava —, muitos deles tinham de algum modo se acomodado. Ficado ricos. Ligados ao poder feudal do senhor daqui ou dali. E com uma lógica perversa que você reconhece imediatamente, porque ela ainda existe: os nobres queriam o status do mosteiro; queriam o prestígio de serem associados àquela casa religiosa, sem de fato querer a vida religiosa que gerava aquele prestígio. Então eles arrastavam, na medida do possível, a vida de nobreza para dentro dos muros. E a vida espiritual ali esfriava, lentamente, como brasa sem vento.

São Romualdo nasce por volta de 950 em Ravena — cidade nobre, antiga capital do Império Romano do Ocidente, no nordeste da Itália. Família Onesti: gente de posses, de terra, de poder regional. Ele é filho desse mundo. E é filho desse mundo que vai, um dia, ser empurrado para fora dele da forma mais dolorosa possível.

A vergonha que virou vocação

O pai de São Romualdo, chamado Sérgio, entra num duelo por causa de uma disputa de propriedade. Uma briga de herança — dessas que existem em qualquer família com alguma coisa a deixar. E nesse duelo, o pai mata um parente. Derrama sangue de família por causa de terra.

O jovem São Romualdo, que tinha ali pelos seus vinte anos, é forçado a presenciar aquilo. Imagina o peso; meu irmão, imagina o peso de ver o teu próprio pai matar alguém da família.

E São Romualdo faz o que um católico de fato católico do seu tempo faria: se recolhe para fazer penitência. Vai ao mosteiro beneditino de Sant’Apollinare in Classe, ali perto de Ravena, com a intenção de ficar quarenta dias — como Cristo no deserto, como Israel na travessia. Uma penitência com início, meio e fim. Uma dívida a saldar.

Só que aconteceu uma coisa que ele não esperava.

Naqueles quarenta dias, o silêncio do mosteiro tomou conta dele. A tradição conta que ele teve uma visão de Santo Apolinário, o mártir a quem aquela igreja era dedicada, e entendeu que não era para voltar. Que a penitência não tinha fim porque não era uma dívida a pagar — era uma vocação a viver. Aquele lugar que ele entrou pela culpa se tornou o lugar onde ele ia recomeçar do zero.

São Romualdo professa os votos. Vira monge.

O monge que não conseguia parar

Só que — e aqui está o detalhe que faz a história de São Romualdo diferente de um conto edificante — ele era inquieto. De um jeito quase impossível de acompanhar.

Entrou no mosteiro, apaixonou-se pela vida monástica, pelo ideal da vida monástica; e logo em seguida viu que a vida dos irmãos era muito mais frouxa do que a Regra mandava. Queria mais rigor, mais silêncio, mais deserto. E os outros monges, claro, não gostam de um novato querendo apertar a corda de todo mundo.

Então São Romualdo saiu. Não fugiu; cumpriu a missão e foi embora. E foi viver como eremita — primeiro com um velho asceta chamado Marino, perto de Veneza; depois num mosteiro nos Pirineus, na fronteira entre a França e a Espanha. E ali começou um padrão que se repetiria pela vida inteira: São Romualdo chegava num lugar, vivia em rigor extremo, atraía discípulos, fundava ou reformava uma comunidade — e quando aquilo estava de pé e organizado, ia embora. Não porque o mosteiro tinha fracassado; porque tinha dado certo. Aquilo não era um prêmio pra ele — era uma obra que ele construía e dedicava a Deus. Pronta. Pode se sustentar. E ele seguia em frente.

São Pedro Damião, que escreveu a vida de São Romualdo poucos anos depois da sua morte, conta que o santo passou cerca de trinta anos percorrendo a Itália desse jeito; fundando, reformando, espalhando eremitérios. Um homem que não parava — não por instabilidade, mas por uma fome de Deus que nenhum lugar terminava de saciar.

Talvez você esteja pensando: mas isso não é abandono? Não é irresponsabilidade fundar uma comunidade e sair?

A resposta de São Romualdo — e da história inteira — é não. É outra coisa. É o sinal de que aquela obra foi concluída. São Bento, o grande fundador da Ordem Beneditina, tentou ser eremita muitas vezes. Os grandes fundadores têm sede de eremitério. Quando aquela sede os move a fundar uma comunidade e depois os move para adiante, é porque a Providência está operando — não através deles apesar de si mesmos, mas por meio da própria inquietação deles.

O que São Romualdo inventou em Camaldoli

Por volta de 1012, num pedaço de terra doado por um nobre chamado Maldolo, nos montes Apeninos da Toscana, São Romualdo funda o eremitério de Camaldoli. O nome vem do doador: Campo de Maldolo — Camaldoli. E o que ele faz ali é de uma genialidade que a Igreja levou mil anos para imitar em outros contextos.

Ele junta duas formas de vida que pareciam radicalmente opostas.

De um lado: os eremitas — cada um na sua cela isolada, em silêncio quase absoluto, numa solidão cultivada como espaço de encontro com Deus. Do outro: uma comunidade que reza junta, com regra, com abade, com a estrutura da vida beneditina. São Romualdo não escolheu entre as duas. Casou as duas. Criou os Camaldulenses — monges que vivem como eremitas, mas dentro de uma comunidade organizada; que têm a individualidade necessária para que a solidão possa ser de fato vivida, sem o isolamento selvagem que dissolve em solidão humana em vez de solidão com Deus.

Os Camaldulenses existem até hoje, mais de mil anos depois. O eremitério de Camaldoli ainda está de pé na Toscana, com monges rezando lá. E o hábito branco deles — aquele hábito que aparece na pintura de Andrea Sacchi que está na capa deste artigo — é o símbolo visível de uma síntese que ninguém antes tinha feito daquele jeito.

Morreu como viveu — em silêncio, sozinho com Deus

São Romualdo viveu muito para a época dele: perto dos oitenta anos. Morreu sozinho, do jeito que buscou viver, no mosteiro de Val di Castro, nas Marcas, na Itália, em 19 de junho de 1027. A tradição conta que ele tinha pedido para ficar sozinho na cela quando sentisse a morte chegar. E foi exatamente assim que ela chegou — em silêncio, sem ninguém por perto; só ele e a única companhia que ele ansiou a vida inteira.

E aquilo que começou como vergonha — o pecado do pai, o sangue derramado por uma herança — Deus transformou na semente de uma vida santa; e não apenas de uma vida, mas de uma infinidade de vidas que se seguiram por conta daquela obra.

O que São Romualdo te diz hoje

Meu irmão, aqui está a coisa que mais me move nessa história — e que eu peço que você não deixe passar.

São Romualdo não escolheu Deus num momento de fervor bonito. Não foi uma conversão de retiro, de experiência mística espontânea, de noite estrelada que de repente revelou o sentido da existência. Ele foi empurrado para dentro de um mosteiro pela vergonha de uma família; pela culpa de ter assistido a um crime que não cometeu. A divina Providência operou através de um evento aparentemente aleatório — um duelo de herança, sangue derramado, um jovem devastado — e plantou ali a semente de uma reforma que mudou o monaquismo do Ocidente.

Isso é muito a forma como Deus trabalha. Ele não desperdiça o nosso pecado, nem a nossa dor, nem a nossa vergonha de família. O que começa como fuga pode terminar como encontro. O que começa como penitência pode terminar como vocação. O que começa como quarenta dias pode terminar como a vida inteira.

Analise o dia, analise a vida, analise os acontecimentos que foram imprescindíveis para que você estivesse aqui hoje — para que você cresse, para que você orasse, para que você fosse quem é. A Providência estava lá. Estava escrevendo. E ela não parou.

São Romualdo largou tudo — conforto, segurança, o mundo inteiro — só para conseguir ouvir Deus no silêncio. E eu fico pensando em você, caro leitor, que vive bem no oposto disso: cercado de tela, de barulho, de notificação. Quando foi a última vez que você ficou em silêncio de verdade — só você e Deus, sem celular na mão, sem música no fundo, sem ninguém para conversar?

O deserto não é um lugar. É uma decisão.

São Romualdo, abade, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico