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O BISPO QUE PEDIU MAIS

Jebulon, \"Theatral area Knossos palace\" (2015) — Wikimedia Commons (CC0, domínio público). Sítio arqueológico de Cnossos; não é retrato do santo.

Hoje, 10 de outubro, o Martirológio Romano manda lembrar um bispo de quem quase nada sabemos.

Das fontes que tenho em mãos, nenhuma registra martírio, milagre, cena de conversão, data de nascimento ou cidade natal. São Pinito foi bispo de Cnossos, na ilha de Creta, por volta do ano 180, e a Igreja o chama de santo. A fonte é curta, caro leitor. O pouco que resta, porém, pesa mais do que muita biografia farta.

Um elogio de duas linhas

O Martirológio Romano de 2004 diz que São Pinito, bispo de Cnossos, na ilha de Creta, “no tempo dos imperadores Marco Aurélio Vero e Lúcio Cômodo, se distinguiu pelos seus escritos sobre a fé e sua intensa solicitude pelo progresso espiritual do rebanho que lhe foi confiado”.

O latim do elogio fala em profectus gregis, o progresso do rebanho. A palavra profectus vem de proficere, avançar, ir adiante. Para o Martirológio, o que marcou esse bispo foi a preocupação de que o povo dele andasse para a frente.

Um bispo que escreve sobre a fé e se aflige com o avanço das ovelhas. É tudo o que o elogio afirma, e já é um retrato inteiro de pastor.

A carta que veio de Corinto

Há um segundo fio, e ele chega por outra mão. Segundo o Pe. Rohrbacher, nas Vidas dos Santos, no verbete de Santo Dionísio de Corinto (8 de abril), Eusébio deu notícia de sete cartas desse bispo a várias igrejas, chamadas católicas, isto é, universais.

Uma dessas cartas, a sexta, foi escrita aos fiéis de Gnosso, que é Cnossos, na ilha de Creta. Santo Dionísio de Corinto exortava ali São Pinito a considerar a fraqueza do comum dos homens. Pedia que não impusesse a todos os fiéis, de modo geral, o jugo da virgindade ou da continência perpétua, como se fosse virtude absolutamente necessária à salvação.

Note a delicadeza da cena. Um bispo escreve a outro bispo; um irmão no episcopado aconselha moderação. Santo Dionísio de Corinto escreveu também aos gortinianos e às demais igrejas de Creta: louvou a virtude de São Filipe, bispo de Gortina, atribuiu ao zelo dele a piedade e a generosidade das ovelhas, e o advertiu a não se deixar surpreender pelas artimanhas dos hereges. Corinto escrevia a Creta com solicitude.

A resposta

Agora a parte que me prende. Rohrbacher diz que São Pinito, “homem de grande eloquência e um dos maiores do século em que viveu, respondeu a essa carta”. Segue o resumo da resposta: ele testemunhou “muita estima e respeito” por Santo Dionísio de Corinto e por sua carta, e então pediu algo. Pediu que Santo Dionísio desse ao povo “alimento mais forte” e escrevesse outras cartas, sugerindo “máximas diferentes” para exercitá-lo no caminho da perfeição. O motivo vem dito: receio de que, “acostumados a serem alimentados com leite, envelheçam na infância da vida espiritual, sem aspirar à perfeição”.

Leia devagar. Um bispo recebe um conselho de moderação e responde com respeito. Em seguida, pede ao conselheiro alimento mais forte para o seu povo. Rohrbacher registra estima, respeito e esse pedido.

Rohrbacher comenta que se vê naquela carta “a pureza de sua fé, a solicitude pelo progresso do povo, a eloquência e a luz com que penetrava as coisas santas”. É o mesmo São Pinito do elogio de Roma, visto por outro ângulo.

Uma ilha que mudou

Rohrbacher acrescenta uma observação: “Maravilhosa mudança se pode notar aqui. A ilha de Creta até então não era conhecida por outra razão que a vida mole e voluptuosa dos habitantes. E eis que a virgindade, a continência perpétua lá se tornaram comuns, e de tal modo, que um santo bispo chegou a recear se fizesse disso uma obrigação a impor-se a todos.”

Uma ilha célebre pela moleza passou a ter virgens e continentes em quantidade. Rohrbacher não nomeia quem fez essa obra. O elogio do Martirológio fala da solicitude de São Pinito pelo rebanho confiado; a observação de Rohrbacher fala da mudança da ilha. Deixo as duas coisas lado a lado, e você tira a sua conclusão.

Leite e alimento sólido

O que segue é reflexão minha, e peço que seja lida assim. A resposta de São Pinito, tal como Rohrbacher a resume, usa a imagem do leite. Ela me lembra duas passagens da Escritura, sem que eu afirme que ele as tenha citado. São Paulo diz aos coríntios que os alimentou com leite, e não com alimento sólido, porque não o suportavam (1 Coríntios 3,2). E a Carta aos Hebreus lembra que o alimento sólido é para os adultos (Hebreus 5,12-14).

Você pode objetar, e é boa objeção: “Se a fonte diz tão pouco de São Pinito, por que gastar um artigo com ele?” Porque o pouco que ela diz é nítido. Um bispo, diante de um conselho de moderação, responde com respeito e pede mais para o povo que lhe foi confiado. Todo pastor lida com isto: o que a ovelha aguenta hoje e o que ela precisa comer para crescer. A palavra pastor vem de pascere, apascentar, alimentar.

O leite é bom, e é o alimento certo para quem acabou de nascer. Quem o recebe durante quarenta anos fica criança de quarenta anos.

E você, o que pede?

São Pinito deixou uma pergunta, e ela chega até a sua mesa de hoje.

Você pede alimento sólido à sua paróquia? Ou se contenta com a missa curta, a homilia amena, o grupo que se reúne sem exigir de ninguém um passo adiante? Você pede alimento sólido ao seu diretor espiritual, se tem um; e se não tem, já pensou no motivo? E a si mesmo: quanto tempo faz desde que você se obrigou a ler, a rezar, a jejuar, a estudar, a perdoar algo que o fizesse crescer em vez de apenas conservar?

O elogio de Roma chama São Pinito de bispo que se distinguiu pela solicitude pelo progresso do rebanho. A fome de perfeição, no pastor e na ovelha, é sinal de saúde. Quem não sente fome de nada já adoeceu.

Meu irmão, comece pequeno e comece firme. Escolha uma coisa difícil que você vem adiando, e peça a quem pode ajudá-lo que lhe dê alimento mais forte. Não espere pela paróquia ideal. Peça a ela o que ela ainda não lhe deu, e ofereça o que você já pode dar.

São Pinito, bispo de Cnossos, que pedistes alimento mais forte para o vosso povo, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico