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Patrono

O HOMEM QUE AVALIZOU SÃO PAULO

Tem uma cena nos Atos dos Apóstolos que a gente lê rápido demais e não para para sentir o peso. Saulo de Tarso acaba de se converter. Aquele mesmo Saulo que segurava as capas de quem apedrejava Santo Estêvão, que ia de casa em casa arrastando cristãos para a cadeia, que respirava ameaça e morte contra a Igreja. E de repente esse homem aparece em Jerusalém dizendo que viu Cristo na estrada de Damasco e que agora é dos nossos.

Repara no que qualquer pessoa de bom senso faria: desconfiar. E foi exatamente o que a comunidade fez. Os Atos contam sem rodeios — os discípulos tinham medo dele, e não acreditavam que ele fosse de verdade um discípulo. Ninguém queria chegar perto. Para a Igreja de Jerusalém, Saulo era ou um lobo disfarçado de ovelha, ou uma armadilha. E ela tinha todo o motivo do mundo para pensar assim.

Foi aí que um homem se levantou no meio do silêncio e disse: eu garanto por ele.

O filho da consolação

Esse homem era São Barnabé. Levita, nascido em Chipre, dono de um campo que ele vendeu para pôr o dinheiro inteiro aos pés dos apóstolos — sem reservar nada para si. Os próprios apóstolos lhe deram esse nome: São Barnabé, que quer dizer “filho da consolação”. Não é apelido pequeno. É o tipo de nome que a gente só ganha quando a nossa presença, por si só, já é alívio para os outros.

E o que faz um filho da consolação quando todo mundo está com medo de um homem? Ele atravessa o medo. São Barnabé tomou São Paulo pela mão, levou-o aos apóstolos e contou como ele tinha visto o Senhor no caminho e pregado com coragem em Damasco. Foi o aval de São Barnabé que abriu a porta. Sem ele, talvez São Paulo — o maior missionário da história da Igreja, o homem que escreveu metade do Novo Testamento — tivesse ficado para sempre do lado de fora, batendo numa porta que ninguém ia abrir.

Pensa nisso com calma. O cristianismo como tu o conheces passou pela confiança de um homem só.

Ele foi buscar quem o mundo tinha desistido de procurar

A história não para aí, e é isso que me derruba em São Barnabé. Quando a fé começou a explodir em Antioquia e era preciso alguém de peso para pastorear aquela gente, São Barnabé não chamou para o seu lado o nome mais cômodo. Ele foi até Tarso procurar São Paulo — que àquela altura estava meio sumido, na sua terra, sem função clara na Igreja. São Barnabé foi buscá-lo. Trouxe-o para Antioquia. E foi lá, naquela cidade, sob o trabalho dos dois, que pela primeira vez na história os discípulos de Cristo foram chamados de cristãos.

Quer dizer: a própria palavra que tu usas para te nomear nasceu de uma comunidade que existia porque um homem teve a humildade de ir atrás de outro maior do que ele e dar-lhe espaço.

São Barnabé acompanhou São Paulo na primeira viagem missionária. Esteve com ele no Concílio de Jerusalém, defendendo que os pagãos convertidos não precisavam virar judeus para virar cristãos. Era o segundo nome da dupla — e estava ótimo nesse lugar.

A briga por uma segunda chance

E então vem o episódio que termina de pintar quem é esse homem. Na hora de partir para a segunda viagem, São Barnabé quis levar de novo um jovem chamado São Marcos. Acontece que São Marcos, na viagem anterior, tinha desertado no meio do caminho — largou a missão e voltou para casa. São Paulo não quis saber: quem abandona a obra uma vez não vai de novo.

São Barnabé discordou. E discordou com tanta firmeza que os Atos registram que houve entre os dois uma desavença tão grande que eles se separaram. São Paulo seguiu de um lado; São Barnabé tomou São Marcos e foi para o outro, de volta a Chipre.

Repara no que está acontecendo de verdade ali. O mesmo homem que avalizou São Paulo quando ninguém confiava nele é o mesmo homem que defende São Marcos quando até São Paulo desistiu dele. São Barnabé é o santo da segunda chance. É o homem que aposta na pessoa que falhou. E olha que a história lhe deu razão: anos depois, é o próprio São Paulo quem escreve, lá da prisão, pedindo que lhe mandem São Marcos, “porque me é útil para o ministério”. O rapaz que tinha desertado virou o evangelista São Marcos, autor do segundo Evangelho. A aposta de São Barnabé na segunda chance estava certa o tempo todo.

A confiança é um risco que a santidade aceita correr

E é aqui que São Barnabé encosta na tua vida e na minha.

A gente vive num tempo que não perdoa. A pessoa errou uma vez e fica marcada para sempre; o sujeito teve um passado feio e a gente decide que ele não muda; alguém nos decepcionou e fechamos a porta de uma vez, com chave. É o instinto do mundo — e, sejamos honestos, é o instinto que parece mais seguro. Confiar de novo é se expor a levar outra facada.

São Barnabé viveu o contrário disso, e a Igreja o canoniza por causa disso. Ele apostou no ex-perseguidor. Apostou no que tinha desertado. Correu o risco da confiança duas vezes — e as duas vezes Deus se serviu daquele risco para construir a Igreja inteira. Sem o aval de São Barnabé, não há São Paulo solto pregando. Sem a teimosia de São Barnabé, talvez não haja Evangelho de São Marcos.

A tradição conta que ele voltou para Chipre, a sua ilha, e ali plantou a Igreja, e ali morreu mártir. Embora não fosse um dos Doze, a Igreja o chama com todo direito de apóstolo — porque apóstolo é o enviado, e poucos foram tão enviados a abrir caminho para os outros quanto ele.

Então a pergunta que São Barnabé deixa não é confortável: de quem é que tu desististe? Quem é o teu Saulo, que todo mundo acha perigoso, mas que talvez só precise de alguém que garanta por ele? Quem é o teu São Marcos, que falhou uma vez e que tu já riscou da lista? A santidade, às vezes, não é fazer um milagre. É ter a coragem de ser, para alguém, o filho da consolação.

São Barnabé, apóstolo, filho da consolação, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico