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Patrono

O PORTUGUÊS QUE QUERIA MORRER

Antes de tudo, uma briga de cidade. Hoje é dia de Santo Antônio de Pádua — ou seria Santo Antônio de Lisboa? As duas cidades reclamam o santo para si, e a história dele já começa nessa dúvida. A verdade é simples: Santo Antônio nasceu em Lisboa, mas se tornou famoso por Pádua, que é a cidade onde ele morreu, na Itália. Eu confesso que sou time Pádua por costume — aprendi a vida inteira a chamar de Santo Antônio de Pádua, mesmo quando eu não era católico, porque era assim que se falava. Mas Lisboa e Pádua, no fundo, são só as duas pontas de uma vida inteira que Deus reescreveu do avesso.

O fidalgo que largou tudo

Santo Antônio nasce em Lisboa na virada do século XII para o XIII, ali por volta de 1195, e é batizado com o nome de Fernando. Filho de família nobre, com uma vida garantida para os padrões da época — podia ter sido cavaleiro, fidalgo, qualquer dessas coisas que abrem todas as portas de um mundo. Mas ele entra primeiro nos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho, em Coimbra. E estuda. Estuda muito. Sagrada Escritura, os padres da Igreja — estava sendo formado para ser um grande intelectual de mosteiro, repara, um monge de verdade, daqueles que a Igreja burila por dentro dos muros.

Só que aí acontece uma coisa que muda tudo. Estamos no tempo exato em que São Francisco de Assis funda uma nova ordem. São Francisco e São Domingos inauguram uma vertente nova da vida religiosa — as ordens mendicantes, que não são monges, não vivem na clausura. E os corpos de cinco franciscanos martirizados no Marrocos, que tinham ido pregar aos muçulmanos e foram mortos, são trazidos de volta e levados a Coimbra. São os primeiros mártires da ordem de São Francisco.

E quando Fernando vê aqueles corpos, aqueles ossos de mártires, alguma coisa acende dentro dele.

A loucura de trocar a clausura pelos maltrapilhos

Aqui Fernando faz algo que, de fora, parece loucura: larga os Cônegos Regrantes, larga o estudo, larga a vida confortável que tinha, e entra naquela ordem de maltrapilhos. É preciso entender o tamanho desse gesto. A vida dos monges, naquele momento, especialmente nas grandes cidades como Coimbra, tinha um quê a mais de civilizada, digamos. Os franciscanos, não — nasceram como eremitas, como São João Batista, como os padres do deserto, vestindo-se de saco. Fernando troca o conforto pela aspereza.

E entra nessa ordem nova de São Francisco mudando de nome: torna-se Santo Antônio. Provavelmente em homenagem a Santo Antão do deserto — justamente um daqueles padres do deserto que trazem a espiritualidade radical, um dos grandes precursores da vida religiosa da Igreja. O nome já era um programa de vida: ir para a raiz, para o osso, para o deserto.

O sonho de Santo Antônio era ir para a África pregar aos muçulmanos e morrer mártir em Marrocos, exatamente como aqueles cinco que ele tinha visto. Ele quer o martírio. É isso que move o coração dele.

Quando Deus diz “aqui não, meu filho”

E aí entra uma grande ironia. Ele embarca para a África, vai para o Marrocos, decidido a derramar o próprio sangue por Cristo — e chega lá e cai de cama. Febre, fraqueza, passa o inverno inteiro doente, sem conseguir pregar a ninguém. Acaba tendo que voltar para a Europa para se tratar. Imagina a frustração de alguém que atravessou o mar para ser mártir, e Deus disse não.

Aí vem o detalhe que é puro dedo de Deus. O barco que devia levar Santo Antônio de volta para Portugal pega uma tempestade e ele vai parar na Sicília. Repara na condução: ele queria a África, fica impossibilitado na África; quando tenta voltar para casa, para Coimbra ou Lisboa, vai parar na Itália. Sem saber, estava sendo levado exatamente para onde Deus o queria.

Chega à Itália e ninguém sabe quem ele é. É só mais um fradezinho doente, magro, perdido entre os franciscanos. Vai parar num convento pequenininho fazendo as tarefas mais humildes — lavando panela, varrendo, cozinhando. Esconde a própria formação, sendo provavelmente um dos mais estudados daqueles religiosos. Ninguém imaginava que aquele frade calado, de cabeça enfiada na Bíblia, sabia teologia de cor.

A boca que deixou todo mundo de queixo caído

Até que um dia tem uma ordenação. Juntam-se franciscanos e dominicanos, e na hora de alguém pregar, ninguém tinha preparado nada. O “deixa que eu deixo”, o superior meio sem opção, manda aquele frade desconhecido, o tal do Santo Antônio: fala qualquer coisa aí, o que o Espírito disser. E Santo Antônio se levanta, começa a pregar — e o que sai daquela boca deixa todo mundo de queixo caído. Uma pregação profunda, fundada na Escritura, com doutrina sólida e ao mesmo tempo uma suavidade no falar, um carisma que ninguém esperava daquele cara calado.

A notícia chega ao próprio São Francisco de Assis, o pai seráfico. E São Francisco, que de algum modo desconfiava do estudo — tinha medo que os frades virassem soberbos com isso —, abre uma exceção para Santo Antônio e manda que ele ensine teologia aos irmãos. Veja a guinada: talvez sem Santo Antônio, São Francisco nunca tivesse inserido o ensino teológico na ordem com essa intensidade. Lembra que os santos não nascem prontos — eles vão sendo construídos. Deus ensina ao próprio São Francisco que aquela preocupação dele precisava de outro direcionamento. A carta em que São Francisco chama Santo Antônio de “meu bispo” existe até hoje. Era o aval do fundador.

O martelo dos hereges virou santo do copo d’água

A partir dali, Santo Antônio vira o maior pregador da sua época, e talvez da Europa por séculos. Roda toda a Itália e o sul da França pregando contra as heresias do tempo — especialmente os cátaros e os albigenses, que ressuscitavam o velho dualismo gnóstico: negavam a bondade da criação, negavam os sacramentos, achavam o mundo terreno mau, a ponto de chegar a jejuns até a morte. Por causa desses combates, Santo Antônio ganhou um apelido duro: martelo dos hereges.

E aqui está uma das maiores ironias da devoção. A devoção popular pega um santo doutor da Igreja chamado martelo dos hereges, firme na pregação, e o transforma naquele carinho de virar a imagem de cabeça para baixo dentro de um copo d’água para ver se casa. É a tal devoção que não conhece a própria história.

Dessa fase vêm as histórias mais famosas. Conta-se que numa cidade onde os hereges se recusavam a ouvi-lo, Santo Antônio foi até a beira do rio e começou a pregar aos peixes — e os peixes vieram pôr a cabeça para fora da água para escutar. E olha o recado duríssimo: isso é tido como milagre de fato, não como poesia. Tu não és obrigado a crer enquanto católico, mas os grandes santos creem, os grandes papas creem, os doutores depois dele creem. É um episódio que ensina: se até os animais conseguem louvar a Deus na sua limitação, que idiotice seria nós, humanos, não fazermos.

E tem a cena famosíssima — Santo Antônio segurando o Menino Jesus nos braços, aquela imagem de qualquer altar. A tradição conta que um homem teria visto, pela janela, o quarto de Santo Antônio cheio de luz e o Menino Jesus em seus braços. Santo Antônio já em vida sendo visto como esse homem apaixonado por Cristo. Mesmo que a visão não fosse verdadeira, ela diz como ele era visto — e é daí que provavelmente nasce a imagem devocional dele.

Mais rápido que um mártir

Santo Antônio morreu jovem, provavelmente entre os 35 e 36 anos, em 1231, pertinho de Pádua, esgotado de tanto pregar. E a velocidade da canonização diz o tamanho do homem: foi canonizado em menos de um ano. Quase ninguém na história foi canonizado tão rápido. Em 1946, o Papa Pio XII lhe deu o título de doutor da Igreja — é o doutor evangélico.

Repara no arco inteiro. O rapaz que queria ser mártir anônimo na África teve que voltar para a Itália, teve tempo de se tornar o maior pregador do seu tempo — e olha que viveu no tempo de São Francisco de Assis e de São Domingos, dois gigantes — e morre para ser canonizado com mais agilidade que um mártir, que já morre beato. A Divina Providência vai conduzindo a vida dos santos, e aqui a gente consegue enxergar isso muito bem.

Aquele negócio de “Deus escreve certo por linhas tortas” eu não compro. Deus escreve sempre certo por linhas certas — a gente é que é meio analfabeto e tem dificuldade de ler. Santo Antônio provavelmente também teve. Ficou frustrado quando o martírio lhe foi negado, quando a febre o derrubou, quando a tempestade o jogou na praia errada. Não sabia que cada linha torta aos olhos dele era reta aos olhos de Deus. E se tornou, com toda certeza, um dos maiores santos da história da Igreja.

Não é que a tua vida vai ser sem frustração. É que a frustração, na mão de Deus, pode ser exatamente o vento que te empurra para a praia certa.

Santo Antônio de Pádua, martelo dos hereges, doutor evangélico, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico