Hoje, 23 de setembro, a Igreja celebra São Pio de Pietrelcina. E é bem provável que a primeira imagem que vem à cabeça seja a de um místico exótico — um frade de mãos sangrando, cercado de prodígios, um personagem de outro mundo, distante do seu.
Pois eu vim te dizer, caro leitor, que a vida real desse homem foi quase o oposto disso. Passou décadas confessando pecados no mesmo convento; ajudou a erguer um hospital de tijolo e cimento; morreu de exaustão de tanto servir. A chaga mais examinada do século XX esteve presa ao corpo mais ordinário e mais disponível que se pode imaginar.
O menino de Pietrelcina.
Nasceu Francesco Forgione — o futuro São Pio de Pietrelcina — em 25 de maio de 1887, na pequena Pietrelcina, no interior da região de Benevento, na Campânia italiana; foi batizado no dia seguinte, como se a família não quisesse perder tempo em confiá-lo a Deus. Filho de camponeses pobres e católicos, cresceu entre o trabalho da terra e a devoção simples de quem não tinha luxo de sobra para nada além da fé.
O hábito que pesava mais que o corpo.
Em 6 de janeiro de 1903, com dezesseis anos, entrou no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos, em Morcone; dias depois, em 22 de janeiro, recebeu o hábito franciscano e o nome de Frei Pio — o mesmo São Pio de Pietrelcina que a história reteria. Foi ordenado sacerdote em Benevento, em 10 de agosto de 1910. A saúde, frágil desde jovem, tantas vezes o afastou do convento; o corpo pedindo repouso justamente do homem que a vida inteira não descansaria.
A ferida que não fecha.
Em 20 de setembro de 1918, diante do crucifixo, no coro do convento de San Giovanni Rotondo, na Apúlia, São Pio de Pietrelcina recebeu nas mãos, nos pés e no lado as cinco chagas visíveis da Paixão. Não foram um susto passageiro. Permaneceram ali — sangrando, sem infecção, sem cicatrizar — por cinquenta anos, examinadas por médicos que a própria Igreja mandou verificar: o Dr. Luigi Romanelli, em 1919; o Dr. Giorgio Festa, em três ocasões; o Dr. Amico Bignami, enviado pela Santa Sé em 1920. Todos diante do mesmo enigma que a medicina não sabia nem explicar, nem desmontar.
A palavra que se usa para nomear isso vem do grego stígma — marca, sinal, a ferida feita por um instrumento pontiagudo. No mundo antigo, era isso que se gravava na pele de um escravo ou de um criminoso: o selo de quem pertencia a outro contra a própria vontade, a marca da vergonha. São Paulo usa exatamente essa palavra na carta aos Gálatas: “eu levo no meu corpo os estigmas do Senhor Jesus” (Gl 6,17). E inverte o sentido da marca: o que o mundo grava para excluir, Cristo grava para unir a si. A ferida de São Pio de Pietrelcina selava esse pertencimento na própria carne, levado ao extremo.
Anos de suspeita.
Meu irmão, se você pensou que uma ferida sobrenatural abre portas automáticas para o reconhecimento, esqueça. A partir de 1923, ordens vindas de Roma o proibiram de celebrar missa em público e de confessar — sob suspeita, alimentada por detratores, de fraude ou de histeria. Anos de silêncio impostos justamente ao homem que seria, mais tarde, o maior confessor do seu século. A reabilitação só veio, progressivamente, a partir de 1933.
O confessionário e o hospital.
Foi depois disso que a vida do religioso — a partir de então tratado como São Pio de Pietrelcina, e chamado pelo povo, simplesmente, de “Padre Pio” — se revelou pelo que realmente era: trabalho. Chegou a confessar entre doze e dezenove horas por dia, décadas a fio, muitas vezes sem sequer parar para comer; penitentes relatavam pecados que ele revelava antes de serem ditos, esquecidos havia décadas; formaram-se filas de meses de espera diante da porta de um homem que não tinha nada de exótico a oferecer além de tempo e atenção.
Em 1956 fundou o hospital Casa Sollievo della Sofferenza, em San Giovanni Rotondo — “casa de alívio do sofrimento” —, erguido com contribuições vindas do mundo inteiro e ainda hoje um dos melhores hospitais da Itália. O homem marcado com a ferida de Cristo passou a vida tratando as feridas dos outros; se isso não é o Evangelho tomando corpo, eu não sei o que seria.
Há, na carta aos Colossenses, uma frase de São Paulo que ilumina o que se passou em San Giovanni Rotondo: “completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, em favor do seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). Não porque falte algo à Paixão — ela é perfeita e basta —, mas porque Cristo escolhe unir ao próprio sacrifício a carne dos que O amam, e fazer daquela carne um instrumento a mais de caridade para com os outros.
A última missa.
Na noite de 22 para 23 de setembro de 1968, São Pio de Pietrelcina celebrou a missa do quinquagésimo aniversário dos estigmas — que já haviam desaparecido, sem deixar marca, sem cicatriz, como se a carne tivesse sido devolvida limpa depois de cinquenta anos de dívida paga. Morreu às duas e meia da madrugada, em sua cela, com oitenta e um anos.
Dois papas, uma frase.
São João Paulo II o beatificou em 2 de maio de 1999 e o canonizou em 16 de junho de 2002, ambas as cerimônias na Praça de São Pedro. Na homilia da canonização, citou as próprias palavras do santo: “Sou um pobre franciscano que reza.” E recordou que São Pio de Pietrelcina repetia, a quem o procurava, que a oração é a melhor arma que temos — uma chave que abre o coração de Deus. É a mesma convicção que ficou registrada na devoção popular que passou a repetir depois dele: reza, espera e não te angusties.
A resposta ao argumento.
Você talvez conheça a versão fácil dessa história — a de um santo que existiu para sofrer bonito, para ser admirado de longe, como estampa de santinho. Não foi isso. A ferida que São Pio de Pietrelcina carregou por cinquenta anos não o tirou do mundo; prendeu-o mais nele — no confessionário, entre pecados que ele ajudava a desatar; no hospital que ajudou a erguer para quem sofria sem nenhum sinal sobrenatural, só a dor de todo dia.
Não peça a Deus que retire a cruz antes de perguntar o que fazer com ela enquanto ela dura.
O Todo Santo Dia de hoje fala sobre São Pio de Pietrelcina, e quem quiser conhecer a vida dele por completo encontra o verbete completo no Martirológio do Hub. São Pio de Pietrelcina, rogai por nós.