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Quem reforma o Carmelo depois de anos de tibieza?

Peter Paul Rubens, "Santa Teresa de Ávila" (c. 1615) — Kunsthistorisches Museum, Viena · Wikimedia Commons (domínio público) · commons.wikimedia.org/wiki/File:Peter_Paul_Rubens_138.jpg

Caro leitor, imagine uma religiosa de Ávila cujo fervor esfriou, e que segue assim por longos anos. Agora imagine que essa mesma mulher será reformadora da sua Ordem e doutora da Igreja. Parece enredo inventado; é a vida de Santa Teresa de Jesus, que a Igreja recorda hoje.

Onde começa uma santa?

Pelo começo, dirá o leitor, e o começo foi brilhante. Conta o Pe. Rohrbacher que a menina leu com o irmãozinho as vidas dos santos e quis morrer como os mártires; fugiram os dois para a terra dos mouros, mendigando pelo caminho, até que um tio os encontrou e os levou de volta. Fez ermidas no jardim. Aos doze anos, perdida a mãe, prostrou-se diante de uma imagem de Nossa Senhora e pediu que lhe servisse de mãe.

Eis aí um começo e tanto. E depois?

Depois veio o esfriamento: romances, conversas mundanas de uma parenta, o fervor que se dissipa sem barulho. O pai a internou por algum tempo num convento, e ali a piedade despertou. Entrou no Carmelo, jovem, por volta de 1535, na casa da Encarnação, em Ávila. Passou ali muitos anos, provada por longas moléstias; e o fervor, em verdade, seguia morno.

Tépida: e daí?

A palavra vem do latim tepidus, o que nem esquenta nem esfria. Nosso Senhor a conhece bem: “porque és morno, e não és nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Ap 3,15-16). Ninguém procura um morno na vida dos santos; procura-se o fogo.

“Ah, mas então basta largar o essencial por longos anos e ainda assim chegar aos altares?” Não poderia estar mais errado. A tibieza continuou sendo o que é: perda. O que a vida de Santa Teresa de Ávila mostra é que a perda não teve a última palavra, porque ela recomeçou. Talvez nossa vida seja mesmo a obra da nossa fé nisto: no dia seguinte ao fracasso, na manhã em que se recomeça sem plateia.

A santidade, meu irmão, mede-se pelo último passo; o primeiro, qualquer menina entusiasmada dá. Quem fundou foi a freira que perseverou, e as ermidas do jardim ficaram na infância.

Reformar é inventar?

Pergunte a um homem do nosso tempo o que faz uma reformadora e ele dirá: rompe, derruba, começa do zero. Santa Teresa de Jesus fez o contrário. A Ordem do Carmo havia se afastado da austeridade primitiva, e ela recebeu a inspiração de levá-la de volta à antiga regra. Voltar, e nada de novidade.

Pagou por isso. Sofreu calúnias e perseguições; confessores lhe diziam que podia estar iludida pelo demônio. Em 1559, São Pedro de Alcântara a consolou, a defendeu e a exortou a empreender a reforma sobre a pobreza. Em 1562 nascia São José de Ávila, o primeiro mosteiro reformado. Em Medina del Campo, por volta de 1567, conheceu São João da Cruz, e os dois comunicaram um ao outro o mesmo desejo de restabelecer a observância primitiva. A reforma começou pelas carmelitas e terminou pelos carmelitas. Em 1580, a Ordem das Descalças foi aprovada, sob Gregório XIII, e o Martirológio Romano resume o resto: tudo suportou com fortaleza invencível.

Nascemos para continuar a história. Santa Teresa de Jesus o viveu antes de nós: a Igreja se renova quando alguém aceita ser fiel à regra que já existe.

O que escreve uma doente por obediência?

Escreve a Vida, por ordem do pai espiritual; o Caminho de Perfeição, comentário ao Pai-Nosso a pedido das religiosas do primeiro mosteiro; o Castelo Interior, começado no dia da Santíssima Trindade de 1577, em Toledo. Dali veio a imagem que ficou: “Devemos considerar nossa alma como se fosse um castelo construído com um único diamante ou cristal magnífico, no qual, como no céu, há várias moradas”.

Terminada a fundação de Burgos, em 1582, ia a Ávila quando a Duquesa de Alba insistiu, e ela foi a Alba de Tormes, onde chegou a 20 de setembro. Adoeceu. Às religiosas disse: “Conjuro-vos, pelo amor de Deus, que observeis estritamente a regra e as constituições e não escolhais como modelo esta indigna pecadora que vai morrer”. Ao ver o viático: “Ó meu Senhor e meu Esposo, eis que se aproxima a hora tão ardentemente desejada!… Seja feita a vossa vontade!”. Repetiu “Meu Deus, não rejeitareis um coração contrito e humilhado” até perder a fala. Morreu nos braços da Beata Ana de São Bartolomeu, na virada de 4 para 5 de outubro. Naquela reforma do calendário, dez dias foram suprimidos e o dia seguinte contou como 15; daí a memória de hoje.

Pediu que não a tomassem por modelo, e a Igreja respondeu fazendo dela doutora: São Paulo VI a declarou assim em 27 de setembro de 1970, a primeira mulher a receber o título.

E você, de onde vai recomeçar?

Talvez você esteja morno há anos. Talvez a oração tenha virado hábito, a Missa, obrigação, a confissão, adiamento. Talvez ache tarde. A tibieza de Santa Teresa de Ávila durou longos anos, e ela ainda teve vida para fundar, escrever e morrer pedindo misericórdia.

Quer conhecê-la melhor? Abra o verbete de Santa Teresa de Jesus no Martirológio do Hub Católico.

Volte à regra. Recomece hoje.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico