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QUEM NÃO TEM NADA PODE CONFIAR?

Autor desconhecido, “Siostra Faustyna Kowalska - Płock” (1931) — Wikimedia Commons (domínio público)

Costuma-se achar que confiar é privilégio de quem tem as costas guardadas: dinheiro no banco, nome de família, estudo, contatos. Quem tem onde se apoiar, confia; quem não tem, se defende. Santa Faustina Kowalska desmente a conta inteira. Camponesa pobre, com pouquíssima escola, cozinheira e porteira de convento, morta aos 33 anos, ela deixou ao mundo uma frase de seis palavras que milhões repetem todos os dias: “Jesus, eu confio em Vós”.

A filha de Głogowiec

Santa Faustina nasceu Helena Kowalska, em 1905, em Głogowiec, na Polônia. Família camponesa, pobre, de muitos filhos; cerca de três classes de escola, e só. Ainda adolescente, foi trabalhar como empregada doméstica em casas alheias.

Nada nesse começo apontava para a história. O mundo costuma registrar quem tem diploma, patrimônio ou cargo; a menina de Głogowiec tinha as mãos e a fé.

Segundo o relato tradicional, em 1924, aos 19 anos, durante um baile, ela viu Cristo ferido, e dali partiu para Varsóvia. Em 1º de agosto de 1925 entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia e recebeu o nome religioso de Maria Faustina do Santíssimo Sacramento.

Cozinha, jardim e portaria

O convento, para ela, foi uma escala de ofícios modestos: cozinheira, jardineira, porteira. Passou por Varsóvia, Vilnius, Płock, Cracóvia. Fez os votos perpétuos em 1933. Ninguém, nas casas por onde andou, tinha motivo para suspeitar de que a irmã da cozinha ou da portaria seria um dia canonizada em plena Praça de São Pedro.

Meu irmão, esta é a primeira lição: a santidade não pede cargo. Pede lugar, e o lugar de Santa Faustina era o fogão, o canteiro e a porta. Quem abre a porta do convento abre também a porta para quem chega com fome, com pressa, com problema; é ofício de misericórdia disfarçado de serviço.

Seis palavras

Em 22 de fevereiro de 1931, em Płock, Santa Faustina viu Cristo vestido de branco, com a mão direita erguida em bênção e a esquerda tocando o peito, de onde saíam dois raios, um vermelho e um claro. Cristo pediu-lhe que mandasse pintar aquela imagem com uma inscrição: “Jezu, ufam Tobie”. Jesus, eu confio em Vós.

A primeira pintura foi feita em Vilnius, em 1934, por Eugeniusz Kazimirowski. Ao lado dela havia um confessor, o Beato Michał Sopocko, que a incentivou e a orientou. Entre 1934 e 1938, sob a orientação dele, Santa Faustina escreveu o Diário, em seis cadernos. Em 1935 veio o Terço da Misericórdia; ficou também a Hora da Misericórdia, às 15h, a hora da morte de Cristo.

Repare no verbo da inscrição: “eu confio”, sem espaço para “eu admiro” ou “eu entendo”. Em latim, confidere: cum mais fidere, fiar-se com. Entregar o peso do próprio corpo a outro, sem ter garantia na mão.

O coração dos miseráveis

A palavra “misericórdia” vem de miseris mais cor: o coração voltado para os míseros. Deus tem coração para a miséria humana; essa é a definição que a palavra carrega no próprio corpo. E o Evangelho entrega o endereço dessa revelação: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Nossa Senhora cantou o mesmo: “Ele olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48).

Você deve estar pensando que confiar é o consolo de quem não tem alternativa; que a camponesa confiou porque não tinha mais nada. Pense de novo. Confiança exige algo a entregar, e Santa Faustina entregou o que tinha: a juventude, o trabalho, a saúde, a vida inteira. Quem tem muito costuma confiar nas próprias reservas; quem tem pouco descobre onde está o chão. Ela cozinhou, cuidou do jardim, abriu a porta, escreveu o que lhe pediam e adoeceu de tuberculose sem trocar o “eu confio” por nenhum outro lema.

Dos cadernos à Praça de São Pedro

Santa Faustina morreu em 5 de outubro de 1938, em Cracóvia, no convento de Łagiewniki, com 33 anos. Poderia ter acabado ali, entre cadernos e uma pintura de Vilnius.

Mas em 1958 e 1959 a Santa Sé impôs restrições à difusão de textos e imagens ligados à devoção, por problemas nas traduções que circulavam. A medida atingiu a circulação dos textos; a santa seguiu fora de qualquer condenação. A restrição foi revogada em 15 de abril de 1978. Em 1965, o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, o futuro São João Paulo II, tinha aberto o processo diocesano.

Santa Faustina foi beatificada em 18 de abril de 1993 e canonizada em 30 de abril de 2000, por São João Paulo II, na Praça de São Pedro. Na mesma homilia, ele declarou o II Domingo de Páscoa “Domingo da Divina Misericórdia”. Disse ali: “Por divina Providência, a vida desta humilde filha da Polônia esteve completamente ligada à história do século XX.” E: “Quantas almas foram consoladas pela oração ‘Jesus, eu confio em Vós’, que a Providência inspirou…” E ainda: “escondida em seu convento de Łagiewniki, em Cracóvia, fez da sua vida um hino à misericórdia.”

São João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, véspera do Domingo da Misericórdia. Foi canonizado em 27 de abril de 2014, nesse mesmo domingo, junto com São João XXIII.

A Igreja reconhece a santidade de Santa Faustina e a devoção à Divina Misericórdia; as revelações privadas, porém, não fazem parte do depósito da fé, e quem as recebe aprende com elas a viver o Evangelho de sempre.

O Martirológio Romano resume assim: “Em Cracóvia, na Polónia, Santa Maria Faustina Kowalska (Helena Kowalska), virgem das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, ardentemente solícita em anunciar o mistério da divina misericórdia.”

Confie hoje

Fica a pergunta do título, respondida por uma vida de 33 anos: quem não tem nada pode confiar, e talvez confie melhor que ninguém. Santa Faustina não esperou ter nome, estudo, saúde ou aprovação. Fez o serviço que lhe cabia e entregou o resto.

Então, caro leitor, faça você também. Pegue a coisa que você não consegue resolver, a dívida, a doença, o filho, a oração que parece cair no vazio, e diga a Cristo, com a boca e com a vida: Jesus, eu confio em Vós. Diga às três da tarde, no meio do trabalho, na cozinha, na portaria, no ônibus. Diga de novo amanhã.


Se quiser conhecer mais sobre a vida de Santa Faustina, o verbete completo está no Martirológio do Hub. Santa Faustina, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico