Hoje, 17 de outubro, a Igreja recorda Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir. E há nessa memória um escândalo que o caro leitor talvez nunca tenha percebido, de tão acostumado que está ao nome do santo. Um homem condenado às feras escreve, a caminho do anfiteatro, uma carta à Igreja de Roma. Não pede que intercedam por sua vida. Pede que não intercedam. Pede que o deixem ser devorado.
Antes de julgar o pedido, convém conhecer o homem.
Aquele que traz a Cristo no coração
Santo Inácio de Antioquia foi discípulo do apóstolo São João e segundo sucessor de São Pedro no governo da Igreja de Antioquia, a metrópole da Síria. Sucedeu a Santo Evódio, que por sua vez tomara o lugar de São Pedro. Chamavam-no Teóforo, do grego Theophoros: portador de Deus.
O nome ganha peso no interrogatório. Trajano, que preparava em Antioquia a guerra contra os partas, perseguia os cristãos, e quis saber o que significava aquela alcunha. Santo Inácio de Antioquia respondeu que Teóforo é “aquele que traz a Cristo no coração”. Diante do imperador, a etimologia virou confissão de fé.
E repara, caro leitor, no que o relato nos conta sobre o passado dele. Já na perseguição de Domiciano, Santo Inácio de Antioquia se afligia por não ser digno do martírio. Quando Trajano chegou, o bispo não fugiu. Esperou.
A sentença e a gratidão
A sentença mandava que fosse “posto a ferros e conduzido por soldados à grande Roma a fim de ser devorado pelas feras e servir de distração ao povo”. Ouvida a condenação, Santo Inácio de Antioquia agradeceu ao Senhor por ser agrilhoado com as cadeias que o apóstolo São Paulo também usara.
Leu a sentença como honra; leu-a como herança.
Dez soldados e sete cartas
A viagem até Roma foi longa, feita sob a guarda de dez soldados, e ele a transformou em magistério. Santo Inácio de Antioquia ia acompanhado de Filon, diácono, e de Agatópode. Passou por Esmirna, onde visitou São Policarpo, condiscípulo seu, também discípulo de São João. Delegações de Éfeso, com o bispo Onésimo, de Magnésia e de Trales vieram ao seu encontro. De Esmirna escreveu aos efésios, aos magnésios, aos tralianos e aos romanos; de Trôade, aos filadelfenses, aos esmirniotas e ao bispo São Policarpo. São sete cartas.
O Martirológio Romano registra que ele as escreveu “experimentando a ferocidade dos guardas, semelhante à dos leopardos”. Pensa na cena: acorrentado a homens que o maltratam, ele se senta e exorta as Igrejas a servirem a Deus em união com os bispos.
O trigo de Deus
A mais célebre é a carta aos romanos, endereçada “à Igreja que preside a caridade”. Nela está o pedido que escandaliza:
“Sou o trigo de Deus; seja, pois, moído pelos dentes dos leões, para que em Jesus Cristo eu seja um pão sem mancha!”
Nosso Senhor já dissera que, se o grão de trigo cai na terra e morre, produz muito fruto (Jo 12,24). Santo Inácio de Antioquia tomou a imagem ao pé da letra. O grão tem de ser moído para virar pão, e o pão tem de ser partido para alimentar. Ele quis ser, na boca das feras, aquilo que Cristo é no altar.
Eu sei o que estás pensando: isso é desejo de morte, exaltação doentia, fanatismo. Relê então o que ele pede. Pede que os cristãos de Roma não o impeçam. Nada mais. Quando desembarcou em Pôrto, na foz do Tibre, os jogos iam acabando, e ele implorava a quem pudesse mexer uma palha a seu favor que se calasse. Quem fala assim busca Cristo, e a morte é o caminho que lhe resta. Por isso escreve: “Morrer por Jesus é para mim melhor do que reinar até os extremos da terra.” E por isso confessa: “O meu amor está crucificado.”
Há ainda a frase mais difícil: “Serei, dessarte, um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir sequer o meu corpo.” O discípulo verdadeiro dispensa plateia. Santo Inácio de Antioquia quer desaparecer em Cristo, e a coragem é só o caminho.
O pão e o sangue
Na mesma carta, ele revela de que fome vivia: “Desejo o pão de Deus, o pão celestial, que é a carne de Jesus Cristo… desejo a bebida de Deus, o seu sangue, que é a caridade incorruptível.” É a linguagem do capítulo sexto de São João, em que Cristo se diz o pão vivo e promete vida eterna a quem comer a sua carne e beber o seu sangue (Jo 6,51-54). O bispo que se oferece às feras é o mesmo que tem sede da Eucaristia. A entrega do mártir nasce do altar; o altar, por sua vez, explica o martírio.
Onde está o bispo, ali está a Igreja
Aos esmirniotas, Santo Inácio de Antioquia deixou uma sentença que a Igreja nunca mais esqueceu: “Mantende-vos unidos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai… assim como se encontra a Igreja católica onde quer que esteja Jesus Cristo.”
Católica, do grego katholikos, quer dizer universal. A Igreja de Santo Inácio de Antioquia não se define por fronteira, época ou gosto; define-se pela presença de Cristo, e a presença de Cristo se reconhece na comunhão com o bispo. Quem escreve isso, escreve acorrentado, a caminho de Roma, sem tempo para teoria. Fala do que o sustenta.
Os ossos maiores
O fim veio no anfiteatro de Roma. Segundo os Atos, no décimo ano de Trajano, em 107 d.C., Santo Inácio de Antioquia foi despedaçado por dois leões e tão devorado que sobraram apenas os ossos maiores. Os Atos, atribuídos pela tradição a Filon e Agatópode, contam que os dois levaram esses restos a Antioquia, onde foram conservados na igreja como inestimável tesouro.
O pedido foi atendido ao pé da letra: o mundo quase não viu o corpo. Os que o amaram guardaram o que restou.
São Policarpo, escrevendo aos filipenses, junta Santo Inácio de Antioquia a Santo Zósimo e a Santo Rufo, e diz que esses homens não tinham morrido em vão. A frase serve de resposta a quem ainda pergunta, vinte séculos depois, por que um bispo implora que não o salvem. Ninguém que viva para Cristo perde a vida, porque a entrega, quando é a Ele, dá fruto.
Quem trazes no coração?
Teóforo: portador de Deus. O título pertence ao santo, mas a pergunta que ele carrega é nossa. Santo Inácio de Antioquia respondeu a Trajano com uma definição; nós respondemos ao mundo, todos os dias, com a vida. Cada decisão no trabalho, em casa, na paróquia, diz quem trazemos no coração.
Por isso, caro leitor, não deixes a memória de hoje passar em branco. Volta à Missa e deseja o pão de Deus como ele o desejou. Une-te ao teu bispo e reza por ele, pelo nome. Traz Cristo, sem vergonha, no que falas e no que calas.
Santo Inácio de Antioquia, Teóforo, bispo e mártir, rogai por nós.