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PEDIU O MUNDO, RECEBEU UMA CIDADE

Hieronymus Wierix, retrato de São Bernardino Realino (1616-1619) — Rijksmuseum, Amsterdã · Wikimedia Commons (CC0/domínio público)

Costumamos medir a santidade pela distância percorrida. O santo que atravessou oceanos, que fundou uma ordem, que morreu mártir numa terra estranha — esse a gente entende de imediato como grande. Já o santo que passou a vida inteira dentro dos mesmos muros, fazendo praticamente a mesma coisa todos os dias durante quarenta anos, a gente tende a arquivar como “bom padre”, “querido pela paróquia”, categoria menor. Como se santidade fosse sinônimo de conquista, e permanência fosse apenas o que sobra pra quem não teve chance de conquistar nada.

São Bernardino Realino desmente essa conta por dentro, porque ele teve a chance. E não foi imposta a ele: foi tirada.

Caro leitor, guarda esse detalhe, porque o artigo inteiro se apoia nele: o homem que hoje a Igreja celebra em 2 de julho não era um homem sem opções que se resignou ao pouco. Era um homem que teve tudo — nome, formação, carreira, um sonho missionário concreto — e que, posto diante de um lugar só, ficou. Quarenta e dois anos no mesmo lugar. E foi ali, exatamente ali, que a santidade dele nasceu.

O doutor que tinha tudo

São Bernardino Realino nasceu em Carpi, perto de Módena, no norte da Itália, em 1º de dezembro de 1530. Filho de militar a serviço de um príncipe da casa de Gonzaga, estudou letras e direito em Carpi, em Módena e em Bolonha, onde se doutorou in utroque iure — em direito civil e em direito canônico ao mesmo tempo, façanha reservada a poucos. Não era um rapaz promissor apenas na teoria: a carreira confirmou a promessa. Foi podestà de Fellizzano, advogado em Alessandria, governador de Cassino, juiz em Castiglione, intendente do marquês de Pescara no governo de Nápoles. Cardeais e marqueses o protegiam. Aos trinta e poucos anos, São Bernardino Realino já tinha aquilo que qualquer jurista da Itália do século XVI consideraria o ápice de uma vida bem-sucedida.

E então, num retiro espiritual pregado por um jesuíta em Nápoles — a Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola, era ainda ordem recente, mal tinha uma geração de existência —, alguma coisa nele se partiu ao meio.

Não foi ajuste. Foi ruptura. Aos trinta e quatro anos, em 13 de outubro de 1564, São Bernardino Realino entrou como noviço no colégio jesuíta de Nápoles, recebido por Afonso Salmerón, um dos primeiros companheiros do próprio Santo Inácio. Foi ordenado padre aos trinta e sete; foi mestre de noviços até 1571. E sonhava — o Papa Pio XII lembraria isso séculos depois — em ir para as missões da Índia.

O que ele pediu, o que ele recebeu

Aqui está o centro de tudo.

Nós pedimos tudo e temos dificuldade de abrir mão do pouco que temos. Brigamos por um cargo, por um metro quadrado a mais, por reconhecimento, e chamamos essa briga de ambição legítima — o que muitas vezes até é. Mas repara no contraste: São Bernardino Realino tinha tudo — doutorado duplo, carreira consolidada, proteção de cardeais — e abriu mão de tudo. Não abriu mão do supérfluo. Abriu mão da substância inteira de uma vida já feita.

E, tendo abandonado tudo, pediu o mundo de volta em forma de missão: queria a Índia, queria a distância máxima, queria o tipo de sacrifício que a gente reconhece de longe como heroico.

Recebeu Lecce.

Em 1574, a pedido do prelado Mário Carafa, São Bernardino Realino foi enviado à cidade de Lecce, na Apúlia, no extremo sul da Itália, para ajudar a fundar ali a casa e o colégio da Companhia de Jesus. E ali ficou. Não por seis meses, não por um mandato — ficou os quarenta e dois anos que lhe restavam de vida, até morrer, na mesma cidade, no mesmo colégio, entre as mesmas ruas.

Por que ficar quarenta e dois anos numa cidade do sul da Itália seria menos digno de santidade do que atravessar o oceano rumo às Índias? A pergunta parece ingênua até a gente perceber que é exatamente essa a lógica que a gente aplica todos os dias às próprias vidas — a lógica de que o lugar comum, o cargo sem glamour, a paróquia pequena, o bairro de sempre, é o consolo de quem não conseguiu mais nada. São Bernardino Realino prova o contrário: o lugar que Deus dá não é o prêmio de consolação do lugar que a gente sonhou. É o lugar onde a fidelidade vira carne.

A cidade que já sabia

Ainda que São Bernardino Realino jamais tenha pisado na Índia, Lecce o conheceu por inteiro. Pregava na catedral; visitava doentes e prisioneiros; catequizava sem descanso; usava o próprio saber jurídico — aquele mesmo doutorado in utroque iure que um dia serviu a marqueses — para pacificar facções rivais dentro da cidade. Cuidava de presos, de enfermos, de pobres, inclusive de escravos turcos condenados às galés, gente que ninguém mais visitava. Tornou-se, dizem os relatos, o homem mais querido de Lecce: as famílias o convidavam para almoçar e jantar, como quem convida um parente.

Amava passarinhos com uma ternura quase infantil. Comprava pássaros presos em gaiolas só para soltá-los. No inverno espalhava grãos no pátio de casa, e um bando inteiro vinha pousar-lhe nos ombros e na cabeça, entrando até no quarto onde ele estudava.

Ficou quase cego a partir de 1610; ainda assim recebia a comunhão diariamente, coisa raríssima para a época. Teve por amigos o Beato Carlos Spinola — que depois morreria mártir no Japão —, São Roberto Belarmino, já então Doutor da Igreja, e Santo André Avelino. Homens grandes reconheciam nele algo que a cidade já reconhecia havia décadas sem precisar de processo nenhum: Lecce já sabia que tinha um santo no meio dela, muito antes de qualquer decreto de Roma dizer o mesmo.

Um voto feito à beira da morte

Dias antes de morrer, os magistrados de Lecce foram ao seu leito. São Bernardino Realino estava já muito debilitado, quase adormecido numa poltrona. E ali, solenemente, pediram-lhe que tomasse a cidade sob sua proteção celeste para sempre.

Ele aceitou, comovido. Lavraram ata do compromisso ali mesmo, junto ao leito. É preciso notar a nuance com honestidade: São Bernardino Realino não deu aos magistrados nenhuma certeza de que estaria no céu — isso não cabia a ele prometer. O que ele prometeu foi outra coisa, mais modesta e mais concreta: que, depois da morte, continuaria amando aquela cidade. Os mesmos magistrados pressionaram o bispo a abrir, já em 15 de dezembro de 1615, o processo informativo de sua canonização. A cidade não esperou Roma para reconhecer o que já via.

Os dois nomes no fim

São Bernardino Realino morreu em Lecce em 2 de julho de 1616, aos oitenta e seis anos, invocando os nomes de Nosso Senhor e de Nossa Senhora.

Vale voltar ao início da vocação para entender esse fim. Quando, ainda advogado bem-sucedido, ele atravessou a ruptura que o levou à Companhia de Jesus, o nome da Santíssima Virgem já lhe era caro de um jeito particular — a devoção que o acompanharia até o leito de morte já estava ali, na origem, antes de qualquer cargo eclesiástico, antes de Lecce, antes dos quarenta e dois anos de permanência. A vida inteira dele tem essa espécie de fio único: o mesmo homem que abriu mão de tudo por Cristo é o mesmo que, ao morrer, chama por Cristo e por Sua Mãe. Não há distância entre o início e o fim.

Foi beatificado pelo Papa Leão XIII em 27 de setembro de 1895, e canonizado pelo Papa Pio XII, junto com São João de Brito — jesuíta e mártir — e São José Cafasso. O Martirológio Romano resume tudo numa única frase, que vale a pena ler devagar: “resplandeceu pela sua grande caridade e benignidade e, deixando todas as honras mundanas, se dedicou ao cuidado pastoral dos presos e dos enfermos e ao ministério da palavra e da penitência.”

O que fica

Meus amigos, não creio que a vida de São Bernardino Realino sirva para nos consolar de sonhos que não realizamos — seria fácil demais ler assim, e seria também uma leitura errada. Ele não desistiu do sonho da Índia porque era covarde ou porque faltou oportunidade; desistiu porque Deus lhe deu, no lugar do sonho, uma cidade real, com gente real, com pássaros de verdade batendo asa no pátio de uma casa de verdade. E ele disse sim a essa cidade com a mesma inteireza com que teria dito sim à Índia.

A pergunta que ele deixa não é se tu sonhas grande — é o que tens em comum com um homem que teve tudo e abriu mão de tudo para ficar exatamente onde foi colocado, ou o que há, na tua vida, de completamente antagônico a isso. Porque a maior parte de nós não vai ser enviada à Índia. Vai ser enviada, como São Bernardino Realino, a uma cidade só, a uma família só, a um trabalho só — e a santidade, se vier, virá dali.

São Bernardino Realino, rogai por nós.


P
Patrono
Colunista do Hub Católico