Hoje, 20 de outubro, o Martirológio Romano comemora São Cornélio, centurião, que em Cesareia da Palestina foi batizado por São Pedro como primícias da Igreja dos gentios. A pergunta do título parece ter resposta pronta: São Pedro, o das chaves. Leia o capítulo 10 de Atos dos Apóstolos com calma, caro leitor, e a resposta se complica; nesse capítulo, quem hesita é o pescador, quem espera é o soldado, e quem arromba as duas portas é o Espírito Santo.
Um oficial que rezava sem cessar
Centurio, em latim, vem de centum: o comandante de uns cem homens, a espinha dorsal da legião romana. São Cornélio comandava uma dessas centúrias numa coorte chamada Itálica, estacionada em Cesareia. Era pagão, e o texto sagrado, fiel ao que importa, não gasta uma linha com isso antes de descrevê-lo: “religioso e temeroso de Deus com toda a sua família”, dando muitas esmolas ao povo e orando a Deus sem cessar (At 10,2).
Pare nesse retrato. Ainda não há batismo, não há Credo, não há Eucaristia, e já há um homem de joelhos todos os dias e de mão aberta para os pobres. Por volta da hora nona, um anjo lhe aparece e diz que as suas preces e as suas esmolas subiram à presença de Deus (At 10,3-4). Note o verbo: subiram. Havia endereço certo para aquela oração antes que o orante soubesse o nome de Cristo.
Rohrbacher, ao introduzir o episódio, lembra a profecia do santo ancião São Simeão sobre o Menino: luz para iluminar as nações (Lc 2,32). E acrescenta que o nome dele é o nome de família dos Cipiões e da mãe dos Gracos, gente da mais alta romanidade. Roma inteira, por assim dizer, batia à porta naquele quartel de Cesareia.
O lençol de São Pedro
O anjo manda chamar em Jope um certo Simão, cognominado São Pedro, hóspede na casa de outro Simão, o curtidor. São Cornélio obedece sem discutir: envia dois criados e um soldado temente a Deus.
Do outro lado, a cena é menos serena. Enquanto os enviados se aproximam, São Pedro sobe ao terraço para rezar, perto da sexta hora, com fome. Num êxtase, vê o céu aberto e uma grande toalha, descendo pelas quatro pontas, cheia de quadrúpedes, répteis e aves. Uma voz ordena que se levante, sacrifique e coma. E ele, o primeiro dos Apóstolos, responde: “Não, Senhor”. Jamais comera coisa impura. A voz replica: “não chames impuro ao que Deus purificou” (At 10,15). Três vezes, ao todo (At 10,9-16).
Eu sei o que o leitor pensa: foi um simples cardápio, um assunto de comida. Só que a visão acaba quando batem à porta três homens enviados por um oficial estrangeiro, e o Espírito diz a São Pedro que desça e vá com eles sem hesitar. O lençol tratava de pessoas. Para um judeu daquele tempo, entrar na casa de um gentio era repugnante, e o próprio São Pedro o reconhece diante dos presentes: sabeis como é odioso a um judeu unir-se a um forasteiro ou visitá-lo; mas Deus me ensinou a não chamar nenhum homem de profano nem de impuro (At 10,28).
Repare na ordem dos fatos. O anjo trabalhou em Cesareia; o Espírito trabalhou em Jope. A chave de São Pedro só girou depois que o Céu preparou as duas fechaduras.
A casa onde o Espírito chegou antes da água
Chegam a Cesareia. São Cornélio reuniu parentes e amigos e recebe o Apóstolo lançando-se a seus pés. São Pedro o levanta: “Levantai-vos, que eu não passo de simples homem” (At 10,26). Primeira lição da casa, e vale para todo sucessor dele: quem abre a porta da Igreja não aceita ser adorado por quem entra.
Em seguida, a pregação. São Pedro começa com uma frase que ainda hoje espanta: “Na verdade, bem vejo que Deus não escolhe as pessoas e que, em qualquer nação, o que o teme e pratica a justiça lhe é agradável” (At 10,34-35). Depois anuncia o querigma inteiro: Nosso Senhor ungido com o Espírito Santo e força, passando a fazer o bem, a cruz, a ressurreição ao terceiro dia, as testemunhas que comeram e beberam com Ele, o juiz dos vivos e dos mortos, a remissão dos pecados em seu nome.
E então o texto registra o que ninguém tinha programado: “Estava ainda Pedro falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra” (At 10,44). Os fiéis circuncisos que tinham vindo com ele ficaram assombrados ao ouvir aqueles homens falarem em línguas e glorificarem a Deus. O Espírito veio antes da água, antes da imposição de mãos, antes de qualquer rito que o apóstolo tivesse a intenção de celebrar.
São Pedro faz a pergunta que decide a questão: pode-se recusar a água do batismo aos que já receberam o Espírito Santo como nós? (At 10,47). E manda batizá-los em nome do Senhor. Veja o gesto com atenção: o Espírito derrama o dom e o Apóstolo, em lugar de se ofender com a pressa divina, entrega à Igreja o que lhe cabe, o sacramento. Rogaram-lhe, então, que ficasse alguns dias na casa.
A objeção de Jerusalém
A notícia chega antes dele a Jerusalém, e a recepção é fria. Os fiéis da circuncisão discutem com São Pedro: “Por que entraste na casa de homens incircuncisos e comeste com eles?” (At 11,3). A objeção é sincera, vem de gente que amava a Lei e tinha razões históricas para a cautela. A resposta do Apóstolo vem sem teoria: conta, pela ordem, o que aconteceu, desde o lençol até o Espírito caindo sobre a casa. E conclui com a pergunta que desarma qualquer tribunal: “quem era eu para me opor a Deus?” (At 11,17).
Os que o acusavam se tranquilizaram e glorificaram a Deus: “Deus concedeu também aos povos o dom da penitência, que conduz à vida!” (At 11,18). Rohrbacher fecha o capítulo com uma frase de arquiteto: aberta a porta da salvação a todos os povos, dispersaram-se os Apóstolos para fazê-los entrar.
Primícias
Daí o título que o Martirológio dá a São Cornélio: primícias da Igreja dos gentios, primitias Ecclesiae ex gentibus. A palavra gentes, em latim, são os povos, as nações; “gentio” é quem vem delas. Quem lê esta página, se não descende de Abraão segundo a carne, entrou por essa porta, a que se abriu em Cesareia da Palestina na casa de um oficial romano. Do santo não sabemos mais nada com segurança além do que Atos narra, e ninguém deveria inventar o resto para enfeitar a festa. Basta o que está escrito: um homem que rezava e dava esmola foi ouvido, e a Igreja o recebeu.
Então leve duas tarefas para o dia. A primeira, olhar com atenção para quem reza e ajuda os pobres sem ter ainda chegado à Missa; talvez haja um São Cornélio na sua rua, no seu trabalho, no seu parentesco, esperando que alguém suba ao terraço e aceite ser mandado. A segunda, examinar o que você ainda chama de impuro por costume e não por ordem de Deus. E mantenha a sua própria oração e a sua esmola em dia: foram elas que subiram à presença de Deus, antes mesmo de o centurião saber a quem rezava.
Lembramos São Cornélio no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube, e você encontra o verbete dele no Martirológio do Hub. São Cornélio, rogai por nós.