Hoje, 19 de outubro, a Igreja recorda São Paulo da Cruz, presbítero e fundador dos Passionistas. E há uma cena na vida dele que, caro leitor, resume o homem inteiro: o ano é 1735, a fortaleza do Monte Filipe e o burgo de Porto Ercole estão sitiados, e generais espanhóis, franceses e austríacos, inimigos entre si, permitem que o mesmo religioso pregue nos acampamentos de todos, sem suspeitar de espionagem. Que mensagem consegue atravessar uma linha de cerco? Só uma que não pertence a nenhum dos lados.
Um filho de comerciante que largou as armas
Nasceu em 1694, filho de Lucas Danei, comerciante de Castellazzo que negociava em Ovada, burgo da República de Gênova, e de Ana Maria Massari. O casal teve dezesseis filhos, e muitos morreram ainda pequenos; a Cruz entrou naquela casa muito antes de entrar no nome. Seu irmão João Batista Danei nasceu no ano seguinte e seria o companheiro inseparável de toda a vida.
Em 1715, São Paulo da Cruz tentou a carreira das armas; um ano depois, a abandonou. Piedoso e quieto, procurou uma vida mais perfeita: bateu à porta do tio sacerdote, Cristóvão, e de outros, até chegar diante de Francisco de Gattinara, bispo de Alexandria, que viu nele qualidades fora do comum e o encorajou. Repare na ironia: o rapaz que deixou o exército terminaria pregando a soldados. Mudou de milícia e manteve a coragem.
O chicote que dizia Amor
Antes de qualquer hábito, havia a adoração. Rohrbacher conta que já pensava na congregação enquanto ficava diante do Santíssimo Sacramento exposto, de joelhos, pelo menos cinco horas. Ao bispo, falou do desejo de vestir uma túnica negra com um sinal: Jesus Christi Passio, a Paixão de Cristo.
Escreveu depois, com as próprias palavras, uma visão espiritual: viu na mão de Deus um chicote, com cordas, e escrita nele a palavra “Amor”. Deus mostrava que queria chicotear a alma, mas por amor; e a alma, em vez de fugir, correu a abraçar o chicote, dando-lhe beijos espirituais. Acrescentou ainda que tinha por mais verdadeiro o que viu com a luz da santa fé do que se o tivesse visto com olhos corporais.
Detenha-se aqui, porque é o nó do assunto. O mundo aceita um Deus que consola; tolera, no máximo, um Deus que exige; mas um Deus cujo açoite tem a palavra “Amor” escrita? Essa gramática só se aprende ajoelhado.
Quarenta dias sob uma escada
Em 22 de julho de 1720, o bispo Gattinara benzeu a túnica negra. Em 23 de novembro do mesmo ano, São Paulo da Cruz se retirou por quarenta dias numa cela minúscula, sob uma escada, ao lado da sacristia da igreja paroquial de São Carlos, em Castellazzo: descalço, no frio e na umidade, dormindo sobre palha, vivendo de pão e água. Daquela cela saiu o primeiro esboço da Regra, que Gattinara aprovou ipsis litteris, ao pé da letra.
Eu sei o que o leitor moderno pensa: quanta austeridade, quanto exagero. Pois a Regra era tão dura que, mais tarde, em Gaeta, os primeiros discípulos foram debandando um a um, e sobraram só os dois irmãos. A objeção dos fatos é justa, e a própria história a admitiu: sob Bento XIV a Regra foi suavizada antes de ser aprovada, em 15 de maio de 1741. Note o que sobreviveu à poda: o centro, a memória da Paixão.
Pobre, desconhecido e perseverante
A estrada até a aprovação foi longa. Em Roma, sem protetor e desconhecido, não conseguiu audiência e voltou, triste, à terra natal. Em 1721, seguiu com João Batista para o Monte Argentário, numa vida dura de oração e penitência, e dali evangelizaram Orbetello. Em 1723, o bispo de Gaeta, Carlos Pignatelli, os hospedou no palácio episcopal e lhes confiou o retiro dos ordenandos.
Em 1725, veio o jubileu em Roma. Os dois irmãos pregaram na Basílica de São Pedro e atraíram o cônego Marcelo Crescenzi, depois cardeal, que lhes arranjou audiência com o Papa Bento XIII; o Papa os recebeu com ternura, aprovou os projetos e autorizou que recebessem discípulos. Ainda assim, nada de glória imediata: os dois voltaram a Roma como enfermeiros no hospital de São Galicano. E em 7 de junho de 1726, na Basílica de São Pedro, das mãos do próprio Papa, os dois irmãos receberam o sacerdócio.
Quem ensinou a Igreja a esperar assim foi o próprio Cristo: o grão de trigo cai na terra e morre, antes de dar fruto (Jo 12,24).
A primeira profissão e o nome
Em 1735, voltemos ao cerco. Converteu soldados incrédulos e protestantes, e Rohrbacher registra que, sem saber francês, espanhol ou alemão, todos o entendiam na própria língua. Na sequência, o rei Carlos III deu dinheiro em Nápoles e surgiu o primeiro convento.
Em 11 de junho de 1741, a cena que deu nome à família. Diante do Santíssimo exposto, os professos, com uma cruz no ombro e coroa de espinhos na cabeça, prostravam-se; lia-se a Paixão segundo São João e, ao chegar a tradidit spiritum, “entregou o espírito” (Jo 19,30), abraçavam a pobreza, a castidade, a obediência e um quarto voto: o de propagar a devoção à Paixão. Daí o nome: Passionistas. Rohrbacher sugere que o cerimonial nasceu da predileção de São Paulo da Cruz pela parte dramática da Paixão.
Aqui está a resposta para o título. Aos dois exércitos se prega aquilo de que São Paulo Apóstolo fez bandeira: “pregamos Cristo crucificado” (1Cor 1,23). Escândalo para uns, loucura para outros, mas a única notícia que serve a quem sangra em qualquer dos lados.
O fim e o abraço de Roma
Em 1769, doente e quase sem atividade, ainda pregou o jubileu na igreja de Santa Maria, e a multidão acorreu. Aos 75 anos, carregado em cadeira, viu o povo, ávido de relíquias, rasgar-lhe o hábito em pedaços. Já era venerado como santo em vida.
Em 1773, o Papa Clemente XIV lhe perguntou se tivera um irmão chamado João; disseram que sim, e o Papa, repetindo os dois nomes, doou aos Passionistas, em 6 de dezembro de 1773, a igreja dos Santos João e Paulo e o convento anexo. Aquilo o enterneceu: o irmão de toda a vida lembrado, no coração de Roma, ao lado dele. Morreu em 18 de outubro de 1775, aos 81 anos, e foi sepultado em 21 de outubro, nessa mesma igreja. Foi beatificado em 1º de maio de 1853 pelo Beato Pio IX e canonizado em 29 de junho de 1867. A memória litúrgica cai em 19 de outubro, porque o dia 18 pertence a São Lucas, evangelista.
O Martirológio resume: movido por singular amor a Cristo crucificado, que via nos pobres e enfermos, fundou a Congregação dos Clérigos Regrantes da Cruz e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Leve a Cruz para onde o cerco aperta
Há, hoje, quem esconda a Cruz para não ofender; São Paulo da Cruz a levou ao meio de dois exércitos e foi ouvido nos dois. Talvez a lição seja simples: o que atravessa as trincheiras é o que dói em todos e consola em todos.
Reze, então, diante do crucifixo, ao menos uma vez por dia. Olhe para o pobre e o enfermo como ele olhava. E quando a vida lhe mostrar um chicote, procure a palavra escrita nele.
Lembramos São Paulo da Cruz no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube, e você encontra o verbete dele no Martirológio do Hub. São Paulo da Cruz, rogai por nós.