Hoje, 17 de junho, Pisa apaga as luzes.
Cada ano, na véspera da festa de São Rainério de Pisa, a cidade inteira se recolhe no escuro — e então acende. Dezenas de milhares de velas iluminam as fachadas dos palazzi medievais às margens do Arno; os barcos refletem a luz na água; o Duomo brilha como se o tempo tivesse recuado novecentos anos. A Luminara di San Ranieri é uma das festas medievais mais antigas da Itália. E ela existe para honrar um homem que escolheu não ter nada.
É aí que o paradoxo morde: Pisa inteira acende velas por um homem que virou as costas para Pisa.
O filho do armador
Para entender São Rainério de Pisa, é preciso primeiro entender o que ele tinha a perder.
Pisa no século XII não era uma cidade qualquer. Era uma das grandes repúblicas marítimas da Itália, irmã de Veneza e de Gênova — uma cidade que fazia dinheiro do mar, que disputava rotas de comércio com o Mediterrâneo inteiro, que naquele exato período estava erguendo uma catedral e, ao lado dela, uma torre que inclinaria para a eternidade. Pisa era rica, altiva, consciente do próprio peso no mundo.
E Ranieri Scacceri era filho de Gandulfo Scacceri, mercador e armador pisano.
Quer dizer: era filho de um dos homens que sustentava aquela cidade. Era jovem, era músico, frequentava banquetes; pertencia à camada que a cidade considerava seus próprios. Tinha a vida que qualquer jovem da burguesia mercantil do século XII consideraria invejável. Tinha nome, tinha rede, tinha futuro. Tinha Pisa.
E então, num determinado momento, apareceu um nobre corso que vivia monasticamente no mosteiro de São Vito.
O encontro que parte ao meio
Não sabemos exatamente o que o Beato Alberto disse a São Rainério. A vita escrita por Benincasa por volta de 1161 não transcreve o diálogo. O que ela registra é o efeito: a conversão não foi gradual. Não foi uma espiral lenta de aperfeiçoamentos. Foi uma ruptura.
Eu sei o que você está pensando — porque é o que todos pensamos quando ouvimos uma história assim. Deve ter exagerado. A vida do santo sempre soa mais dramática depois que vira hagiografia. Mas repara no que significa dizer que a conversão de São Rainério de Pisa não foi gradual. Não significa que ele passou por uma noite e acordou perfeito. Significa que ele não tentou negociar com Deus. Não reservou uma fatia da vida para Cristo e manteve o resto como estava. Não melhorou um pouco, não virou um burguês mais caridoso. Ele rompeu completamente.
Renunciou aos bens. Renunciou à música. Renunciou ao modo de vida.
Nosso Senhor diz em Marcos 10,21: “vai, vende o que tens e dá aos pobres; e terás um tesouro no céu. E vem, e segue-me.” É uma frase que a Igreja leu por séculos como conselho para quem pode segui-la — e é isso que ela é. São Rainério de Pisa escutou aquilo como quem escuta o próprio nome sendo chamado.
Pauper et peregrinus pro Christo
O Martirológio Romano de 2004 tem um elogio que cabe numa linha: “Em Pisa, na Etrúria, hoje na Toscana, região da Itália, São Rainério, pobre e peregrino por Cristo.”
A vida inteira dele em cinco palavras.
Em torno de 1146, São Rainério de Pisa partiu para a Terra Santa. Ficou lá cerca de sete anos. Percorreu o Santo Sepulcro, o Monte Tabor, Hebrom, Belém — a pé, como mendigo, com jejuns severos. Distribuiu tudo o que havia levado. Pauper vem do latim para aquele que produz pouco, que tem pouco, que não acumula. Peregrinus vem do latim de quem anda por terras alheias — estranho em toda parte, sem fixar raízes, sem pertencer a nenhum lugar. São Rainério de Pisa tornou-se peregrino de Cristo: esse Cristo pelo qual tudo era contado como perda, para que Cristo fosse o ganho.
Isso durou sete anos. Em torno de 1153, São Rainério voltou.
O retorno que importa mais que a partida
Aqui está, para mim, o ponto mais bonito da história toda.
Quando São Rainério de Pisa voltou, voltou esfarrapado e descalço. Sem nenhuma tentativa de reconstituir posição social. Sem pedir que a cidade o recebesse com cerimônia. Voltou como ele era: pobre e peregrino. E voltou para a sua própria cidade — não para um deserto, não para uma montanha, não para um mosteiro longe de tudo. Para Pisa, onde todos conheciam o nome Scacceri, onde a gente do cais sabia quem era Gandulfo, onde os músicos lembravam do jovem Ranieri.
Há dois modos de virar a vida do avesso: um é ir para onde ninguém te conhece, onde a conversão não custa nada em matéria de humilhação. O outro é voltar para onde todos te viram antes — e ser visto como outra coisa.
São Rainério de Pisa escolheu o segundo.
Viveu nos mosteiros de Santo André e São Vito como leigo — nunca tomou ordens sagradas; nem padre, nem religioso. Era um homem do povo que havia decidido levar a sério o Evangelho. A vita registra que pregou penitência, que curou enfermos, que expulsou demônios. A cidade que ele havia deixado para trás acabou sendo a cidade que ele edificou.
Em torno de 1160 ou 1161, São Rainério de Pisa morreu. Foi sepultado no Duomo — aquela catedral ao lado de cuja torre os andaimes ainda subiam. Em 1689, as suas relíquias foram transladadas ao altar. Em 1632, já era padroeiro oficial de Pisa. E toda a cidade acende velas.
A pergunta que assusta
São Francisco de Assis veio cem anos depois de São Rainério de Pisa. Mas o espírito é aparentado: a radicalidade do pobre por Cristo, que não busca ter menos do que os outros têm, mas busca Cristo, e descobre que Cristo e as posses não moram juntos no mesmo coração.
A pergunta que São Rainério nos deixa não é “deverias largar tudo?”. Isso seria iludir-se com facilidade.
A pergunta é outra, e é mais difícil: o que tu largarias se Cristo te pedisse?
E há uma segunda pergunta embutida nessa: a radicalidade que o Evangelho pede de mim é a mesma que pediu de São Rainério de Pisa? Não. São Rainério era leigo, era jovem, era solteiro — a radicalidade viável no seu estado de vida era diferente da que cabe a um pai de família, a uma mãe, a um universitário, a um avô. A santidade não é mudar de estado de vida. É viver o Evangelho no osso, viver o Evangelho até as últimas consequências ao menos viáveis — no estado em que já estás, com o que já tens, nas terras alheias que já percorres.
Porque todos nós somos, em alguma medida, peregrinos. A diferença é se andamos por Cristo ou por outra coisa.
Não abandones nada que Deus não te peça para largar. E não guardes nada que Ele te peça para dar. São Rainério de Pisa, pobre e peregrino por Cristo, rogai por nós.