Existe uma suspeita antiga, quase um dogma não escrito, de que mansidão e poder não cabem na mesma pessoa. Que quem governa precisa, cedo ou tarde, endurecer o coração; que trono e santidade se dão mal; que o santo de verdade devia ter ficado no claustro, longe da espada e da corte. São Venceslau, duque da Boêmia, morto pelas mãos do próprio irmão à porta de uma igreja, é a resposta viva a essa suspeita. Ele governou manso. E foi essa mansidão — não a ausência dela — que o matou.
O menino criado por Santa Ludmila
São Venceslau nasceu por volta de 907, filho do duque Vratislau I e de Drahomira. Foi a avó, Santa Ludmila, quem o educou pessoalmente, junto com o irmão mais novo, Boleslau, “na sabedoria humana e divina”. Em 920, o pai morreu numa expedição contra os húngaros, e a regência caiu nas mãos de Drahomira — mulher de fundo pagão sob verniz cristão, cercada de conselheiros hostis à formação cristã do herdeiro. Foi essa mesma Drahomira quem mandou assassinar Santa Ludmila.
São Venceslau perdeu o pai numa guerra; perdeu, logo depois, a avó que o havia formado — morta a mando da própria mãe; e perdeu, ainda jovem, qualquer ilusão de que poder e afeto caminham sempre juntos.
Ele cresceu sabendo, portanto, exatamente do que o poder é capaz quando abandona a mansidão.
Um duque contra a própria corte
Em 925, São Venceslau assume oficialmente o governo — e encontra uma corte ainda apegada ao paganismo. A ele é atribuído este discurso, dirigido justamente a esses súditos: “Por que me impedistes de levar avante o meu aprendizado de Jesus Cristo e de obedecer os seus mandamentos? Se Deus a vós vos embotou a alma, por que impedis aos outros de amá-lo? Quanto a mim, desembaraço-me de vós todos, rejeito-vos os conselhos, não os quero! Quero, sim, servir a Deus de todo o meu coração!”
Afasta a mãe do governo. Volta a chamá-la quando ela abjura a política de discórdia — mansidão não é memória curta, meu irmão, é memória que perdoa sem esquecer. Manda trazer de Praga as relíquias de Santa Ludmila e honra os sacerdotes que as trouxeram. Todo dia, cedo, ia à igreja.
Dux
Em latim, dux é aquele que guia — raiz da própria palavra “duque”. Não o que empurra por trás, mas o que vai à frente. É essa a chave para tudo o que São Venceslau fez depois: ele foi na frente, inclusive na mansidão, inclusive no risco.
A mansidão como método de governo
Você deve estar pensando que um duque manso é, no fundo, um duque fraco — que mansidão é coisa de quem não tem força pra outra coisa. São Venceslau desmente isso todo dia do seu governo. Foi ele quem resgatou, em massa, escravos pagãos que estavam à venda em Praga, para que fossem batizados livres. Foi ele quem, em 929, diante de uma invasão germânica que ameaçava esmagar seu povo, escolheu buscar um acordo de paz em vez de lançar a Boêmia numa guerra perdida — decisão que parte da nobreza chamou de covardia.
E, no entanto, esse mesmo duque não recuava do combate quando o combate era necessário. Há um episódio de duelo singular: um chefe inimigo, vendo brilhar uma cruz na fronte de São Venceslau, larga a espada e ajoelha-se diante dele. São Venceslau o levanta, abraça-o como irmão, leva-o para dentro do próprio castelo.
Ele não confundiu mansidão com ausência de força; não trocou a paz por covardia; não deixou que a nobreza que queria um duque duro ditasse o tipo de duque que ele seria.
Foi essa mesma nobreza, descontente com a submissão pacífica de 929, que encontrou em Boleslau — o irmão, tomado por ambição própria — um instrumento pronto.
A ceia de despedida
Marcaram o dia 27 de setembro para matá-lo, num banquete. Na hora, hesitaram. Prevenido, São Venceslau compareceu assim mesmo. Ergueu a taça e brindou: “Em honra de São Miguel, ao qual suplico que faça entrar vossas almas na paz e na eterna alegria!” Os convivas, constrangidos, responderam “Amém”. Ele abraçou os amigos, sorridente, e retirou-se para orar longamente antes de deitar.
Um homem que sabe, e mesmo assim vai à mesa.
O irmão no batente da porta
Decidiram matá-lo na manhã seguinte, quando ele fosse à igreja como todo dia. À porta, encontrou o próprio irmão. Cumprimentou-o: “Possa o Cristo convidar-te ao seu banquete eterno, a ti, que me trataste tão bem, e aos meus!” Boleslau respondeu: “Ontem servi-te como pude, mas eis como o irmão vai servir o irmão!” — e o agrediu. São Venceslau puxou da espada em legítima defesa, mas foi derrubado ao chão. Disse: “Como fizeste mal!” — e depois: “Tu te condenaste a ti mesmo! Eu poderia esmagar-te como a uma mosca se esmagaria, mas a espada de um servo de Deus não deve ser fratricida.”
Largou a espada. Buscou refúgio dentro da igreja. Os homens de Boleslau o alcançaram e o mataram à porta do templo, em 28 de setembro de 929.
Ele não empunhou a lâmina contra o próprio sangue; não chamou vingança sobre quem o traía; não trocou, no último instante da vida, a mansidão pela dureza que todos ao redor exigiam dele.
O único sangue que São Venceslau permitiu que corresse foi o seu — oferecido, não vingado.
Sepultado primeiro junto a uma pequena igreja de São Cosme e São Damião, foi depois trasladado para Praga, e há relatos de curas junto ao seu túmulo. Tornou-se herói nacional e padroeiro dos exércitos tchecos; até os hussitas, séculos mais tarde, continuaram invocando o seu nome. Em 1929, a Tchéquia celebrou mil anos da sua morte. O Martirológio Romano resume assim essa vida: “São Venceslau, mártir, duque da Boémia, que, educado pela sua avó Santa Ludmila na sabedoria humana e divina, foi rigoroso consigo, mas pacífico na administração do reino e misericordioso para com os pobres; redimiu um grupo inumerável de escravos pagãos que estavam à venda em Praga, para que fossem baptizados; e depois de enfrentar muitas dificuldades em governar os seus súbditos e formá-los na fé, foi atraiçoado por seu irmão Boleslau e assassinado por alguns sicários na igreja de Stara Boleslav, na Boémia, na actual Chéquia.”
Fica então a pergunta que abriu este texto, respondida por uma vida inteira: dá pra governar sendo manso. São Venceslau não foi santo apesar de ter sido duque. Foi santo governando — com a espada guardada até o fim.
Se quiser conhecer mais sobre a vida de São Venceslau, o verbete completo está no Martirológio do Hub. São Venceslau, rogai por nós.