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Patrono

A DEVOÇÃO DAS DEVOÇÕES: A HISTÓRIA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Tem uma festa hoje que não está no Martirológio Romano. E não está por um bom motivo: o Martirológio é o calendário das festas fixas, aquelas que a gente trata pelo dia e pelo mês — todo dia 13 de junho, todo dia 20 de março. Mas hoje é uma festa móvel, dessas que andam todo ano junto com a Páscoa, como o Corpus Christi, como Pentecostes. Hoje é a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus — e solenidade, pra quem não está acostumado com o vocabulário, é o grau mais alto de festa que a Igreja tem.

Repara nisso: as maiores festas da Igreja, exceto o Natal, são festas móveis. É muito significativo que o Coração de Jesus esteja entre elas. E é mais significativo ainda quando tu descobres de onde ela veio — porque ela começa com uma freira que quase ninguém acreditava, passa por um jesuíta sábio e termina com um dos maiores papas da nossa história entregando o mundo inteiro a esse Coração.

Por que a Igreja celebra um órgão do corpo

Pode parecer pergunta boba, mas é a porta de tudo: por que a Igreja celebra um coração, um órgão? Porque na tradição bíblica e eclesiástica o coração nunca foi só um órgão. Ele é o centro da pessoa, o lugar de onde brota o amor, a decisão, a entrega. É o ser inteiro. Hoje a gente entende o coração como o lado emocional, passional — o “crime passional” é o crime feito sem pensar. Mas a Igreja entende o coração como todo o ser.

Então, quando a gente adora o Sagrado Coração de Jesus, a gente está adorando o próprio Cristo — suas vontades, seus desejos, seus medos, suas aspirações, tudo aquilo que existe Nele. E num outro nível: Deus é amor. No coração a gente adora o amor feito carne. Um amor que não ficou na ideia, que de fato teve vida, que bateu como o nosso, que se comoveu como o nosso, que sangrou como o nosso, que foi trespassado por uma lança na cruz. Quando o soldado abre o lado de Cristo, dali sai sangue e água — e ali nasce a Igreja, nascem os sacramentos, do Coração aberto de Nosso Senhor.

Por isso a devoção é antiquíssima. Ela já está na era apostólica. São Bernardo de Claraval, Santa Gertrudes, ainda no fim da Idade Média, falavam com muito amor das Santas Chagas e do Coração de Cristo. Mas o jeito como a gente conhece essa devoção hoje tem uma história — e tem uma protagonista.

Paray-le-Monial, 1673: o Coração que se mostra

A história nos leva à França do século XVII, a uma cidadezinha chamada Paray-le-Monial. Lá tem um mosteiro das visitandinas, da Ordem da Visitação. E dentro desse mosteiro, escondida do mundo, viveu uma freira simples chamada Santa Margarida Maria Alacoque.

Entre os anos de 1673 e 1675 — dois anos, portanto — Santa Margarida Maria começa a dizer algo quase inacreditável: que Nosso Senhor aparecia a ela. E não eram aparições vagas, não era sonho, não era lembrança. Ele próprio lhe mostrava o coração vivo, pulsante, em chamas, cercado de espinhos, encimado por uma cruz. E dizia uma frase que está no coração da devoção: “Eis o Coração que tanto amou os homens, e que em troca recebe tanta ingratidão.”

Repara que pancada é isso. Não é o Deus que popularmente se imagina do Antigo Testamento, o Deus bravo, vingativo — que aliás nunca foi assim. É o Deus que mostra a própria ferida e diz: essa aqui foi por ti. E o que Ele pede em troca não é castigo, não é vingança, não é reclamação. Ele pede que as pessoas O amem de volta. E o tom não é “eu preciso que vocês me amem” — é “vocês precisam me amar, porque isso é bom pra vocês”. Quando a gente ama alguém, a gente quer o bem dessa pessoa. Cristo vem nesse tom: o bem do homem é amar a Deus, então Ele quer que O amemos por nós, não por Ele.

Dessas aparições nasceram coisas que a gente carrega até hoje: a comunhão nas primeiras sextas-feiras do mês, a Hora Santa de adoração, e a própria ideia de dedicar uma festa ao Sagrado Coração. A devoção era antiga, mas ainda não tinha essa estrutura litúrgica, esse ar de devoção completa. Ela era mais abstrata, espalhada entre os fiéis, tema de muita reflexão — mas não era uma devoção prática. Não tinha estrutura.

Deus manda um socorro com nome e sobrenome

Mas Santa Margarida Maria era uma freira simples. Quem é que ia acreditar nela? Muita gente no convento achava que era invenção, exagero, coisa da cabeça dela. E aí Deus manda um socorro com nome e sobrenome: chega a Paray-le-Monial um padre jesuíta, culto e prudente, que se torna diretor espiritual de algumas das irmãs. São Cláudio de la Colombière.

São Cláudio examina, ouve, reza — e reconhece que aquilo era de Deus. Ele se torna o grande apoiador de Santa Margarida Maria. E foi ele que, com inteligência e seriedade, ajudou essa devoção a sair de um convento perdido no interior e se espalhar pela Igreja inteira. Ou seja: a gente precisou da santidade simples de uma freira que recebe a aparição e do discernimento sólido de um teólogo que a reconhece. As duas coisas andam juntas — assim como na Igreja andam juntos o magistério estudado, quase científico, que recebe e interpreta a revelação, e o povo simples que vive aquela fé na pele. São indissociáveis.

Aí a devoção pega fogo. Vem a famosa lista das doze promessas do Sagrado Coração, ligadas sobretudo a quem comunga nas primeiras sextas-feiras: paz nas famílias, consolo nas aflições, refúgio na hora da morte. E vem a prática da entronização — uma coisa linda e concreta: a família coloca a imagem do Sagrado Coração num lugar de honra dentro de casa e entrega o lar inteiro a Cristo.

Aquela estética está voltando, e a gente vê nela mais do que moda. Aquela casa de avó, cheia de quadrinhos, com o característico quadro do Sagrado Coração no meio da sala — é isso. É a devoção se popularizando e chegando aos lares. Naquela casa, quem reina é o Sagrado Coração. (Eu tenho a minha aqui em casa, num cantinho, presente de casamento, olhando pra porta da frente — não porque eu ache que Cristo espia pela imagem, como diriam os protestantes, mas porque é o lugar visto por todo mundo que chega.)

O dia em que o mundo inteiro foi entregue

A coisa cresceu tanto que em 1899 o Papa Leão XIII, na encíclica Annum Sacrum, fez o que ele mesmo chamou de o maior ato do seu pontificado: consagrou o gênero humano inteiro ao Sagrado Coração de Jesus. O mundo todo foi entregue a esse Coração. E a festa que já existia foi sendo elevada até virar a Solenidade que a gente celebra hoje.

Começa com uma freira que quase ninguém acreditava. Passa por um jesuíta sábio que entendeu que aquilo era de Deus. Termina com um dos maiores papas da história consagrando a humanidade inteira. Esse é o arco.

E é por isso que o Coração de Jesus não é uma imagem só pra pendurar na parede. Aquela imagem representa tudo isso — e representa o que a devoção é no final: querer ter o mesmo coração de Cristo. No fundo, ser santo é assemelhar o nosso coração ao Dele. Ser devoto de um santo é, em última análise, querer chegar perto do coração daquele santo, porque o coração dele está perto do de Cristo. E o nosso objetivo final é ter o Coração de Cristo. Ser como Ele.

Essa não é uma devoção pra gente sentir pena de Deus, pena daquele Coração chagado. É pra gente querer esse Coração. Pra responder a esse Coração que ama. Todos os dias eu olho pra imagem aqui em casa e penso o quanto o meu coração ainda está distante do Dele — e o que eu preciso fazer hoje pra terminar o dia um pouco mais perto.

Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico