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Cultura

SUA CURIOSIDADE NÃO TE FAZ MAIS INTELIGENTE

Sua curiosidade não te faz mais inteligente.

Você navega ou naufraga em suas leituras? Aliás, você lê? De verdade. Leitura. Livros selecionados. Artigos. Palestras com boas referências. Você escreve sobre elas? Estuda? De verdade.

Sente preguiça? Desatenção? Lê de tudo? Tipo um scanner? Então este texto será para você.

Observe a imagem:

Acedia (Sloth) – The deadly sinsHans Landenspelder

Uma mulher desnuda, relaxada, olhos fechados e ao lado dela… um asno. Representação da superficialidade acidiosa brilhantemente realizada por Hans Ladenspelder.

Talvez, o asno da imagem comece a reforçar a minha afirmação: Sua curiosidade não te faz mais inteligente.

Eu poderia tentar te explicar que

armazenar informações enciclopédicas como um manual não te faz alguém sábio ou estudioso.

Todavia vou deixar que o melhor detetive do mundo resolva esse dilema:

“Para mim, o cérebro de um homem, originalmente, é como um sótão vazio, que deve ser entulhado com os móveis que escolhermos. Um tolo o enche com todos os tipos de quinquilharia que vai encontrando pelo caminho, a ponto de os conhecimentos que lhe seriam úteis ficarem soterrados ou, na melhor das hipóteses, tão misturados às outras coisas que ficaria difícil selecioná-los. Já o trabalhador especializado é extremamente cauteloso em relação às coisas que coloca em seu cérebro-sótão. Depositará lá apenas as ferramentas que poderão ajudá-lo a realizar o seu trabalho, mas, destas, ele terá um vasto sortimento e todas arrumadas na mais perfeita ordem. É um engano pensar que esse pequeno recinto tem paredes elásticas, que podem ser distendidas indefinidamente. Dependendo disso, chega o momento em que, para cada novo acréscimo de conhecimento, esquecemos algo que já sabíamos antes. Portanto, é da maior importância evitar que dados inúteis ocupem o lugar dos úteis. ”

O trecho extraído de “Um estudo em vermelho” de Sir Arthur Conan Doyle demonstra a importância da atenção e foco. A dispersão de informações na própria cabeça apenas te torna raso e superficial… mesmo que você recite elas em sequência e rapidinho para parecer inteligentinho. Na era da internet, isto é um tanto inútil e facilmente substituído por um smartphone.

Foco. Atenção. Comece o livro. Termine o livro. É muito longo? Pegue as páginas e divida por 30. Em um mês, um livro. Não compre outro nem comece outro até terminar.

Termine o que você começar.

Seja seletivo no seu estudo e entretenimento.

Como orienta o filósofo Ortega y Gasset:

“Diga-me a que voce presta atençao, e eu lhe direi quem você é.”

Você não poderá estudar sobre tudo, nem se informar sobre tudo. O tempo é escasso e ninguém valoriza conhecimentos genéricos. Exceto vestibulares. Se você estiver aqui deverá saber enganar o examinador com uma redação de até 30 linhas solucionando problemas brasileiros que nunca foram resolvidos. Em trinta linhas. Certifique-se de decorar todas as doenças catalogadas para biologia. Fórmulas de geometria. Logaritmos. Em
história, simplifique tudo que puder. A contra B. Luta de classes. Ideologia e poder. Não esqueça dos logaritmos.

Depois, caso você vá para a faculdade não se preocupe, você só precisará decorar, superficialmente, por mais cinco anos. Pelo menos, não tem logaritmos.

Não deixe que as obrigações ordinárias como passar em uma prova ou trabalhar roubem sua educação. Sendo o tempo escasso, utilize-o para se aprimorar naquilo que você tanto gosta. Acredite,

seu hobby fala muito por você.

Recomendo fortemente a leitura de um livro chamado “Virtudes e liderança” de Alexandre Havard. Ele divide o “desejo de saber” em duas partes. Studiositas e curiositas.

“Os líderes são estudiosos, não curiosos. As palavras latinas studiositas e curiositas estabelecem a diferença entre o desejo moderado e o desejo imoderado de conhecimento. A studiositas é o desejo de saber, com a finalidade de captar a realidade e compreender a natureza das coisas. A curiositas é o desejo de saber, mas pelo prazer que isso produz.(…)”

É lógico que os líderes se esforcem por melhorar o seu nível cultural. Mas a cultura é coisa bem diferente do acúmulo superficial de informação. Naturalmente, temos necessidade de informação, mas, uma vez adquirida, devemos saber como utiliza-la. Precisamos de tempo para refletir. Temos a necessidade de dispor de um marco moral que nos permita dar um sentido a dados díspares.

Devemos ser capazes de distinguir a verdade e a beleza da mentira e do mau gosto. Essa é a função da studiositas.

Os líderes não leem qualquer livro, não assistem a qualquer filme nem escutam qualquer música.

Conscientes de sua dignidade de seres humanos, rejeitam o que é moralmente duvidoso e alimentam o seu coração e inteligência com o que é nobre. Têm um plano para desenvolver a sua personalidade e a dos seus colaboradores. Para isso devem ser seletivos, o que envolve praticar a virtude do autodomínio.

A conclusão deste artigo fica por conta de São Francisco Sales. Afinal, como católicos o próprio estudo é obrigação do cristão que deve estar sempre pronto para dar razão a sua fé.

“Assim, Filotéia, nas ocupações ordinárias que exigem muita atenção, pensa mais em Deus que em teus negócios e, se forem de tal importância que ocupem toda a tua atenção, nunca deixes de levantar de vez em quando os olhos para Deus, como os navegantes que, para dirigirem o navio, mais olham para o céu que para o mar. Fazendo assim, Deus trabalhará contigo, em ti e por ti e teu trabalho te trará toda a consolação que dele esperas.”

LP
Lucas Pinheiro
Colunista do Hub Católico

Texto recuperado do arquivo histórico do Hub Católico (publicado originalmente em 22 de fevereiro de 2020). Importação fiel ao original.