Santa Ediltrudes
Também conhecido como Etheldreda, Audrey de Ely, Ediltrude, Æthelthryth, Saint Audrey
Identificação
Santa Ediltrudes (c. 636–679) — princesa da Ânglia Oriental, rainha da Nortúmbria e abadessa fundadora do mosteiro duplo de Ely. Filha do rei Anna da Ânglia Oriental, contraiu dois matrimônios por razões de Estado e, segundo o testemunho de São Beda, o Venerável, preservou a virgindade em ambos. Recebeu o véu religioso do bispo São Wilfrido, fundou o mosteiro de Ely em 673 e governou-o até a morte, em 23 de junho de 679. O relato de São Beda narra que seu corpo foi encontrado incorrupto dezasseis anos após o sepultamento. É invocada especialmente contra dores de garganta. No mundo anglófono é chamada Saint Audrey, expressão de que deriva a palavra inglesa tawdry.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
No mosteiro de Ely, na Inglaterra oriental, Santa Ediltrudes, abadessa, que, sendo filha de reis e ela própria rainha da Nortúmbria, depois de recusar duas vezes o matrimónio, recebeu do santo bispo Vilfredo o véu religioso no mosteiro por ela construído, no qual, com o seu exemplo e exortações, ela presidiu como mãe de muitas virgens.
Vida
A princesa da Ânglia Oriental e os dois matrimônios
Santa Ediltrudes nasceu por volta de 636, em Exning, no Suffolk, filha do rei Anna da Ânglia Oriental. Segundo Rohrbacher, que segue a tradição hagiográfica, era irmã de outras três santas: Sexburga, Edilburga e Withburga — formando uma família de singular santidade no período da evangelização dos saxões orientais.
Ainda jovem, contraiu o primeiro matrimônio com Tondbert (ou Tonberto), chefe dos Gyrwe do Sul. De acordo com São Beda, o Venerável, Santa Ediltrudes havia votado a virgindade a Deus e ambos os cônjuges viveram em contínência. Rohrbacher confirma: “desposou o príncipe Tonberto, mas ambos viveram na mais completa continência.” Por volta de 655, Tondbert faleceu. Santa Ediltrudes retirou-se para a ilha de Ely — que recebera como presente nupcial — e dedicou-se à oração e à penitência.
Razões de Estado a obrigaram a contrair segundo matrimônio, desta vez com o jovem príncipe Egfrido da Nortúmbria (Ecgfrith), mais novo do que ela. Segundo São Beda, o Venerável, Santa Ediltrudes manteve também neste casamento o voto de virgindade durante anos. O bispo São Wilfrido, consultado pelo jovem esposo sobre os direitos matrimoniais, confirmou, segundo a tradição, que a rainha jamais cedeu à pressão. Por volta de 670–672, após a acensão de Egfrido ao trono, o rei tentou forçar a dissolução do voto. Diante disso, Santa Ediltrudes procurou São Wilfrido para aconselhamento; este considerou conveniente que ela se retirasse para a vida monástica.
A vocação religiosa e a fundação de Ely
Com o consentimento de São Wilfrido, Santa Ediltrudes acolheu o véu religioso e, após breve noviciado, retirou-se definitivamente para a ilha de Ely. Segundo Rohrbacher, foi muito perseguida por emissários do marido, mas escapou ilesa. A tradição inglesa, recolhida em fontes posteriores ao relato de São Beda, narra que a fuga foi favorecida pela subida providencial das marés, que bloqueou os perseguidores.
Em 672 (segundo Rohrbacher) ou 673 (segundo a Crônica Anglo-Saxônica), Santa Ediltrudes fundou em Ely um mosteiro duplo — isto é, uma comunidade para monges e monjas, governada pela abadessa. Tornou-se a primeira abadessa daquele mosteiro, que se tornaria um dos centros religiosos mais venerados da Ânglia Oriental e do reino anglo-saxônico.
O governo abacial e a morte
Como abadessa, Santa Ediltrudes conduziu vida de austeridade exemplar. Segundo Rohrbacher, alimentava-se apenas uma vez por dia, salvo em festas ou enfermidade; vestia-se grosseiramente; depois das Matinas cantadas à meia-noite, enquanto as demais religiosas repousavam, permanecia em oração até o raiar do dia.
São Beda, o Venerável, acrescenta um detalhe de especial significado espiritual: Santa Ediltrudes sofreu, nos últimos anos de vida, de um tumor no pescoço. Segundo São Beda, ela própria interpretava a doença como penitência enviada por Deus pela vaidade de ter usado colares preciosos na juventude. O tumor surgiu durante uma epidemia que assolou o mosteiro, e dela Santa Ediltrudes não se recuperou. Tendo predito sua própria morte, faleceu em 23 de junho de 679, com cerca de quarenta e três anos.
Rohrbacher registra o ano de 680, mas o Martirológio Romano 2004 e a maior parte das fontes modernas fixam 679 como ano do falecimento.
A incorrupção e o culto — Saint Audrey
Dezasseis anos após o sepultamento, em 695, a irmã de Santa Ediltrudes, Santa Sexburga, que a havia sucedido na direção do mosteiro, mandou transladar os restos mortais para um sarcófago de mármore trazido de Grantchester. Ao abrir o túmulo, constatou que o corpo estava incorrupto e que o tumor no pescoço havia desaparecido. O relato da incorrupção é narrado por São Beda, o Venerável, que cita como testemunha o próprio São Wilfrido e o médico que havia tratado da abadessa.
O culto a Santa Ediltrudes prosperou amplamente na Inglaterra medieval. Era invocada especialmente contra dores de garganta e torcicolos — devoção ligada, segundo a tradição, à enfermidade que a levou à morte. O mosteiro de Ely tornou-se local de peregrinação e, séculos depois, deu origem à atual Catedral de Ely, no condado de Cambridgeshire.
No mundo anglófono, Santa Ediltrudes ficou conhecida como Saint Audrey — forma popular derivada de “Sant Aud(e)rey”, por contração. Em sua honra realizava-se anualmente, em Ely, uma feira na qual se vendiam rendas e lenços. Com o tempo, esses artigos foram associados a produtos de qualidade inferior, dando origem à palavra inglesa tawdry (objeto de aparência vistosa mas de má qualidade) — derivação que a linguística inglesa atribui precisamente ao nome da santa.
Referências
- Martirologio Romano (Editrice Vaticana, 2004), 23 giugno — fonte primária do elogio.
- São Beda, o Venerável, Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (c. 731), Livro IV, caps. 19–20 — principal narrativa hagiográfica; relatos da virgindade, da fuga, da morte e da incorrupção.
- Rohrbacher, História Universal da Igreja Católica, vol. 11, pp. 128–131 (edição em português) — capítulo “Santa Ediltrude, Virgem”.
- Wikipedia inglesa: «Etheldreda» — https://en.wikipedia.org/wiki/Etheldreda (consultada 2026-05-28; sem artigo equivalente verificado em português).

