São Barnabé
Também conhecido como Barnabé Apóstolo, José Barnabé, filho de consolação, filho de exortação
Identificação
São Barnabé — levita de origem cipriota, apóstolo da Igreja primitiva, companheiro inseparável de São Paulo nas primeiras décadas do cristianismo. Não pertencia ao grupo dos Doze, mas foi reconhecido como apóstolo pela tradição da Igreja. Seu nome original era José (ou Joses); os próprios apóstolos lhe deram o sobrenome Barnabé, que significa filho de consolação ou filho de exortação (em aramaico bar nabî’). Primeiro evangelizador de Antioquia, introdutor de São Paulo na comunidade cristã de Jerusalém, participante do Concílio de Jerusalém e, segundo a tradição, fundador da Igreja de Chipre, onde sofreu o martírio em Salamina.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Memória de São Barnabé, Apóstolo, que era um homem bom e cheio de fé e do Espírito Santo, contado entre os primeiros fiéis de Jerusalém. Pregou o Evangelho em Antioquia e introduziu entre os irmãos Saulo de Tarso, recém-convertido, acompanhando-o também na sua primeira viagem para evangelizar a Ásia. Participou no Concílio de Jerusalém e, voltando para a ilha de Chipre, sua pátria, aí propagou o Evangelho.
Vida
O levita cipriota dos primórdios de Jerusalém
José, natural de Chipre, era da tribo de Levi — a mesma tribo sacerdotal de Moisés, Aarão e Samuel. Segundo o historiador Rohrbacher (Vidas dos Santos, vol. 10), pertencia portanto à linhagem sacerdotal do povo de Israel. Era primo de João Marcos — aquele que a tradição identifica com o evangelista São Marcos (cf. Colossenses 4,10).
No tempo imediatamente posterior à Pentecostes, quando os fiéis de Jerusalém formavam uma comunidade de bens, José vendeu um campo que possuía e depositou o dinheiro aos pés dos apóstolos, para ser distribuído segundo a necessidade de cada um. Diante desse gesto, os apóstolos passaram a chamá-lo Barnabé — filho de consolação, filho de exortação (Atos 4,36-37). O nome pelo qual é conhecido pela Igreja para sempre nasceu desse ato concreto de caridade e desprendimento.
Quem apresenta São Paulo aos apóstolos e o leva a Antioquia
Saulo de Tarso, após sua conversão no caminho de Damasco, regressou a Jerusalém e procurou unir-se aos discípulos do Senhor. Todos, porém, o temiam — não acreditavam que o antigo perseguidor se houvesse realmente convertido. Foi São Barnabé quem o acolheu, tomou-o pela mão e o apresentou aos apóstolos, relatando como Saulo havia visto o Senhor no caminho, o que o Senhor lhe dissera, e com que vigor pregava em nome de Jesus em Damasco (Atos 9,27). Sem esse gesto corajoso de São Barnabé, a entrada de São Paulo na comunidade apostólica poderia ter sido impedida ou muito retardada.
Alguns anos mais tarde, quando a pregação chegou a Antioquia e uma grande multidão de gregos se convertia ao Senhor, a Igreja de Jerusalém enviou São Barnabé a Antioquia para consolidar a nova comunidade. Ao chegar e ver a graça de Deus operando, São Barnabé regozijou-se e exortou a todos a permanecerem fiéis ao Senhor com coração firme. O próprio livro dos Atos o descreve com precisão: “Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e uma grande multidão se uniu ao Senhor” (Atos 11,24).
Percebendo a grandeza da missão e a necessidade de reforço, São Barnabé foi a Tarso buscar Saulo e o trouxe a Antioquia. Os dois permaneceram ali um ano inteiro, ensinando uma grande multidão. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos foram chamados cristãos (Atos 11,26).
A primeira viagem missionária e o Concílio de Jerusalém
Enquanto a comunidade de Antioquia orava e jejuava, o Espírito Santo ordenou: “Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os chamei” (Atos 13,2). Após a imposição das mãos, os dois partiram para a primeira grande missão apostólica — a primeira viagem missionária — acompanhados inicialmente por João Marcos.
A dupla atravessou a ilha de Chipre (pátria de São Barnabé), onde pregou em Salamina e em Pafos. Ali, o procônsul romano Sérgio Paulo quis ouvir a palavra de Deus; o mago Barjesus (Elimas) tentava desviá-lo da fé, mas São Paulo o censurou e cegou temporariamente, e o procônsul converteu-se ao Senhor (Atos 13,6-12). A missão prosseguiu pela Ásia Menor: Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe. Em Listra, após a cura de um paralítico de nascença, o povo quis prestar-lhes honras divinas — chamando São Barnabé de Júpiter e São Paulo de Mercúrio. Os dois apóstolos rasgaram as vestes e recusaram energicamente qualquer culto (Atos 14,8-18).
De volta a Antioquia, os dois relataram à Igreja tudo o que Deus havia operado por seu intermédio e como havia aberto aos gentios a porta da fé (Atos 14,27).
Surgiu então uma grave controvérsia: alguns pregavam que os convertidos do paganismo precisavam se circuncidar e guardar a lei de Moisés. São Paulo e São Barnabé foram enviados a Jerusalém para resolver a questão com os apóstolos e anciãos — o Concílio de Jerusalém, por volta do ano 49. Após o discurso de São Pedro e os testemunhos de São Paulo e São Barnabé sobre os milagres operados entre os gentios, o Concílio decidiu, sob a presidência do bispo São Tiago, que os pagãos convertidos não estavam sujeitos à circuncisão (Atos 15,1-29). São Barnabé foi um dos signatários morais dessa decisão fundante da Igreja.
A separação por causa de São Marcos
Ao planejar uma segunda visita às igrejas já fundadas, São Paulo e São Barnabé divergiram sobre levar João Marcos, que na primeira viagem os havia abandonado em Panfília (Atos 15,36-38). São Paulo não o queria consigo; São Barnabé, que era primo de São Marcos, insistia em levá-lo. A controvérsia foi tal que os dois apóstolos se separaram: São Paulo partiu com Silas rumo à Síria e Cilícia, enquanto São Barnabé tomou São Marcos e embarcou para Chipre (Atos 15,39-40).
Rohrbacher nota que essa separação foi, a seu modo, fecunda: “A severidade de Paulo e a doçura de Barnabé foram igualmente úteis a João Marcos: aprendeu a ser constante.” São Marcos de fato se tornou colaborador fiel — tanto de São Paulo (cf. 2 Timóteo 4,11) quanto de São Pedro (cf. 1 Pedro 5,13). Sobre São Barnabé, São Lucas encerra o relato bíblico: a partir daí, ocupado em narrar as viagens de São Paulo, não menciona mais São Barnabé (Atos dos Apóstolos 15,40 em diante).
A tradição cipriota e o martírio em Salamina
Após a separação de São Paulo, a tradição da Igreja — atestada por Rohrbacher e pela história eclesiástica de Orsi — afirma que São Barnabé pregou o Evangelho em Chipre, sua pátria, e que a Igreja cipriota foi por ele fundada. Segundo a tradição, sofreu o martírio em Salamina (cidade da costa leste de Chipre), lapidado pelos judeus locais, por volta do fim do século I.
A tradição cipriota acrescenta que, quando o corpo de São Barnabé foi descoberto — segundo conta a Igreja de Chipre, no século V, durante o episcopado de São Antão de Salamina — encontrou-se sobre o seu peito um exemplar do Evangelho de São Mateus, transcrito de seu próprio punho. Essa descoberta das relíquias foi determinante para a autocefalía da Igreja de Chipre: o imperador Zenão (474-491) reconheceu o direito da Igreja cipriota de consagrar seus próprios arcebispos, independentemente do Patriarcado de Antioquia — privilégio que a Igreja de Chipre conserva até hoje.
Segundo outra tradição particular, registrada por Rohrbacher, São Barnabé teria pregado em Milão antes de retornar ao Oriente, sendo venerado naquela cidade como apóstolo fundador.
Sob seu nome circula na antiguidade uma Epístola de Barnabé — texto de caráter doutrinal e moral, dividido em duas partes (dogmática e ética), que remonta provavelmente ao século II. A maioria dos estudiosos não a atribui ao apóstolo São Barnabé, embora Rohrbacher a considere “digna dos tempos apostólicos”. O texto não integra o cânone do Novo Testamento.
Referências
- Atos dos Apóstolos 4,36-37 (venda do campo e o sobrenome Barnabé); 9,26-27 (apresenta Saulo aos apóstolos); 11,19-26 (enviado a Antioquia; busca Saulo em Tarso); 13,1–14,28 (primeira viagem missionária); 15,1-35 (Concílio de Jerusalém); 15,36-40 (separação por causa de São Marcos)
- Martirologio Romano 2004, Editrice Vaticana — memória de 11 de junho
- Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 10, cap. “São Barnabé, Apóstolo” (trad. pt., obrascatolicas.com)
- Wikipedia (pt): https://pt.wikipedia.org/wiki/Barnab%C3%A9

