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São Justo de Urgell

Também conhecido como Just d'Urgell, Justus Urgellensis, Justo de Urgel

Identificação

São Justo de Urgell — bispo de Urgell no século VI, exegeta bíblico e participante dos principais concílios da Igreja hispânica do seu tempo. É o mais célebre de uma extraordinária família episcopal que reuniu quatro irmãos no episcopado simultaneamente.

Elogio (Martirológio Romano 2004)

Em Urgel, na Hispânia Tarraconense, São Justo, bispo, que escreveu um comentário alegórico do “Cântico dos Cânticos” e tomou parte nos concílios hispânicos.

Vida

O bispo de Urgell e a família episcopal hispânica

São Justo foi bispo de Urgell — diocese situada na Hispânia Tarraconense, no território que hoje corresponde ao extremo norte da Catalunha, nos Pirineus — num dos períodos mais decisivos da história da Igreja na Península Ibérica: a transição do domínio romano tardio para o reino visigótico cristão. O século VI viu os visigodos consolidarem o catolicismo como religião do reino, num processo em que os bispos hispânicos desempenharam papel central tanto na estrutura eclesiástica quanto na vida civil.

São Justo pertencia a uma família de notável vocação episcopal. Seus três irmãos eram também bispos: Justiniano de Valença, Nebrídio de Egara (atual Terrassa, na Catalunha) e Elpídio de Huesca. A presença simultânea de quatro irmãos no episcopado hispânico é dado singular que o Padre Rohrbacher registra com ênfase, e testemunha tanto o prestígio da família quanto a penetração do espírito cristão nas elites hispanorromanas do período. Não há documentação sobre a origem familiar ou a diocese onde São Justo recebeu formação antes de assumir a cátedra de Urgell.

O Explicatio in Cantica Canticorum — primeiro comentário bíblico sistemático da Hispânia visigótica

A obra que consagrou São Justo à posteridade é o Commentarius in Cantica Canticorum (também conhecido como Explicatio in Cantica Canticorum), comentário alegórico ao Cântico dos Cânticos. O próprio Martirológio Romano de 2004 o destaca como sua contribuição distintiva ao patrimônio da Igreja.

Seguindo a tradição exegética inaugurada por Orígenes e aprofundada por São Gregório de Nissa e São Gregório Magno, São Justo adota o método alegórico: o diálogo nupcial do Cântico é lido como figura da relação entre Cristo e a Igreja, ou entre o Verbo eterno e a alma fiel. Essa leitura não era novidade no Oriente, mas na Hispânia do século VI representava contribuição de peso — São Justo é considerado o primeiro exegeta hispânico a produzir um comentário sistemático ao Cântico dos Cânticos. O texto circulou nos ambientes monásticos e catedralícios da Hispânia e foi preservado na tradição manuscrita medieval, estando editado na Patrologia Latina de Migne (vol. 67, cols. 963–994).

O comentário é também testemunho da formação patrística sólida do episcopado hispânico do século VI: São Justo conhecia as fontes latinas e, provavelmente, a produção grega através de intermediários. Essa erudição situa-o no mesmo ambiente intelectual que, uma geração depois, produziria São Isidoro de Sevilha.

A ação conciliar

A atividade episcopal de São Justo foi intensa no campo conciliar. Ele participou de três assembleias de relevo na Igreja hispânica:

  • II Concílio de Toledo (527): um dos primeiros grandes concílios do período visigótico pós-ariano, que tratou da disciplina eclesiástica e da organização do clero;
  • Concílio de Lerida (546, também chamado Ilerde, do nome latino da cidade): importante para a disciplina dos clérigos e a vida monástica na Tarraconense;
  • Concílio de Valença (549): que reafirmou normas disciplinares e dogmáticas para a Igreja hispânica.

A presença de São Justo em todas essas assembleias — ao longo de mais de duas décadas — indica um episcopado longo e ativo. O Padre Rohrbacher assinala que “desconhece-se o ano em que faleceu”, dado confirmado pelo silêncio do próprio Martirológio Romano 2004, que não registra data de morte.

Legado

São Justo de Urgell permanece como figura de dupla importância na história da Igreja hispânica: como exegeta, antecipou a tradição bíblica que floresceu com Santo Isidoro de Sevilha e os grandes escritores visigóticos; como bispo conciliar, contribuiu para a consolidação da disciplina eclesiástica numa época de profundas transformações políticas e religiosas. A diocese de Urgell — uma das mais antigas da Catalunha, com sede em La Seu d’Urgell — guarda a memória do seu episcopado como parte de sua identidade histórica.

Referências

  • Martirológio Romano 2004. Cidade do Vaticano: Editrice Vaticana, 2004. Entrada do dia 28 de maio.
  • Rohrbacher, René-François. Vidas dos Santos. Vol. 9. São Paulo: Edições Paulinas, [s.d.]. p. 283 (entrada do dia 28 de maio).
  • Migne, J.-P. (ed.). Patrologia Latina, vol. 67, cols. 963–994. Paris, 1848. [Commentarius in Cantica Canticorum de Justo Urgellense.]
  • Wikidata: Q2499961.
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