São Medardo

Também conhecido como Médard de Noyon, Medardo de Vermandois, bispo de Noyon e Tournai

Identificação

São Medardo (c. 456 – c. 560), bispo de Vermandois e depois de Noyon, e mais tarde também de Tournai, foi um dos grandes evangelizadores da Gália no período merovíngio. Contemporâneo de São Remígio de Reims, do rei Clotário I e de Santa Radegundes, São Medardo dedicou décadas à conversão de populações ainda ligadas ao paganismo e à consolidação da fé católica nos territórios francos. A Igreja celebra sua memória em 8 de junho.

Elogio (Martirológio Romano 2004)

Em Soissons, também na Gália, hoje na França, São Medardo, bispo de Saint-Quentin, que, depois de ter sido arrasada a sua cidade, transferiu a sede episcopal para Noyon, onde trabalhou com todo o empenho para converter o povo das superstições pagãs à doutrina de Cristo.

Vida

Origem e formação na Gália merovíngia

São Medardo nasceu por volta de 456 em Salency, na Picardia, filho de Nectário — nobre franco de origem germânica — e de Protagia, de família galo-romana. Essa dupla ascendência, franca e romana, era comum entre as elites da Gália do século V e tornou-se, na vida de São Medardo, símbolo da fusão entre o mundo bárbaro e a tradição cristã latina que marcou o período merovíngio.

Desde a infância, São Medardo revelou inclinação para a vida religiosa. O Rohrbacher refere que “as virtudes de Medardo cresciam com a idade, e a sua reputação com as virtudes”, acrescentando que “era já conhecido em quase toda a Gália” antes de ser chamado ao episcopado. Foi elevado ao sacerdócio por volta de 489.

Episcopado e transferência da sede para Noyon

Por volta de 530, após a morte do bispo Alomério (também transmitido como Alomer), São Medardo foi ordenado bispo de Vermandois por São Remígio de Reims — o mesmo arcebispo que havia batizado Clóvis. A antiga sede episcopal, Augusta dos Vermandois (a atual Saint-Quentin), havia sido devastada pelas incursões bárbaras do século V e se encontrava enfraquecida. Conforme o Martirológio Romano, São Medardo transferiu a sede para Noyon, cidade mais bem protegida e de posição estratégica no coração da Gália franca.

Poucos anos depois, faleceu Santo Eleutério, bispo de Tournai — diocese de grande extensão, que chegava até Gand e Antuérpia, e que ainda conservava um número considerável de habitantes pagãos. Conforme o Rohrbacher, São Medardo havia se dirigido a Tournai para presidir às exéquias de Santo Eleutério, seu “particular amigo”. O rei Clotário I, o povo e o clero elegeram então São Medardo para assumir também o governo dessa segunda diocese, sem abrir mão de Noyon. As duas sés permaneceram unidas sob um mesmo bispo por cerca de seiscentos anos, até 1146.

Evangelização contra o paganismo

A diocese de Tournai era, naquele tempo, um dos campos mais difíceis da evangelização na Gália. As populações do norte — francos, mas também tribos de tradição germânica mais arraigada — mantinham cultos pagãos que resistiam à pregação cristã. São Medardo atuou com zeal pastoral intenso, buscando converter “o povo das superstições pagãs à doutrina de Cristo”, como registra o próprio Martirológio Romano. O Rohrbacher testemunha que, já antes do episcopado em Tournai, São Medardo “era já conhecido em quase toda a Gália” pela profundidade de sua pregação e pelo vigor de sua vida pessoal.

Relação com Santa Radegundes

Um dos episódios mais significativos do episcopado de São Medardo foi a consagração de Santa Radegundes ao serviço de Deus. Radegundes, princesa da Turíngia, havia sido tomada como esposa pelo rei Clotário I após a conquista de seu reino. Depois de anos de vida austera na corte — durante os quais um irmão querido foi executado por ordem do próprio rei — Radegundes obteve permissão para se afastar do mundo. Conforme o Rohrbacher: “Em Noyon, Medardo consagrou-a a Deus.” São Medardo deu-lhe o véu sagrado, consagrando-a à vida religiosa; Santa Radegundes seguiu depois para Tours e fundou em Poitiers o Mosteiro de Nossa Senhora, onde viveu o restante de sua vida como religiosa e como fundadora. Esse ato de São Medardo foi decisivo para a configuração da vida monástica feminina na Gália merovíngia.

Morte, culto e mosteiro de Soissons

São Medardo morreu por volta de 560, após cerca de quinze anos de episcopado conjunto em Noyon e Tournai. Sua morte, segundo o Rohrbacher, “não se revelou menos esplendente do que a vida, pela pompa de suas exéquias e os milagres que as acompanharam”. Informado da enfermidade do santo bispo, o rei Clotário I foi visitá-lo pessoalmente para pedir-lhe a bênção — sinal da reverência que a realeza merovíngia nutria por São Medardo. Para consolar-se da perda de quem considerava “poderoso protetor junto de Deus”, Clotário mandou trasladar o corpo para Soissons, onde mantinha sua corte, e prometeu construir uma igreja e um mosteiro sobre a sepultura. Desse gesto nasceu o Mosteiro de São Medardo de Soissons, que se tornaria uma das mais célebres abadias da França medieval. Durante o cortejo fúnebre, relata o Rohrbacher, citando São Gregório de Tours, as cadeias de vários prisioneiros se partiram — e São Gregório de Tours ainda as viu presas à sepultura do santo em memória do milagre.

Devoção popular

Segundo a tradição popular francesa, São Medardo está associado a provérbios meteorológicos: afirma-se que, se chover no dia 8 de junho (festa de São Medardo), a chuva duraria quarenta dias consecutivos — o equivalente francês do dito que em outros países se atribui a São Swituno (15 de julho) ou São Barnabé. Esse provérbio, “S’il pleut à la Saint-Médard, il pleut quarante jours plus tard”, é registrado na tradição popular da Picardia e de regiões vizinhas desde a Idade Média. Trata-se de lenda folclórica agrícola, sem fundamento histórico ou litúrgico, e deve ser entendida apenas como expressão do calendário popular camponês que associava o nome do santo local às previsões de colheita. A devoção de agricultores, vinhateiros e trabalhadores rurais a São Medardo provém, nesse contexto, de sua festa coincidir com momento crítico do calendário agrícola europeu.

Referências

  • Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 10 (8 de junho — «São Medardo, bispo de Noyon»); vol. 14 (episódio de Santa Radegundes em Noyon).
  • Martirológio Romano 2004, 8 de junho (Editrice Vaticana).
  • Verbete Médard de Noyon, na Wikipédia (fr) — Wikipedia em português não possui página para São Medardo.
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