Santo Onofre
Também conhecido como Onúfrio, Onuphrius, Unnufer, Onofrio
Identificação
Santo Onofre (em latim Onuphrius; em copta Uenofre; em grego Ὀνούφριος) — anacoreta egípcio venerado como um dos grandes Padres do Deserto. Viveu sozinho na imensidão da Tebaida, provavelmente entre fins do século IV e princípios do século V. O nome deriva do copta Uenofre e do egípcio wnn-nfr, expressão que significa “aquele que é continuamente bom” ou “o perfeito” — epíteto que, na religião faraônica, era atribuído a Osíris. Para os cristãos, o nome tornou-se signo da perfeição a que o eremita aspirava pelo silêncio e pela oração.
Santo Onofre é venerado em toda a Igreja: no rito romano a festa cai em 12 de junho; no rito copta, em 16 de Paoni (correspondente a fins de maio ou início de junho); no rito bizantino, na mesma data de junho. É padroeiro, por devoção local, dos tecelões e tintureiros — associação surgida da imagem do santo coberto por uma espessa cabeleira que lhe servia de única vestimenta no deserto.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
No Egito, Santo Onofre, anacoreta, que passou sessenta anos de vida religiosa na amplidão do deserto.
Vida
Os Padres do Deserto e o eremitismo egípcio
No século IV o movimento eremítico irrompeu no Egito com uma força sem precedentes na história do cristianismo. Após a paz de Constantino (313), quando o martírio de sangue se tornara raro no Império, inúmeros cristãos buscaram o deserto como “martírio branco” — a morte lenta ao eu, ao conforto e ao mundo. Santo Antônio do Egito (†356) é o grande pai desta tradição; ao redor de sua figura e da de São Pacômio, fundador do cenobitismo copta, agregaram-se centenas de monges e anacoretas que encheram a Tebaida, o Sinai e o Wadi Natrun de cabanas, grutas e celas de oração.
Dentro desta constelação de gigantes espirituais, Santo Onofre representa o polo mais radical: o anacorético puro, o solitário absoluto que não pertencia a nenhuma comunidade e que vivia sem companhia humana por décadas, sustentado apenas pela Providência divina.
O relato de Pafnúcio sobre Santo Onofre
A única fonte narrativa sobre Santo Onofre é o texto conhecido como Vita Onuphrii, atribuído a Pafnúcio (ou Páfnúcio), monge e abade egípcio que tinha o hábito de percorrer o deserto em visita aos eremitas. O texto circulou amplamente no Oriente desde fins do século IV ou início do V, tornando-se uma das narrativas fundadoras da literatura hagiográfica monástica. A autoria exata e a data precisa da composição não são estabelecidas com certeza pela crítica histórica; por isso, tudo o que se relata a seguir deve ser compreendido segundo a tradição transmitida por Pafnúcio, não como documento histórico verificável.
Segundo essa tradição, Pafnúcio partiu um dia para visitar os anacoretas do deserto egípcio. Depois de longa caminhada pela imensidão árida da Tebaida, deparou-se de súbito com uma figura que, a princípio, o apavorou: um velho de cabeleira longuíssima e barbas vastíssimas, ambas a arrastar pelo chão, o corpo coberto apenas por um saiote de folhas secas. Queimado pelo sol e castigado pelo vento, o ser parecia mais animal selvagem do que homem. Pafnúcio fugiu, mas a criatura o chamou docemente pelo nome, e ele voltou.
Era Santo Onofre. Segundo o relato de Pafnúcio, o ancião então lhe contou sua história: antes de ser eremita, vivera em mosteiro com mais de cem irmãos. Um dia sentiu com insistência o chamado do deserto — não o cénobi com sua comunidade, mas a solidão absoluta onde só Deus restaria. Deixou os irmãos e se aventurou pelo ermo. Sofreu fome, sede, calor, frio, chuvas, secas prolongadas e tentações de toda espécie. Mas Deus, segundo o relato, o consolou e alimentou: ao lado da gruta onde se abrigava, cresceu uma tamareira cujos frutos o sustentavam; nos períodos em que os frutos faltavam, pão e água apareciam miraculosamente ao entardecer na entrada da gruta. Assim passou sessenta anos — medida que o Martirológio Romano 2004 retém como memória canônica do seu tempo de vida eremítica.
Segundo Pafnúcio, quando os dois se encontraram, Santo Onofre estava às portas da morte. O ancião olhou fixamente para seu visitante e disse: “Não temas, irmão Pafnúcio. O Senhor, em sua infinita misericórdia, aqui te enviou para que me sepultes.” Abençoou o abade, pediu que rogasse por ele, deitou-se e morreu. Pafnúcio sepultou-o na gruta. Naquele mesmo instante, conta a tradição, a gruta desmoronou-se e a tamareira murchou e morreu também — como se a natureza inteira lamentasse a partida do anacoreta que tanto amara.
Rohrbacher, na sua História Universal da Igreja Católica, situa esses eventos “provavelmente pelo ano 400”, dado que os textos de Pafnúcio circulavam no Egito e no Oriente perto desta data.
Os sessenta anos de solidão
O dado mais eloquente da vida de Santo Onofre — os sessenta anos no deserto — é ao mesmo tempo o mais difícil de datar com precisão. Se entrou no deserto jovem (a tradição o supõe), e se morreu por volta do ano 400, teria nascido em torno de 320-340, no início da grande era dos Padres do Deserto. Alguns hagiógrafos medievais associaram sua origem à Etiópia ou a uma família régia egípcia, mas esses elementos pertencem a estratos legendários secundários sem confirmação nas fontes mais antigas.
O que a tradição preserva com consistência é a imagem do homem que escolheu a solidão radical como caminho para Deus: sem livros, sem discípulos, sem comunidade — apenas o deserto, a oração incessante e a confiança absoluta na Providência.
Morte, culto oriental e culto ocidental
Santo Onofre é venerado desde a Antiguidade cristã tanto no Oriente quanto no Ocidente. No Oriente, seu culto se difundiu a partir do Egito pela Síria, pela Ásia Menor e por Constantinopla; o mosteiro que leva seu nome em Jerusalém é testemunho vivo dessa devoção oriental antiquíssima. No Ocidente, o culto chegou pela rota da transmissão bizantina para a Itália; a Igreja de Sant’Onofrio al Gianicolo, em Roma, construída no século XV, tornou-se seu santuário principal no Ocidente latino.
A iconografia é imediatamente reconhecível: um ancião nu, completamente coberto pela própria cabeleira branca e pela barba que chegam ao chão, com um pequeno saiote de folhas a cobrir os rins. Por vezes, um anjo lhe traz pão ou o cálice eucarístico; outras vezes, uma coroa jaz aos seus pés — símbolo da realeza mundana que teria desprezado. A associação medieval com tecelões e tintureiros decorre exatamente dessa imagem de alguém que “tece” o próprio manto com os fios do cabelo: ofício que nenhum mestre jamais ensinou.
Em Palermo, Santo Onofre é co-padroeiro da cidade desde 1650, ao lado de Santa Rosália. Na Sicília, a devoção popular o invoca para encontrar objetos perdidos — crença que se difundiu também por outras regiões mediterrâneas.
Referências
- Martirológio Romano 2004, Editrice Vaticana, verbete de 12 de junho.
- Rohrbacher, René-François, História Universal da Igreja Católica, vol. 10, cap. “Santo Onofre” (trad. portuguesa digitalizada — fonte primária consultada diretamente).
- Wikipedia italiano: Onofrio (anacoreta) — consultado 2026-05-28 (fonte: it).
- Wikipedia inglês: Onuphrius — consultado 2026-05-28 (fonte: en).
- Wikidata: Q464959

