São Paulino de Nola
Também conhecido como Pôncio Merópio Paulino, Paulino de Nola, Paulinus Nolanus
Identificação
São Paulino de Nola (Pôncio Merópio Anício Paulino; c. 354 – 431), senador e cônsul romano de família aristocrática da Aquitânia que, tocado pela graça, renunciou a todas as riquezas e honras para abraçar a pobreza evangélica junto ao túmulo de São Félix, presbítero, em Nola, na Campânia. Eleito bispo dessa mesma cidade em 409, governou-a com mansidão e caridade até a morte. É um dos mais altos representantes da poesia cristã latina da Antiguidade e um dos grandes amigos espirituais de Santo Agostinho, São Jerônimo e Santo Ambrósio. A Igreja celebra sua memória em 22 de junho.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
São Paulino, bispo, que recebeu o batismo em Bordéus, renunciou ao consulado e, sendo um homem nobre e rico, se fez pobre e humilde por amor de Cristo; transferindo-se para Nola, na Campânia, perto do sepulcro de São Félix, presbítero, e para seguir o seu exemplo, abraçou a vida ascética com a esposa e alguns companheiros; ordenado bispo, foi insigne pela sua cultura e santidade e empenhou-se generosamente em ajudar os peregrinos e aliviar os indigentes.
Vida
O senador e poeta da Aquitânia, aluno de Ausônio
Paulino nasceu por volta de 354 em Bordéus, na Gália Aquitana, no seio de uma das famílias mais ilustres do Ocidente romano. Seu pai, Pôncio Paulino, era prefeito do pretório nas Gálias e primeiro magistrado do império do Oriente; a família contava longa lista de senadores e cônsules tanto pela linha paterna quanto pela materna. A essa nobre ascendência somava-se um espírito vivo e fecundo, aptidão poética incomum e capacidade notável para as letras e para a administração.
Sua formação intelectual ficou a cargo do grande poeta e cônsul Ausônio de Bordéus, um dos mais célebres retores da época tardia. Paulino igualou — e, na opinião de muitos, suplantou — o mestre: foi declarado cônsul ainda jovem, antes mesmo de Ausônio. Exerceu durante cerca de quinze anos altos cargos no Império, incluindo o governo da Campânia (por volta de 378), onde escolheu Nola como sede preferida. Fez grande número de amigos na Itália, na Espanha e nas Gálias, e sua reputação literária e administrativa estendia-se por todo o Ocidente.
A conversão e a renúncia radical às riquezas
A morte de um irmão, as convulsões políticas após o assassínio do imperador Graciano, e sobretudo o contato com Santo Ambrósio de Milão, São Martinho de Tours, São Victrício de Rouen e o bispo Santo Delfim de Bordéus foram abrindo no coração de Paulino uma fissura que a graça alargaria até o abandono total do mundo. Casou-se com Terásia (Therasia), mulher espanhola de posses e piedade; juntos, recolheram-se para uma pequena propriedade na Espanha por volta de 390 e ocuparam-se da própria santificação. Nesse período, perderam o único filho, Celso, enterrado em Alcalá junto dos mártires Justo e Pastor; a dor selou neles o voto de continência perpétua.
Foi em Bordéus, pelas mãos do bispo Santo Delfim, que Paulino recebeu o batismo, por volta de 380–389. Decidida a ruptura com o mundo, vendeu todas as propriedades — consideráveis a ponto de Ausônio ter lamentado ver “os reinos de Paulino” repartidos entre cem pessoas — distribuiu o preço entre os pobres, abriu celeiros e paióis a todos os necessitados, resgatou cativos e devedores reduzidos à escravidão. A esposa Terásia, não menos fervorosa, fez o mesmo com os próprios bens. O mundo chamou isso de loucura; os santos da época — entre eles Santo Ambrósio, São Jerônimo e Santo Agostinho — admiraram-no como heroísmo evangélico.
No Natal de 393 ou 394, o povo de Barcelona, edificado pela santidade de Paulino, reclamou sua ordenação presbiteral com tal insistência que ele consentiu, com a condição de conservar liberdade de movimentos. A irregularidade (era neófito leigo, sem vínculo a uma igreja particular) valeu-lhe reservas por parte de Roma; mas o amor de Cristo arrastava-o para Nola, e foi para lá que ele se dirigiu.
Nola, São Félix e os poemas Natalícios
Desde que governara a Campânia, Paulino conhecera e venerara São Félix, presbítero confessor do século III, cujo túmulo ficava a poucos passos de Nola. Era junto a esse sepulcro que ele queria sepultar-se no serviço de Cristo — ser o porteiro da igreja, varrer o pavimento cada manhã, vigiar à noite para guardá-la. Instalou-se, pois, em Nola por volta de 394, construiu uma comunidade de celas ao redor da basílica erguida sobre o túmulo de São Félix e reuniu consigo um grupo de homens que viviam segundo uma regra comum, formando o que chamava de companhia de monges.
Cada ano, no dia da festa de São Félix (14 de janeiro), Paulino compunha um poema em honra do santo — os chamados Carmina Natalicia (Poemas Natalícios), dos quais quinze chegaram até nós. São a mais extensa e coerente série de poemas votivos da Antiguidade cristã latina, misturando hagiografia, teologia, autobiografia e exortação moral com elegância técnica herdada de Virgílio e Horácio. O próprio Martirológio Romano recorda, ao falar de São Nicetas, bispo de Remesiana, que São Paulino “o louva com um eloquente poema, por ter anunciado o Evangelho aos bárbaros” — testemunho da amplitude e generosidade da obra poética de Paulino.
A correspondência com os maiores santos e intelectuais do Ocidente foi simultânea e intensa. Santo Agostinho, ainda sacerdote, recebeu uma das primeiras cartas de Paulino, acompanhada de um pão bento em sinal de fraternidade; os dois mantiveram troca epistolar preciosa por décadas. São Jerônimo elogiou-o com entusiasmo. Santo Ambrósio o recebeu em Milão e o inscreveu no próprio clero. São Martinho de Tours foi-lhe tão caro que, no leito de morte, São Paulino o viu aparecer em visão junto com São Januário, bispo de Cápua. O epistolário de São Paulino — 49 cartas conservadas — é fonte privilegiada para a história da Igreja do século V.
O episcopado e a amizade com os grandes da era patrística
Em 409, morto o bispo Paulo de Nola, o povo aclamou Paulino como sucessor. Eleito e consagrado bispo, governou a diocese com a mesma largueza de espírito que marcara a sua vida ascética: não procurou jamais ser temido, mas amado; nos julgamentos examinava com rigor e decidia com doçura; guardava com escrupulosa fidelidade os bens da Igreja para gastá-los em favor dos pobres e dos peregrinos.
Quando os godos de Alarico devastaram a Itália em 410 e Paulino caiu prisioneiro, pediu a Deus apenas que não o torturassem por ouro ou prata, pois sabia que já não tinha nada. Os invasores não o tocaram. Mais tarde, nada mais tendo a dar aos necessitados, chegou a oferecer-se como escravo para resgatar filhos de uma viúva que os vândalos haviam levado para a África — gesto de caridade que impressionou toda a posteridade.
Morte e legado literário
São Paulino morreu em 22 de junho de 431, em Nola, com cerca de setenta e oito anos. As circunstâncias de sua morte foram registradas por um sacerdote chamado Urânio, que esteve presente. No leito final, São Paulino celebrou ainda o sacrifício eucarístico com dois bispos que o visitavam, reconciliou os que havia separado do ministério segundo a disciplina eclesiástica, e exortou clero e povo à paz. Viu em visão São Januário de Cápua e São Martinho de Tours. Ao anoitecer, cantou o salmo: Preparei uma lâmpada ao meu Cristo. Morreu ao romper da madrugada seguinte, e o semblante e o corpo pareceram, ao testemunho dos presentes, “brancos como neve”.
O legado literário de São Paulino de Nola é duplo: 33 poemas (Carmina), incluindo os 14 ou 15 Natalícios em honra de São Félix, e 49 cartas — corpus que o coloca entre os mais importantes escritores cristãos latinos da passagem do século IV para o V, ao lado de Santo Agostinho e São Jerônimo. A tradição atribui-lhe também a introdução ou popularização do uso de sinos nas igrejas, razão pela qual é considerado patrono dos campanários (sinos de torre). Sua espiritualidade da pobreza radical, da devoção aos mártires e da poesia como forma de louvor influenciou toda a tradição monástica ocidental.
Referências
- Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 11 (22 de junho — «São Paulino, Bispo de Nola»), pp. 93–100. [Fonte em PT; lida diretamente]
- Martirológio Romano 2004, 22 de junho, entrada 1 (memória facultativa, ranking II).
- Martirológio Romano 2004, 22 de junho, entrada 6 (São Nicetas de Remesiana, citando poema de São Paulino).
- Verbete Paulino de Nola, na Wikipédia (PT). [Dados escassos; informação sobre local de morte (“Sicília”) descartada por contradizer MR 2004, Rohrbacher e Wikipedia IT]
- Verbete Paolino di Nola, na Wikipédia (IT). [Consultada para confirmação de dados; morte confirmada em Nola, 22 giugno 431]

