Santos
Primeiros Mártires da Santa Igreja Romana
Primeiros Mártires da Igreja Romana
Também conhecido como Protomártires de Roma, Santos Mártires de Roma sob Nero, Primícias dos mártires da Igreja Romana
Identificação
Os Santos Primeiros Mártires da Santa Igreja Romana — chamados pela tradição protomártires — são os cristãos anônimos de Roma que, acusados injustamente de terem provocado o grande incêndio da Urbe em julho de 64 d.C., sofreram execução por ordem do imperador Nero e ofereceram assim à Igreja o seu primeiro testemunho coletivo de sangue. São discípulos dos Apóstolos e “primícias dos mártires que a Igreja Romana apresentou ao Senhor” — palavras do próprio Martirológio Romano. A Igreja celebra sua memória no dia 30 de junho, no dia seguinte à solenidade dos santos São Pedro e São Paulo, como que em coroa ao apostolado dos dois príncipes.
A festa foi introduzida no Calendário Romano em 1969, na reforma litúrgica do papa Paulo VI, como memória facultativa de segunda classe (ranking II). Os mártires permanecem sem nome próprio registrado: a tradição não conservou nenhuma lista, e o Martirológio não os individualiza. São santos coletivos, litúrgicos e anônimos.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Os santos protomártires da Santa Igreja Romana, que, acusados de provocar o incêndio da Urbe, por ordem do imperador Nero foram cruelmente mortos com vários suplícios: uns foram expostos aos cães cobertos com peles de animais e por eles devorados; outros crucificados e outros lançados ao fogo, para que, ao declinar o dia, servissem de lâmpadas nocturnas. Todos eles eram discípulos dos Apóstolos e primícias dos mártires que a Igreja Romana ofereceu ao Senhor.
Vida
O incêndio de Roma de 64 d.C. e a acusação caluniosa de Nero
Na noite de 18 de julho de 64 d.C., um incêndio irrompeu numa área comercial próxima ao Circo Máximo e alastrou-se velozmente por entre as insulae — os blocos de moradia em madeira, às vezes com cinco andares — que compunham a maior parte do tecido urbano de Roma. Em seis dias, três dos catorze distritos da cidade foram completamente destruídos e outros sete sofreram danos graves. A catástrofe foi a maior que Roma conhecera até então.
As suspeitas da população voltaram-se logo contra o próprio imperador Nero. Corria o rumor de que ele teria contemplado as chamas, deleitando-se com o espetáculo enquanto recitava versos, e que os incêndios teriam sido ateados deliberadamente para libertar terreno destinado a obras imperiais — entre elas a suntuosa Domus Aurea, que Nero fez construir sobre os escombros de bairros destruídos. Para desviar de si as suspeitas, o imperador escolheu um bode expiatório: os cristãos.
A comunidade cristã de Roma era então pouco numerosa, majoritariamente de origem servil ou de camadas populares, e fortemente mal vista pelo ambiente pagão. Os cristãos recusavam a participar dos cultos públicos e dos sacrifícios aos deuses, viviam em assembleia fechada e eram acusados de ódio ao gênero humano (odium humani generis). Torná-los responsáveis pelo incêndio era, para Nero, politicamente conveniente.
O testemunho de Tácito e de São Clemente Romano
O historiador Tácito — nascido cerca de oito anos antes do incêndio e senador em época posterior — registrou os acontecimentos nos Anais (livro XV, cap. 44), a mais detalhada fonte pagã sobre essa perseguição. Tácito declara que os cristãos foram declarados culpados e submetidos a suplícios de requintada crueldade: cobertos de peles de animais, eram lançados aos cães para serem dilacerados; outros foram crucificados; outros, untados de substâncias inflamáveis, eram transformados em tochas vivas ao cair da noite, iluminando assim os jardins imperiais. O próprio Tácito, que não simpatizava com os cristãos, reconhece que a perseguição não visava ao bem público, mas apenas “satisfazia a crueldade” de Nero. A culpa imputada era, em sua avaliação, imerecida como punição pelo incêndio — ainda que Tácito considerasse o christianismus uma “superstição perniciosa”.
Poucas décadas depois, por volta do ano 96 d.C., o papa São Clemente Romano escreveu aos coríntios a sua célebre Primeira Carta (Epistola ad Corinthios), documento mais antigo da literatura cristã fora do Cânon bíblico. Nela, São Clemente alude ao sofrimento dos fiéis de Roma sob a perseguição — evocando São Pedro e São Paulo como os maiores atletas da fé, e mencionando as mulheres martírizadas ao modo das Danaides e de Dirce, imagens que remetem aos espetáculos sangrentos descritos por Tácito. Embora não cite a perseguição neroniana pelo nome, São Clemente transmite a consciência viva de que a Igreja de Roma se fundou no sangue dos que testemunharam a fé antes dele.
O sentido da festa — os protomártires anônimos da Igreja de Roma
A decisão do Calendário Romano de 1969 de instituir esta memória no dia 30 de junho carrega um significado teológico preciso: os Santos Pedro e Paulo, comemorados em 29 de junho, não foram os únicos a regar de sangue a fundação da Igreja de Roma. Com eles — e por causa deles, pois eram discípulos dos Apóstolos — morreram muitos outros cujos nomes a história não guardou. Celebrá-los no dia seguinte é reconhecer que o apostolado dos príncipes gerou imediatamente uma nuvem de mártires anônimos, os quais deram à Igreja Romana a sua fisionomia inconfundível de Igreja que sofreu e que testemunhou.
Esses Santos permanecem sem nomes próprios registrados. A tradição não conservou listas, nem actas de martírio, nem sepulturas identificadas. Sua santidade é coletiva e anônima — o que os torna, paradoxalmente, representantes de todos os cristãos que em qualquer época derem a vida pelo nome de Cristo sem que ninguém escreva o seu nome. A Igreja, ao celebrá-los, celebra os mártires que ela conhece apenas pelo número e pelo sangue, não pelo nome.
Referências
- Martirológio Romano 2004 (Editrice Vaticana), 30 de junho — elogio dos Primeiros Mártires da Santa Igreja Romana.
- Tácito, Anais, XV, 44 — testemunho pagão sobre a perseguição de Nero aos cristãos após o incêndio de 64 d.C.
- São Clemente Romano, Epístola aos Coríntios (I Clem.), c. 96 d.C. — alusão ao martírio dos fiéis de Roma e à herança apostólica.
- Verbete Incêndio de Roma — Wikipédia PT (confirmado; língua: português).
- Verbete Nero — Wikipédia PT (confirmado; língua: português) — perseguição aos cristãos e relato de Tácito.

