Vou começar de um jeito que talvez soe estranho para quem só conhece o meu trabalho de longe: eu sou católico por intercessão de Santa Maria Goretti.
Não digo isso como figura de linguagem. Digo como quem presta contas de uma dívida. Fui convertido numa paróquia pequena de bairro — simples, pobre de recursos e cheia de fé —, e a padroeira daquela paróquia era ela: uma menina camponesa, morta aos onze anos, canonizada em 1950. Talvez desconhecida para muita gente. Para mim, de grandíssima importância.
É preciso fazer, já de saída, uma ressalva que me parece mais importante do que a própria história: eu não me converti por mérito nenhum. Fui convertido. Foi Deus quem agiu ali dentro, apesar da minha vontade — não por causa dela. Isso não é modéstia de redator. É teologia elementar: a graça não espera que a gente mereça para chegar. Ela chega primeiro.
Foi ali que aprendi o que sei sobre paróquia
Foi naquela igreja pequena, sob aquela padroeira, que eu aprendi praticamente tudo o que hoje repito sobre vida paroquial no Diário de um Paroquiano de Aldeia. Não aprendi em livro de eclesiologia. Aprendi vendo gente pobre rezar terço antes da missa de semana, vendo padre de paróquia humilde batalhar para manter as luzes acesas, vendo uma comunidade pequena segurar a fé de gerações inteiras sem alarde nenhum. A paróquia de bairro não é a periferia da Igreja. É, muitas vezes, o centro nervoso dela — o lugar onde Deus efetivamente converte gente, porque é o único lugar onde a maioria de nós é, de fato, alcançada.
Se isso soa bonito demais para ser verdade, olhe para a vida da própria santa daquela paróquia.
Do pântano, uma santa
Santa Maria Goretti nasceu em 1890, em Corinaldo, na região das Marcas, filha de camponeses sem terra própria. Por volta de 1899, a família migrou atrás de trabalho para as Paludes Pontinas, perto de Nettuno — terra pantanosa, insalubre, onde se dividia casa com quem aparecesse disposto a lavrar a mesma lama. Foi lá que o pai dela, Luiz Goretti, morreu de malária, por volta de 1900. Foi lá que a família passou a dividir teto com a família Serenelli.
Não há nada de exótico nessa origem. Não há palácio, não há linhagem, não há circunstância extraordinária. Há fome, febre e trabalho na lama. E é exatamente dali — do que eu chamaria o pântano da vida, o lugar de ignorância, de pobreza, de dificuldade — que surge uma santa que é o Evangelho vivo, sem precisar de mais nada além da própria vida comum, levada a sério.
Ela rezava. Cuidava da casa e dos irmãos menores desde cedo. Tinha, para a idade, uma fé eucarística real — não decorada, vivida; fez a primeira comunhão poucas semanas antes de morrer, ainda menina, num tempo em que a Igreja em geral pedia que se esperasse mais para comungar. Ela chegou lá sozinha, por fervor local, anos antes de o Papa São Pio X abrir esse mesmo caminho, institucionalmente, a milhões de outras crianças. Uma coisa não causou a outra — mas as duas nasceram da mesma fome de Eucaristia.
Em 5 de julho de 1902, Alessandro Serenelli, o filho da família com quem dividiam casa, tentou violentá-la. Ela resistiu. Foi golpeada várias vezes. Morreu no dia seguinte, 6 de julho, no hospital de Nettuno, com onze anos completos.
Ela não quis só perdoar — quis a santidade dele
Isso já seria motivo de comoção. O que faz de Santa Maria Goretti uma santa, porém, não é ter sido vítima. É o que ela fez com a própria morte.
No leito, perguntada se perdoava o agressor como Cristo perdoou na cruz, ela disse que sim — por amor a Cristo, o perdoava, e queria que ele estivesse perto dela no Paraíso. Repare no verbo: não é “eu te absolvo”, não é “não guardo rancor”. É “eu quero que você chegue onde eu vou chegar”. Ela confiou à própria mãe esse desejo — que Alessandro também alcançasse o Paraíso.
Isso é mais do que perdão. Perdão, no sentido comum, é deixar de cobrar a dívida. O que Santa Maria Goretti fez foi desejar a santidade do próprio assassino — a forma mais alta de caridade que existe, porque quer para o outro o bem supremo, não apenas a ausência de mal. Anos depois, na prisão, Alessandro Serenelli se converteu; ao sair, cumprida a pena, foi pedir perdão a Assunta Goretti, mãe da santa. A vida dela seguiu operando depois que a vida dela, tecnicamente, tinha terminado.
Uma mãe que viu a filha ser proclamada santa
O Papa Pio XII beatificou Santa Maria Goretti em 1947 e a canonizou em 1950, na Praça de São Pedro, diante de cerca de meio milhão de pessoas. E Assunta Goretti, a mãe, estava lá — viva, presente, vendo a própria filha ser proclamada santa da Igreja universal.
Isso é raríssimo. No resto da hagiografia recente, quando uma santa morre jovem, a canonização costuma vir depois que os pais já morreram — foi assim com Santa Teresinha de Lisieux, com São Domingos Sávio, com Santa Bernadette Soubirous, com Santa Gemma Galgani. O único paralelo que conheço na história moderna da Igreja é São Carlos Acutis, em 2025 — outra mãe, viva, vendo o próprio filho ser proclamado santo. Setenta e cinco anos separam as duas cerimônias, e nas duas uma mãe esteve ali para ver.
Quantos de nós ferimos a amizade com Deus por muito menos
E aqui chego ao ponto que mais me incomoda, toda vez que releio essa história.
Santa Maria Goretti desejou o Paraíso para quem a matou. Quantos de nós, hoje, feridos por coisas incomparavelmente mais banais — uma palavra torta, um favor não retribuído, uma indelicadeza de parente —, seguramos rancor durante anos? Quantos de nós rompemos a amizade com Deus por vontade própria, sem faca nenhuma envolvida, e ainda assim achamos difícil perdoar as maiores bobeiras do mundo?
Não escrevo isso de fora. Escrevo suspeito — porque essa é, para mim, no plano pessoal, a maior santa do dia. Não porque a história dela seja mais bonita que outras. Porque foi por ela que eu entrei na Igreja, numa paróquia pequena que talvez ninguém aqui conheça, sob o patrocínio de uma menina que boa parte do mundo também desconhece. E foi ali, naquele tamanho pequeno, que Deus decidiu agir.
É por isso que insisto tanto na vida paroquial. Não é nostalgia de bairro. É que a espiritualidade do leigo comum — a minha, a sua — quase nunca acontece em teoria. Acontece dentro de uma igreja pequena, com padroeira desconhecida, numa missa de semana que ninguém filma. Foi assim que Deus me alcançou. Foi assim que Ele alcançou uma menina pobre e camponesa nos pântanos de Nettuno, e fez dela santa da Igreja inteira.
Santa Maria Goretti, virgem e mártir, rogai por nós.
A ficha completa de Santa Maria Goretti, com a lista de todos os santos comemorados em 6 de julho, está no Martirológio do Hub Católico. E se você quiser conhecer o resto do que o Hub Católico produz — do Todo Santo Dia ao Diário de um Paroquiano de Aldeia — está tudo reunido em hubcatolico.com/links.