Havia um menino em Dardilly, perto de Lyon, que decorava o latim tão devagar que o próprio bispo quase o deixou para trás. Setenta anos depois de morrer, esse mesmo menino seria proclamado, por decreto de um Papa, padroeiro de todos os párocos do mundo. Entre uma coisa e outra está uma vida que a Igreja resolveu chamar de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars — e hoje, 4 de agosto, é o dia em que ela se lembra dele.
O aluno que o latim quase reprovou
João Maria nasceu em 8 de maio de 1786, filho do lavrador Mateus Vianney e de Maria Beluze, um entre cinco irmãos. Criança durante a Revolução Francesa, viu padres fiéis a Roma celebrarem missas clandestinas nos bosques, escondidos da guilhotina que perseguia sotainas; foi ali, entre árvores e medo, que a vocação começou a se formar nele. Fez a primeira comunhão aos treze anos, com um fervor que os que o conheciam descreveram como fora do comum.
E, no entanto, quase não passou.
Aluno lento, sobretudo em latim, esteve perto de ser reprovado nos estudos que o levariam ao altar. Só chegou às ordens porque o pároco Charles Balley, de Écully, insistiu contra todas as evidências acadêmicas de que aquele rapaz tinha vocação — mesmo sem ter talento para os livros. Confirmado em 1807 pelo cardeal Fesch, arcebispo de Lyon, livrou-se do recrutamento militar por doença e vagou de hospital em hospital antes de retomar os estudos. Fez filosofia em Verrières, brilhou no seminário maior de Santo Irineu “só pelas virtudes” — não pelo intelecto — e foi ordenado presbítero em 13 de agosto de 1815, por Dom Simão, bispo de Grenoble, aos vinte e nove anos.
Repare no paradoxo, porque é ele que sustenta a história inteira: o homem que quase não teve inteligência suficiente para o seminário se tornaria, décadas depois, o confessor mais procurado da Europa.
Uma paróquia que ninguém queria salvar
Depois de três anos como vigário em Écully, foi designado, em 1818, para Ars-sur-Formans — paróquia pequena, trinta e cinco quilômetros ao norte de Lyon, na diocese de Belley, religiosamente indiferente e decadente. Em cerca de cinco anos, à custa de jejum, súplica e oração extremos, transformou aquele lugar: acabou o trabalho dominical, acabou a blasfêmia, acabaram a embriaguez e as danças desenfreadas. Em 1820, quando o nomearam cura de Salles, no Beaujolais, o povo de Ars suplicou para que ele ficasse — e ele ficou.
A partir de 1824, abriu uma escola gratuita para meninas e, logo depois, um orfanato ao lado dela. E instalou-se numa rotina que hoje soa quase impossível de sustentar: uma da manhã na igreja para orar; confissões de mulheres antes da aurora; missa às seis ou sete; a manhã inteira no confessionário; catecismo às onze horas, que ficou famoso; visita aos doentes à tarde; vésperas; e de volta ao confessionário até altas horas da noite. A partir de 1845, já não conseguia sozinho — um padre auxiliar, Raimundo, passou a ajudá-lo diante da multidão de peregrinos que chegava a Ars só para se confessar com ele.
Recusou a Cruz da Legião de Honra, em 1852, preferindo guardar o dinheiro para os pobres. Vendeu a murça do canonicato que recebeu em 1850, pelo mesmo motivo. Em 1853, tentou deixar Ars — ele mesmo disse que queria ir “chorar a pobre vida” em algum canto de silêncio —, e o povo o impediu de partir; voltou submisso à vontade de Deus.
O grappin que incendiava a cama
A partir de 1824, por trinta e cinco anos, quase até morrer, São João Maria Vianney relatou ataques que atribuía ao demônio — a quem chamava, com uma ironia que só ele tinha coragem de sustentar, “le grappin”. Fantasmas, balbúrdias, vociferações; a própria cama de madeira incendiada, com marcas ainda visíveis. Ele mesmo entendia o que aquilo significava: incapaz de agarrar o pássaro, o demônio incendiava a gaiola — dando a entender que não tinha poder algum sobre a alma dele.
E os milagres que recebia, ele não os atribuía a si. Atribuía-os à intercessão de Santa Filomena.
Cura: o cuidado de perto
Aqui vale parar num detalhe pequeno que diz mais do que parece. “Cura d’Ars” não é um apelido decorativo. Vem do latim cura animarum, o cuidado das almas — a mesma raiz de onde vem “pároco”, do grego parókhos, aquele que provê, que cuida de perto. Um pároco não é um administrador de sacramentos à distância; é alguém que se aproxima tanto da vida de quem cuida que a distância desaparece.
E é exatamente esse o mecanismo da intercessão dos santos: quando colocamos a nossa vida sobre a vida de um santo, ele está muito mais perto de Nosso Senhor do que nós estamos sozinhos. Quando tentamos colocar a nossa vida direto sobre a vida de Cristo, o traço é tão distante que mal conseguimos alcançar; mas quando colocamos antes a vida de um santo — de um homem que passou dezoito horas por dia carregando o peso das confissões alheias —, o caminho flui melhor. Não porque o santo substitua Cristo. Porque o santo já percorreu o caminho e sabe, com o corpo e com a alma, onde ele aperta.
Talvez você pense: santo é só uma figura do passado, uma lenda piedosa que carrega uma moral bonita no fim da história. Se é isso que você pensa, olhe outra vez para o confessionário de Ars, onde peregrinos vinham de toda a França e de outros países da Europa só para ouvir de um homem simples que Deus ainda os queria. Os santos não são fábulas. Não são histórias com uma moral no fim. São pessoas vivas que estão perto de Deus e que intercedem por nós — o próprio apóstolo Tiago escreveu que “muito pode a súplica insistente do justo” (Tiago 5,16). Se isso vale para o justo que ainda caminha nesta terra, quanto mais para o justo que já está diante da face de Deus.
O que restou depois da morte
São João Maria Vianney morreu em Ars, em 4 de agosto de 1859, aos setenta e três anos. Por quarenta e oito horas ininterruptas, peregrinos e paroquianos desfilaram diante do corpo. Foi declarado venerável em 1872 pelo Beato Pio IX; beatificado em 1905 por São Pio X, que o instituiu então padroeiro do clero da França; e canonizado em 1925 pelo Papa Pio XI. Em 1929, o mesmo Papa Pio XI o proclamou padroeiro celestial de todos os párocos do mundo — não só da França, o mundo inteiro. O corpo, dessecado mas inteiro, descansa em relicário em Ars; o coração é venerado à parte desde a exumação de 1940. Quase um século depois, o Papa Bento XVI ainda o citaria ao abrir o Ano Sacerdotal, em 2009.
O aluno que o latim quase reprovou tornou-se o padroeiro de cada padre de paróquia que hoje, num canto qualquer do mundo, também luta para tirar uma comunidade da indiferença.
Assista ao Todo Santo Dia de hoje sobre São João Maria Vianney, e leia a ficha completa dele — com todos os santos comemorados neste 4 de agosto — no Martirológio do Hub Católico.
E se a intercessão dos santos é o que sustenta a nossa caminhada até Cristo, a comunidade é o que sustenta o nosso trabalho de contar essas histórias: hoje é o dia de lançamento do Hub Unum, o ponto de encontro de quem acompanha o Hub Católico, e do HUB+, o clube de assinatura que reúne os produtos do Hub num só lugar. Vale a pena conhecer os dois.
São João Maria Vianney, padroeiro de todos os párocos, rogai por nós.