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O BISPO QUE ESCREVEU CONTRA MARCIÃO

S. Theophilus Antiochenus, gravura atribuída a William Cave (1677) — Wikimedia Commons (domínio público). Representação artística; não é retrato do santo.

Hoje, 13 de outubro, o Martirológio Romano manda lembrar um bispo do século II de quem restam três fatos e uma confusão.

Das fontes que tenho em mãos, nenhuma registra data de nascimento, martírio, milagre ou cena de conversão. Também não registram o título do livro que ele escreveu, nem uma só linha de seu conteúdo. A fonte é curta, caro leitor, e eu prefiro dizer isso a preencher o vazio com enfeite.

O que Roma afirma

O elogio do Martirológio Romano de 2004 diz que São Teófilo foi bispo de Antioquia, na atual Turquia, “homem de exímia cultura”, que ocupou aquela sede “como sexto sucessor de São Pedro” e “escreveu um livro para defender a verdadeira fé contra o herege Marcião”. Rohrbacher, nas Vidas dos Santos, confirma a sucessão: foi o sexto a ocupar a sede de Antioquia depois de São Pedro, apóstolo, e faleceu depois do ano 180.

Três fatos: a cadeira, a cultura, o livro. Cada um carrega peso.

A cadeira vem de longe. São Teófilo ocupou a sede de Antioquia como sexto depois de São Pedro: entre ele e o Apóstolo, a lista conta cinco nomes.

A cultura a serviço da fé

O latim do elogio diz viri summae eruditionis, homem de suma erudição. A palavra eruditus vem de e- e rudis: aquele que foi tirado da rudeza. O Martirológio guardou essa qualidade como a primeira coisa a dizer dele, antes mesmo do livro.

E o livro tem um propósito declarado: ad orthodoxam fidem tuendam, para guardar a fé reta. O verbo tueri diz vigiar, proteger, montar guarda. O elogio fala de Marcião apenas como herege; o que ele ensinava, as fontes que tenho não dizem, e eu não vou inventar. Basta o essencial: houve um erro contra a fé, e um bispo culto respondeu por escrito.

Você pode objetar, e é boa objeção: “Se a fonte diz tão pouco, para que um artigo?” Porque o pouco que ela diz é inteiro. Um homem estudou, e pôs o estudo a serviço da verdade; ocupou a sede de São Pedro em Antioquia, e escreveu quando a fé precisou de defesa. Cultura sem a fé vira vaidade; fé sem cultura, num bispo, deixa o rebanho sem arma. São Teófilo reuniu as duas coisas.

O nome emprestado

Resta a confusão. Rohrbacher conta, a propósito de uma discussão sobre as três Marias, que críticos citavam em favor de sua tese uma passagem atribuída a “São Teófilo de Antioquia, que vivia no segundo século”. Rohrbacher mostra que a passagem não é dele. Pertence a Teofilacto, escritor do Baixo Império, do século XI, e o historiador chama o engano de “um pouco forte”.

Cerca de nove séculos separam os dois autores, e o nome do primeiro foi usado para dar autoridade às palavras do segundo. Só se empresta o nome de quem tem crédito. A atribuição errada sugere que o nome de São Teófilo pesava.

E você, o que defende?

São Teófilo deixou uma pergunta para a sua semana. Quando alguém ao seu lado ensina um erro sobre a fé, no almoço de domingo, no grupo da paróquia, na tela do celular, você sabe responder? Ou se cala porque nunca estudou o bastante para falar?

A defesa da fé pede estudo; pede também a humildade de verificar a fonte antes de repetir a frase bonita, como o próprio Rohrbacher fez com a passagem emprestada. Quem estuda guarda; quem não estuda repete.

Meu irmão, escolha um ponto da fé que você hoje explicaria mal e estude-o até saber dizê-lo em duas frases. Depois diga a alguém. Conhecer as festas do dia ajuda no caminho, e o Martirológio de 13 de outubro está aberto para isso.

São Teófilo, bispo de Antioquia, que escrevestes para defender a verdadeira fé, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico