Hoje a Igreja celebra juntos dois homens que nunca se conheceram pessoalmente. Os Santos Cornélio e Cipriano, um papa de Roma, o outro bispo de Cartago, morreram com poucos anos de diferença, num extremo a outro do Mediterrâneo, e a Igreja decidiu, desde muito cedo, que a memória dos dois seria uma só. A festa cai em 16 de setembro porque São Cipriano morreu a 14, e o dia 14 já pertence à Exaltação da Santa Cruz. Mas não é só um problema de calendário lotado. É que a história desses dois homens só se entende inteira quando contada junto, e é uma história que ainda está acontecendo, só que com outros nomes, dentro da tua paróquia.
Um retor que se converteu tarde demais para não perceber o preço da fé
São Cipriano nasceu em Cartago, ainda pagão, numa família de boa posição (hoje diríamos “bem resolvida”). Foi retor, o que no século III equivalia a ser advogado de renome: eloquente, culto, com uma carreira já feita quando, por volta de 245, se converteu adulto ao cristianismo. Não foi uma conversão de infância nem de sentimento; foi de estudo, de convicção formada tarde. E poucos anos depois, três, talvez quatro, Cartago o elegeu bispo. Um homem que chegou à fé pela inteligência acabou, quase da noite para o dia, tendo que governar uma Igreja sob perseguição.
Porque foi exatamente nesse momento que o imperador Décio decretou a primeira perseguição sistemática do Império Romano: todo cidadão devia se apresentar perante um magistrado e sacrificar aos deuses, o imperador incluído. Daí nasceram três categorias de fiéis, que vale a pena separar bem: os mártires, que morreram recusando; os confessores, que também recusaram e foram torturados, mas o Estado, por algum motivo, não levou a pena até o fim; e os lapsi: os batizados que, para sobreviver, apostataram.
E foi sobre os lapsi que se abriu a ferida. Eles podiam voltar? A Igreja podia reconciliar quem havia negado a Cristo diante do algoz? São Cipriano, em sua diocese, chega a uma resposta que hoje nos parece óbvia, mas que na hora não era: sim, podem voltar, mas não de graça, e não sem uma penitência verdadeira. Não é castigo pelo castigo. É o mesmo raciocínio, ele mesmo notava, que sustenta o purgatório: o pecador precisa ser revestido de novo antes de poder estar perto de Deus outra vez.
Um antipapa, um papa, e a distância de um mar inteiro
Enquanto isso, em Roma, a mesma pergunta rachava a Igreja de outro jeito. O papa São Fabiano tinha morrido mártir em janeiro de 250, e só um ano depois, com a perseguição ainda mordendo, Roma conseguiu eleger seu sucessor: São Cornélio. Mas um presbítero culto, Novaciano, discordava da posição moderada e se deixava consagrar bispo por um pequeno grupo de italianos, tornando-se, com toda a prudência que o assunto exige, porque a Igreja daquele tempo ainda não tinha essa palavra pronta, um dos primeiros antipapas da história. Novaciano defendia o extremo oposto de São Cipriano: os lapsi jamais poderiam voltar. Nunca. Estavam perdidos.
O que eu acho mais bonito nessa história, e que quase ninguém conta, é que São Cipriano não reconheceu São Cornélio de imediato. Cartago está a um mar de distância de Roma; as notícias chegavam devagar, incompletas, boca a boca através do Mediterrâneo. Então ele esperou. Buscou entender o que de fato havia acontecido antes de tomar partido. Só depois de checar reconheceu São Cornélio como o legítimo bispo de Roma e, a partir daí, tornou-se um dos seus maiores defensores contra o cisma. Reconhecer autoridade não é ingenuidade. É, primeiro, verificar; depois, quando a legitimidade está clara, defender sem meio-termo.
Foi dessa aliança, o bispo teólogo de Cartago sustentando o papa recém-eleito de Roma, que nasceu a frase mais célebre de São Cipriano, escrita bem no meio da crise, no tratado Sobre a unidade da Igreja Católica: “Habere non potest Deum patrem qui ecclesiam non habet matrem” — não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe. E, no mesmo tratado, a formulação que dá nome a este texto: “Episcopatus unus est” — o episcopado é um só.
O episcopado é um só
Repare que São Cipriano não disse isso como quem descreve uma organização. Disse como quem descreve um corpo. Ainda que hoje existam bispos que dizem uma coisa e fazem outra, problemas grandes e pequenos dentro da Igreja (e sempre existiram, desde o século III), a Igreja continua sendo una. Os problemas se combatem por dentro. A Igreja nunca racha, porque quem racha a Igreja não é mais a Igreja, é outra coisa vestida com as suas roupas. A divisão é sempre plantada; é sempre o mesmo espírito que tenta convencer alguém de que, dessa vez, a exceção se justifica.
E é aqui que a história de dois bispos do século III para de ser história.
Porque eu vejo, com uma frequência que me preocupa, duas versões modernas da mesma tentação de Novaciano. A primeira é a mais fácil de nomear: o sedevacantismo, o “a Igreja acabou”, “isto aqui não é mais a Igreja Católica”, como se fosse possível acreditar que a comunidade paroquial deixou de ser caminho de santidade e, ao mesmo tempo, seguir acreditando que a Igreja Católica ainda é a Igreja Católica. É logicamente impossível. Se a paróquia não serve mais, a Igreja acabou; e se a Igreja não acabou, a paróquia continua sendo o caminho, com todos os seus párocos cansados, suas comissões desorganizadas, seus problemas reais. São Cipriano já respondia a isso no século III: ninguém pode, só porque considera a disciplina atual da Igreja frouxa demais ou rigorosa demais, constituir uma igreja paralela.
A segunda versão é mais discreta, e por isso mais perigosa: o catolicismo a distância. Vejo cada vez mais gente convertida, cheia de fé, de leitura, de vontade, mas que não quer se misturar com a comunidade real da sua paróquia. Está disposta a dar dinheiro. Não está disposta a dar tempo. Doa, mas não entra. Sustenta à distância uma Igreja que se recusa a viver de perto. E isso, goste-se ou não, é a mesma lógica do cisma: decidir por conta própria que dá pra ter Deus por pai sem, de fato, viver dentro da casa da Igreja mãe, só visitá-la de vez em quando, pela janela.
Dois homens que morreram por uma Igreja que se pudesse tocar
São Cornélio morreu exilado, provavelmente em 252 ou 253, longe de Roma, depois de menos de um ano e meio como papa. São Cipriano foi decapitado em Cartago em 14 de setembro de 258, diante do procônsul romano, recusando-se, até o fim, a negar a fé. Diante da sentença, dizem que sua última palavra foi Deo gratias — graças a Deus. A multidão que assistiu recolheu suas vestes ensanguentadas como relíquias, ali mesmo, na hora.
Nenhum dos dois morreu por uma ideia abstrata de Igreja. Morreram por uma Igreja concreta, local, com endereço: a de Roma, a de Cartago, com todas as suas crises, seus cismas internos e seus bispos discutindo cartas atravessando o mar. É essa Igreja, e nenhuma outra, que eles defenderam com a própria cabeça. Vale a pena te perguntar, hoje, qual Igreja tu estás disposto a defender: a que existe de verdade, na tua paróquia, com nome e horário de missa, ou uma que só existe na tua cabeça, pura demais para precisar de ti.
Santos Cornélio e Cipriano, rogai por nós.