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QUEM DEU AUTORIDADE A UM ANALFABETO?

José Montes de Oca (atribuído), escultura de São Benedito, o Mouro, c. 1734 — National Gallery of Art, exposição Afro-Atlantic Histories (2022) — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 1578, os frades do convento de Santa Maria de Jesus, perto de Palermo, reuniram-se para eleger o novo guardião — o superior da casa. Escolheram um irmão leigo que nunca tinha aprendido a ler nem a escrever uma única letra. Filho de pais escravizados, cozinheiro do convento há anos, sem ordenação sacerdotal, sem escola, sem latim. E foi esse homem que os teólogos formados daquela casa passaram a consultar. Esse homem é São Benedito, o Mouro, e sua memória própria cai hoje, 5 de outubro, no Brasil.

Um homem livre que nasceu escravo

São Benedito, o Mouro, nasceu por volta de 1526 — a data exata se perdeu, as fontes variam em dois anos, e não é isso que importa aqui — na aldeia de São Filadelfo, hoje San Fratello, diocese de Messina, na Sicília. Era filho de pais africanos escravizados, de origem etíope, cristãos piedosos. O senhor a quem eles pertenciam havia prometido libertar o primeiro filho que nascesse do casal, e cumpriu: São Benedito nasceu livre num tempo em que isso era raríssimo. Cresceu pastoreando rebanhos, depois lavrando a terra. Até os vinte e um anos, nunca segurou um livro. Caro leitor, guarda esse detalhe: ele nunca precisaria de um.

O lavrador que vendeu os bois

Em 1547, um eremita chamado Jerônimo Lanza o convidou: vende teus bois, e vem para o meu eremitério. São Benedito não hesitou um instante. Vendeu os bois, distribuiu o dinheiro entre os pobres e passou a viver como eremita, seguindo a Regra de São Francisco de Assis, nos montes perto de Palermo. Trocou a lavoura pela oração, sem saber que o trabalho verdadeiro da sua vida ainda nem tinha começado.

Da ermida para a cozinha

Quando o Papa Pio IV revogou a autorização que permitia comunidades soltas de eremitas, São Benedito e seus companheiros tiveram de se recolher a um convento regular. Ele ingressou como irmão leigo na Ordem dos Frades Menores, no convento de Santa Maria de Jesus, e foi destinado à cozinha. Foi exatamente ali, entre panelas, que a fama de santidade dele cresceu: contam que peixes apareciam multiplicados em dia de escassez; que a mesa aparecia posta sem que ele tivesse cozinhado nada. Milagres pequenos, domésticos, do tamanho exato da obediência dele. Nenhum deles aconteceu num púlpito.

O analfabeto que passou a governar

Você deve estar pensando que um leigo analfabeto, filho de escravos, não tinha nenhuma autoridade para governar coisa alguma — e muito menos para ensinar teologia a quem tinha passado a vida inteira dentro dos livros. Pense de novo.

Em 1578, São Benedito, o Mouro, foi eleito guardião do convento de Santa Maria de Jesus. Não tinha escola; não tinha latim; não tinha um único diploma — e ainda assim ensinava teologia aos novíços, e teólogos formados o consultavam. Depois do mandato, voltou de bom grado para a cozinha e foi nomeado mestre de novíços. Não ficou agarrado ao posto: voltou à cozinha com o mesmo desapego com que tinha aceitado governar.

São Paulo escreveu aos coríntios que Deus escolheu o que no mundo é louco para confundir os sábios, e o que é fraco para confundir os fortes (1 Coríntios 1, 27). Humildade: do latim humilitas, de humus, terra — ficar rente ao chão. Foi exatamente dali, do chão mais baixo que a sociedade da época podia imaginar para um homem, que a Providência ergueu um governante de almas.

A hora marcada

São Benedito, o Mouro, teve fama de profecia e de cura ainda em vida. Morreu no convento de Santa Maria de Jesus, em Palermo, em 4 de abril de 1589, aos 63 anos, depois de predizer o próprio dia e a própria hora da morte. Seu culto foi reconhecido pelo Papa Benedito XIV em 1743; foi canonizado pelo Papa Pio VII em 1807.

Um ponto precisa ficar claro, sem margem de confusão: São Benedito, o Mouro, não tem nenhuma relação com São Bento de Núrsia, o fundador dos beneditinos, que viveu mil anos antes dele, em outro século, noutra história. São dois santos completamente diferentes. A própria tradição criou nomes distintos — “Benedito” para um, “Bento” para o outro — justamente para que ninguém os confundisse.

Por que o Brasil reza por ele em outubro

No Martirológio Romano universal, São Benedito, o Mouro, é comemorado em 4 de abril, dia da sua morte, sob o nome de São Bento Massarári, o Negro — o mesmo santo, outro registro de nome. Mas 4 de abril cai quase sempre dentro da Quaresma ou da semana da Páscoa, tempo litúrgico que não comporta festas de santos. Por isso, em 1983, a Santa Sé concedeu à CNBB a deferência de transferir sua memória para 5 de outubro, só no Brasil. É por isso que hoje, aqui, celebramos quem a Igreja universal celebra em abril.

E há um motivo mais profundo para essa devoção ter raiz tão funda em solo brasileiro. No Brasil colonial e imperial, homens e mulheres escravizados e libertos fundaram e sustentaram, por quase três séculos, irmandades leigas dedicadas a ele — como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Um santo filho de escravos, elevado a copadroeiro de Palermo em 1712 e padroeiro dos cozinheiros, tornou-se espelho de dignidade para gente a quem o mundo negava toda dignidade.

Pede a ele o que ninguém te daria

São Benedito, o Mouro, passou a vida inteira fazendo o que lhe pediam, não o que escolhia. Pastor, lavrador, eremita, cozinheiro, guardião, mestre de novíços — nunca foi ele quem decidiu o próprio currículo. A obediência decidiu por ele, e foi exatamente aí que a santidade coube inteira.

Hoje, antes de reclamar da tarefa pequena que te calhou (a reunião sem graça, a cozinha de casa, o posto que ninguém disputa), lembra de São Benedito, o Mouro. Pede a ele a graça de servir sem precisar ser visto. É dali, do lugar mais baixo, que ele governou. São Benedito, o Mouro, ensina com a vida o que nenhum diploma ensina: que a autoridade que vem de Deus não precisa de escola para ser reconhecida — precisa só de obediência para ser recebida.


Se quiser conhecer mais sobre a vida de São Benedito, o Mouro, o verbete completo está no Martirológio do Hub. São Benedito, o Mouro, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico