Hoje, 14 de junho, a Igreja nos apresenta um santo que a maioria dos católicos nunca parou para conhecer de verdade — não porque seja obscuro, mas porque mora num território que nós, leigos, costumamos deixar de lado: o Antigo Testamento.
O destaque do dia não é um mártir dos primeiros séculos, nem um bispo medieval. É um profeta. É Santo Eliseu — o discípulo do grande profeta Santo Elias, o homem que herdou o manto de fogo e pediu uma porção dobrada do espírito do mestre.
E quando tu conheces a vida dele, entendes por que a Igreja nunca o esqueceu.
O começo de um profeta que não se escolheu
Para entender Santo Eliseu, precisas voltar fundo — ao Reino de Israel, por volta de nove séculos antes de Cristo. É um tempo de idolatria generalizada: o povo do norte adora Baal, os reis viraram as costas a Deus. É nesse cenário que Deus levanta os grandes profetas para chamar o povo de volta. O maior deles era Santo Elias — o homem que fez descer fogo do céu, que enfrentou sozinho os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, e que é um dos pouquíssimos personagens da Bíblia que não passam pela morte: ele foi arrebatado ao céu num carro de fogo.
E é justo antes desse arrebatamento que entra Santo Eliseu.
Ele não se elegeu. Não chegou até Santo Elias com um currículo ou um projeto de vida religiosa. Foi Deus quem disse ao profeta: vai ungir Santo Eliseu como teu sucessor. Santo Elias o encontra arando a terra — no meio do trabalho, gente comum, sem nenhum sinal exterior de predestinação. O gesto é simples: Santo Elias joga o manto sobre os ombros do rapaz. Era o sinal de chamado. E Santo Eliseu larga tudo — sacrifica os próprios bois com que arava, despede-se dos pais, e parte.
A história começa exatamente como começa a história de um apóstolo. Deixa o arado, vem e segue-me.
O manto que cai, o espírito que dobra
A cena mais marcante da vida de Santo Eliseu está na hora em que Santo Elias deve deixar a terra. Os dois atravessam juntos o caminho — de Galgala a Betel, de Betel a Jericó, do Jordão — e em cada etapa Santo Elias tenta deixar o discípulo para trás. Em cada etapa Santo Eliseu recusa: viva o Senhor e viva a tua alma, que não te deixarei.
Na margem do Jordão, Santo Elias pergunta ao discípulo o que deseja antes de partir. Santo Eliseu pede uma coisa ousada: uma porção dobrada do espírito de Santo Elias. Não pede um cargo, não pede prestígio. Pede mais do espírito de Deus que havia sobre o mestre.
E aí acontece a cena que a tradição cristã nunca esqueceu: o carro de fogo, o turbilhão, Santo Elias subindo. O manto cai. E Santo Eliseu, lá embaixo, recolhe aquele manto.
A primeira coisa que ele faz é bater com o manto nas águas do Jordão. As águas se abrem — assim como tinham se aberto para Santo Elias. Era o sinal: o espírito de Deus havia descido sobre ele. A missão agora é sua.
Milagres de misericórdia
Daí em diante, a vida de Santo Eliseu é marcada por uma sucessão extraordinária de milagres. Mas repara no padrão: quase todos são milagres de misericórdia, feitos para socorrer gente pequena, gente em desespero.
Tem a viúva endividada que estava prestes a perder os dois filhos para a escravidão por causa de uma dívida. Santo Eliseu manda que ela junte todos os vasos vazios que conseguir. Com o pouco de azeite que ela tinha, os vasos vão se enchendo um a um — até que ela tem tudo que precisa para pagar o que deve. O azeite só para quando acabam os vasos.
Tem a mulher de Suném que não tinha filhos: Santo Eliseu profetiza que ela vai ter um filho, e ela tem. E quando esse menino morre, anos depois, o profeta se debruça sobre o corpo — boca sobre boca, olho sobre olho, mão sobre mão — e o menino volta à vida.
E tem o milagre que talvez seja o mais bonito de todos para o que estamos falando aqui. Naamã — general do exército da Síria, um estrangeiro, um inimigo de Israel — tinha lepra. E foi procurar o profeta de Israel. Santo Eliseu nem saiu para recebê-lo: mandou dizer que fosse banhar-se sete vezes no rio Jordão. Naamã ficou ofendido. Achou pouco. Quase foi embora. Mas acabou obedecendo — e saiu da água com a pele de uma criança, completamente curado.
Um estrangeiro. Um inimigo. Curado pela fé num gesto humilde de obediência.
O que a Igreja vê em Santo Eliseu
É aqui que mora o coração de tudo. O Martirológio Romano — o documento oficial da Igreja que lista os santos a serem lembrados em cada dia — diz de Santo Eliseu uma coisa preciosa. Cito:
“Embora não tenha deixado oráculos escritos, pelos milagres que fez em favor dos estrangeiros anunciou a salvação que havia de vir para todos os homens.”
Tu percebes o que está sendo dito? A multiplicação do azeite, a ressurreição do menino, a cura do general sírio — tudo isso são sombras, prefigurações do que Cristo viria fazer plenamente. Nosso Senhor também multiplicou o pão. Também ressuscitou mortos. Também curou e salvou estrangeiros. Também passou pelas águas do Jordão.
Santo Eliseu, séculos antes do nascimento de Cristo, já estava apontando para frente. Já estava preparando o olhar de Israel — e da humanidade inteira — para receber o que havia de vir.
É por isso que a Igreja venera os grandes profetas do Antigo Testamento como santos. Não por acidente, não por tradição sentimental. Mas porque eles foram os primeiros a anunciar Cristo, antes mesmo de Ele nascer. Eles não deixaram apenas profecias escritas: deixaram vidas que eram, elas próprias, uma profecia encarnada.
Nós católicos esquecemos muito de estudar o Antigo Testamento. Os leigos de nosso tempo, ao menos. A Igreja não esquece — temos teólogos, exegetas, Santos Padres que trabalharam sobre isso por séculos. Mas nós, fiéis do cotidiano, costumamos deixar essa riqueza de lado.
Santo Eliseu é um convite para voltar.
Os demais santos do dia 14 de junho
O dia 14 de junho não pertence só a Santo Eliseu. O Martirológio Romano nos traz ainda sete outros:
São Proto, mártir em Aquileia, no Friul, Itália — sem data certa, possivelmente muito próximo do tempo apostólico.
Santos Valério e Rufino, mártires em Soissons, na Gália Bélgica, no século IV.
São Fortunato, bispo de Nápoles, na Campânia, Itália — também no século IV.
Santo Etério, bispo em Vienne, na Borgonha, no século VII. Sempre que bispos aparecem aqui, vale lembrar: pede que eles intercedam pelo teu bispo diocesano.
São Metódio de Constantinopla, bispo — morreu em 847. Sendo ainda monge, foi a Roma para defender junto do Papa Pascoal I o culto das sagradas imagens — isso no tempo do iconoclasmo, quando a heresia que negava as imagens sacras ameaçava a fé do Oriente. Depois de ser feito bispo de Constantinopla, o coração mesmo daquela crise, São Metódio celebrou solenemente o triunfo da verdadeira fé: o fim da heresia iconoclasta.
Santos Anastásio, Félix e Digna, mártires em Córdova, no ano 853. Morreram todos no mesmo dia e do mesmo modo: Santo Anastásio, presbítero, professou a fé diante dos juízes mouros e foi passado à espada; junto com ele morreu São Félix, monge vindo da África; e Santa Digna, virgem ainda jovem, que repreendeu corajosamente o juiz pela morte dos dois — e foi imediatamente degolada. A coragem de Santa Digna tem algo que não sai da memória.
E por fim — muito próximo do nosso tempo — a Beata Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica. Brasileira, de Baependi, Minas Gerais. Filha e neta de escravos. Ficou órfã aos dez anos. E dedicou toda a sua vida humilde à oração e ao serviço dos mais necessitados. Morreu em 1895 — nos anos turbulentos do fim da escravidão e início da República, no meio do abandono das famílias negras, num Minas Gerais catolicíssimo. A santidade não escolhe berço.
O Martirológio completo do dia — com todos os santos e beatos, em ordem e com seus elogios — está em hubcatolico.com/martirologio/06-14. E se quiseres conhecer mais sobre Santo Eliseu, a ficha hagiográfica dele está disponível em hubcatolico.com/martirologio/santo/eliseu/.
Sobre este dia e sobre Santo Eliseu, o Thiago também gravou o episódio do Todo Santo Dia — o vídeo diário do Hub Católico que apresenta todos os santos do dia em profundidade. Encontra no canal @hubcatolico no YouTube.
Me conta nos comentários: tu já conhecias a história de Santo Eliseu? Qual destes milagres te tocou mais?
Santo Eliseu, rogai por nós.