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OS PRIMEIROS ESPECTADORES DA PRÓPRIA VIDA

Caravaggio, "Supper at Emmaus" (1601) — The National Gallery, Londres · Wikimedia Commons (domínio público)

Hoje, 25 de setembro, a Igreja recorda São Cléofas, discípulo do Senhor. E é bem provável, caro leitor, que já conheças essa história sem nunca teres ouvido esse nome. Os dois discípulos que caminhavam para Emaús na tarde da Ressurreição, aquele episódio em que Cristo se junta a eles disfarçado de peregrino comum e só é reconhecido à mesa, na fração do pão — essa história todo católico conhece de cor. O que quase nenhum católico sabe é que um dos dois tem nome. E tem festa. E tem uma lição que, no fundo, não é sobre o século I; é sobre nós.

O único que fala

São Lucas é preciso onde poderia ter sido genérico. No versículo 18 do capítulo 24, um dos dois discípulos responde à pergunta do caminhante desconhecido — “que aconteceu recentemente em Jerusalém?” — e o Evangelho registra o nome: São Cléofas. É o único, entre os dois de Emaús, que sai do anonimato. Pela nomenclatura empregada — “discípulo”, não “apóstolo” — trata-se de um discípulo comum, dos muitos que seguiram Nosso Senhor sem estar entre os Doze nomeados apóstolos.

E o que ele responde é, de certo modo, um pequeno credo em construção: fala de Jesus de Nazaré, “profeta poderoso em obras e em palavras”; fala de como os chefes o entregaram à morte; fala da esperança que tinham — “esperávamos que fosse ele quem haveria de redimir Israel” —, e fala, por fim, das mulheres que encontraram o sepulcro vazio, sem terem visto o próprio Ressuscitado.

Repara bem no que São Cléofas está fazendo. Está narrando os fatos. E os fatos, todos, estão certos.

Todos os dados, nenhuma inteligência

Aqui está o coração da história — e o motivo por que ela nos interessa dois mil anos depois.

São Cléofas tinha todos os dados da fé pascal. E não conseguia organizá-los.

Sabia da pregação de Cristo. Sabia da condenação. Sabia da morte. Sabia, até, do túmulo vazio. Tinha, literalmente, todas as informações que qualquer cristão de hoje teria para crer na Ressurreição. E, ainda assim, ia por aquele caminho cabisbaixo, entristecido, tentando entender como aquela fé que tivera se encaixava com um profeta que morrera sem redimir ninguém. Era só mais um dos muitos que haviam morrido? É a pergunta que todo discípulo médio daquele momento carregava sem conseguir responder — e São Cléofas é exatamente isso: o retrato do discípulo médio.

Eu sei o que estás pensando: ele tinha os fatos, bastava juntá-los. Pois é exatamente aí que mora o erro que cometemos com frequência. O intelecto, sozinho, não organiza a fé; apenas acumula dados. São Cléofas possuía os fatos verídicos da Páscoa e não possuía a inteligência de ligar as coisas — porque essa inteligência não é meramente intelectual, é exegética; e a inteligência exegética só a fé e a graça concedem.

Não se reconhece o que não se conhece

Por isso Cristo, ao se juntar a eles no caminho, não lhes abre logo os olhos com um milagre; explica. “Começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.” É a catequese de um Deus que prefere ensinar a impor: Cristo lendo o Antigo Testamento e mostrando, prefiguração por prefiguração, profecia por profecia, que tudo aquilo já estava escrito — o osso que não se quebra, o manto que não se rasga.

E, no entanto, os dois discípulos caminham a tarde toda ao lado do próprio Cristo ressuscitado sem o reconhecer. Não porque Ele estivesse irreconhecível; mas porque não é possível reconhecer aquilo que ainda não se conhece. São Cléofas tinha visto Jesus de Nazaré. Ainda não conhecia, porém, o Cristo.

A fração do pão

Chegando perto de Emaús, os dois discípulos constrangem o caminhante a ficar: “fica conosco, Senhor, hoje é tarde, o dia declina.” E é à mesa, não no caminho, que tudo se resolve: “tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu, e deu-lhes; então seus olhos se abriram e o reconheceram.”

Repara na estrutura: é a mesma estrutura de oração que a Igreja celebra ainda hoje em cada Missa — a Palavra explicada no caminho, o pão partido à mesa. São Cléofas reconhece o Senhor não pelo raciocínio que Cristo lhe ensinara ao longo de sessenta estádios, mas na fração do pão. E, no instante mesmo em que o reconhece, Cristo desaparece de sua vista. Mas o pão que fora partido permanece.

São Cléofas e o outro discípulo levantam-se na mesma hora e voltam a Jerusalém para contar aos Onze. E é justo aqui que se pode dizer, com toda propriedade, que São Cléofas é o primeiro discípulo catequizado pelo Senhor ressuscitado — o primeiro a ouvir do próprio Cristo a explicação da própria Paixão e da própria Ressurreição.

Os primeiros espectadores da própria vida

Aí está, para mim, a lição que São Cléofas nos deixa hoje.

Nós somos os primeiros espectadores das nossas vidas. Mas a gente não liga os pontos.

São Cléofas não era ateu; não era incrédulo hostil; não negava o Senhor. Era, apenas, um discípulo deixando o fogo se apagar — alguém que tinha a informação e não tinha a inteligência de fé para organizá-la. Ora, quantas vezes não somos exatamente isso? Sabemos os fatos da própria vida — cada encruzilhada, cada cruz, cada momento em que julgamos ter perdido tudo — e não conseguimos ler neles a mão da Providência. Passamos pelas Escrituras da própria existência sem reconhecer, ao longo do caminho, Quem caminhava ao nosso lado.

A prática que São Cléofas nos ensina, sem saber que ensinava, é parar com frequência e olhar para trás; narrar a própria vida como quem lê um Evangelho; perguntar-se se aquela encruzilhada que pareceu horrível, difícil, uma cruz, não foi exatamente o caminho que Deus usou para te conduzir a Emaús — ao encontro, à mesa, à fração do pão.

Assim como São Cléofas, tu tens hoje todos os dados. Falta apenas deixar que Cristo se sente à mesa contigo e explique.

Assista à live completa do Todo Santo Dia sobre São Cléofas: https://www.youtube.com/watch?v=Kw60-_3gf5s. São Cléofas, discípulo do Senhor, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico