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DEUS NÃO ESCOLHE OS MELHORES ALUNOS

Gravura anônima após F. A. Lorenzini, "Beatus Ioseph a Cupertino" (dedicada ao Papa Bento XIV, séc. XVIII) — Wellcome Collection · Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Hoje, 18 de setembro, a Igreja celebra São José de Cupertino. E se você fosse escolher, entre todos os meninos pobres de uma pequena cidade da Apúlia, no início do século XVII, qual deles um dia seria chamado por um Papa de um dos maiores místicos que a Igreja teve, você não escolheria ele.

Ele não sabia estudar. Não conseguia se concentrar. Os mestres o tinham por incapaz — e não havia, naquele tempo, palavra nenhuma pra nomear o que hoje, arrisco dizer sem diagnóstico algum além do bom senso, chamaríamos de alguma espécie de déficit de atenção. Havia só o veredito seco de quem media inteligência pela capacidade de decorar: o menino não aprende.

Foi exatamente esse menino que a Providência escolheu.

O rapaz que ninguém queria

Nasceu José Desa, cognominado “de Cupertino” pelo lugar de nascimento, em 17 de junho de 1603 — Cupertino, pequena cidade da diocese de Nardò, entre Brindisi e Otranto, na Apúlia, sul da Itália —, filho de uma família camponesa pobre. Nada nele anunciava grandeza.

Aos dezessete anos, São José de Cupertino pediu para entrar entre os Franciscanos Conventuais, ordem à qual pertenciam dois de seus tios; foi recusado, porque não tinha estudado o bastante nem pra começar. Tentou então entre os Capuchinhos, como irmão converso; oito meses de noviciado depois, dispensaram-no — incapaz, disseram, de corresponder à própria vocação.

Repara bem nisso, porque é fácil passar batido: duas ordens religiosas, em sequência, olharam pra ele e decidiram que não servia. Não uma. Duas.

Foram por fim os Conventuais que o receberam, no convento della Grottella, perto de Cupertino. E o receberam não para o estudo — para o trabalho braçal. Cuidar das mulas, da cozinha, da horta. Cumpria essas tarefas com uma austeridade que espantava: dormia três horas por noite. Ali, entre o esterco das mulas e as verduras da horta, ninguém em sã consciência apostaria numa vocação sacerdotal.

O único versículo que ele sabia

Em 1625, um capítulo geral reunido em Altamura decidiu — contra toda evidência de que o rapaz não tinha cabeça para isso — recebê-lo entre os religiosos de coro, para se preparar às ordens sacras. Foi uma aposta contra o próprio bom senso.

E o bom senso quase venceu. Chegado o exame do diaconato, São José de Cupertino sabia comentar de cor exatamente um único versículo de toda a Escritura. Um só, entre toda a Bíblia. Os candidatos eram arguidos por sorteio; cada um recebia uma passagem ao acaso, e sobre ela precisava discorrer diante dos examinadores.

Sorteou o dele.

Foi chamado a comentar Lucas 11,27: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram.” A única passagem que sabia de cor, entre todas as que poderiam ter caído, foi a que caiu.

Eu sei o que você está pensando, porque é a primeira coisa que qualquer um pensa: coincidência. Pode ter sido. Mas espera o exame seguinte, porque a Providência raramente bate uma vez só. No exame do presbiterato, o bispo ouviu os colegas de turma responderem bem às perguntas — e, satisfeito com o desempenho da turma inteira, dispensou São José de Cupertino do teste individual. Aprovou todos, sem arguir o único que, por mérito próprio, jamais passaria.

Não foi o talento dele que o levou ao altar. Foi a Providência trabalhando exatamente onde o mérito faltava.

Ordenado sacerdote em 1628, aos vinte e cinco anos.

O santo que voava para se esconder

E aqui está o ápice de tudo. Porque o padre — o menino que ninguém queria, o noviço dispensado duas vezes, o seminarista que só sabia um versículo — começou a ter êxtases místicos. Frequentes. Arrebatadores. Incluindo levitação: mais de setenta episódios testemunhados por fontes diversas, documentados no próprio processo de canonização. Erguia-se do chão em pleno altar, diante de quem estivesse ali — noviços, peregrinos, príncipes.

E aqui mora o paradoxo: o santo que era elevado por Deus em seus êxtases buscava se esconder sempre que podia. Não pedia a plateia. Não cultivava o milagre. A graça o levantava do chão contra a própria vontade dele — e ele, no instante seguinte, fugia de quem tinha acabado de ver.

Isso importa, porque a tentação óbvia é imaginar um místico assim como alguém que buscava o espetáculo. Não há um fiapo disso na vida de São José de Cupertino. Foi investigado, ao longo de anos, pela própria Igreja — inclusive pela Inquisição de Nápoles. Restringido. Transferido de convento em convento por superiores desconfiados. Proibido, por períodos, de celebrar em público. Ninguém jamais concluiu fraude, heresia ou abuso — mas a desconfiança dos homens de dentro da própria Ordem o perseguiu a vida inteira.

Trezentos anos depois, o mesmo padrão se repetiria quase igual na vida de São Pio de Pietrelcina: um místico real, restringido por superiores reais, exatamente pelo peso incômodo que a santidade autêntica costuma carregar. A Igreja desconfia dos seus próprios santos vivos. Depois os canoniza.

O príncipe que se converteu vendo

Mesmo com a reclusão que os superiores lhe impunham, a vida de São José de Cupertino tocou gente de peso. O príncipe luterano João Frederico, Duque de Brunswick e Hanôver, testemunhou seus êxtases e voltou à Igreja Católica por causa do que viu. E a João Casimiro, filho de Sigismundo III da Polônia, São José de Cupertino predisse que um dia reinaria — o que se cumpriu, contra toda lógica dinástica do momento, em 1648.

Morreu em Ósimo, no Piceno — hoje região das Marcas, na Itália —, em 18 de setembro de 1663, aos sessenta anos, depois de contrair febre em 10 de agosto daquele ano. Foi beatificado por Bento XIV em 1753, e canonizado por Clemente XIII somente em 1767 — mais de cem anos após a morte, apesar da fartura de testemunhas que a sua vida tinha deixado. A desconfiança que se criara enquanto ele vivia levou tempo pra se dissolver, mesmo depois de morto. Séculos mais tarde, São Paulo VI o chamaria um dos grandes místicos que a Igreja teve.

Se tu vais prestar prova

Hoje São José de Cupertino é o padroeiro popular dos estudantes — sobretudo de quem vai prestar uma prova, um vestibular, um concurso. Faz sentido: o santo que não conseguia aprender, reprovado duas vezes antes mesmo de entrar num convento, que só sabia um único versículo de cor no dia em que mais precisava saber, tornou-se quem intercede justamente pela angústia de quem teme não dar conta. Se é o teu caso agora — se tens uma prova chegando e o medo de não ser suficiente já bateu —, é um bom santo pra recorrer. Faz uma oração mais alongada. Pede a intercessão dele. Ele sabe, melhor do que a maioria, o que é sentar diante de um exame sem ter nada de próprio em que confiar. É também, por causa dos seus voos, padroeiro dos aviadores.

O elogio que o Martirológio Romano reserva a ele, hoje, é curto e certeiro: “Em Ósimo, no Piceno, actualmente nas Marcas, região da Itália, São José de Cupertino, presbítero da Ordem dos Frades Menores Conventuais, que, nas circunstâncias adversas da sua vida, resplandeceu pela pobreza, humildade e caridade para com os necessitados de Deus.”

Nada ali fala de inteligência. Nada fala de talento, de mérito, de capacidade. Fala de pobreza, humildade e caridade — as únicas moedas que aquele menino, que ninguém queria, teve para oferecer a Deus. E foram exatamente essas que Deus quis.

Não meças a tua vocação pelo que os homens acham que tu consegues. Mede pelo que a graça faz quando encontra um coração disposto — mesmo, e sobretudo, quando esse coração não sabe quase nada. São José de Cupertino, rogai por nós.


P
Patrono
Colunista do Hub Católico