Santo Aureliano de Arles
Identificação
Santo Aureliano de Arles (†551) — bispo de Arles de 546 a 551, vigário apostólico do papa Vigílio para a Gália, fundador de dois mosteiros em Arles e autor de duas regras monásticas que figuram entre os mais antigos monumentos legislativos do monaquismo gaulês. Morreu em Lião a 16 de junho de 551 e foi sepultado na basílica dos Santos Apóstolos. A Igreja comemora-o no mesmo dia em que recebeu sepultura.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Em Lião, na Gália, atualmente na França, o sepultamento de Santo Aureliano, bispo de Arles, que, nomeado pelo papa Vigílio seu vicário na Gália, construiu na cidade dois mosteiros – um para homens, outro para mulheres – e deu-lhes uma regra própria.
Original italiano
A Lione in Francia, deposizione di sant’Aureliano, vescovo di Arles, che, nominato vicario in Francia dal papa Vigilio, eresse due monasteri nella sua città, l’uno maschile, l’altro femminile, dando loro una regola da lui redatta.
Vida
O bispo de Arles e o vicariato apostólico da Gália sob o papa Vigílio
Santo Aureliano era filho de Sacerdos, arcebispo de Lião entre 542 e 552, e primo de São Nizário de Lião, que sucederia ao pai. A família pertencia à aristocracia burgundense e estava, portanto, estreitamente entrelaçada com as estruturas eclesiásticas e políticas da Gália merovíngia. Essa origem familiar explica tanto o ambiente de formação de Aureliano quanto os vínculos que ele manteve com a corte franca e com a Sé Romana ao longo de todo o seu episcopado.
Arles — antiga metrópole romana e sede da prefeitura pretoriana das Gálias — conservava ainda no séc. VI o prestígio de centro civil e eclesiástico do Ocidente gaulês. Os bispos de Arles haviam recebido, desde São Hilário (†449), funções de vigários papais para as Gálias; essa tradição foi reafirmada e ampliada quando Santo Aureliano sucedeu a Auxânio (542–546) na cátedra arelatense. Segundo a Wikipedia francesa, foi consagrado bispo em 23 de agosto de 546, e logo em 548 o papa Vigílio enviou-lhe o pálio, investindo-o formalmente de vigário apostólico para as igrejas da Gália. Rohrbacher registra o mesmo no seu calendário hagiográfico: Aureliano foi «eleito em 546 para suceder a Auxânio, que recebera da Santa Sé o título de vigário».
O vicariato apostólico de Arles era ao mesmo tempo litúrgico e jurisdicional: o bispo arelatense agia como representante do Romano Pontífice nas províncias eclesiásticas da Gália, convocava sínodos, recebia apelações e mantinha correspondência com Roma em nome das igrejas locais. Aureliano participou do V Concílio de Orleães em 549, presidido precisamente por seu pai, o arcebispo Sacerdos de Lião — concílio que tratou de disciplina clerical, regulação do monaquismo e questões pastorais da Igreja franca.
Em 550, Santo Aureliano enviou a Constantinopla o clérigo Anastácio para encontrar-se pessoalmente com o papa Vigílio — que então se encontrava na capital imperial em meio à crise dos Três Capítulos. Essa querela teológica envolvia a condenação, pelo imperador Justiniano, de três teólogos da tradição antioquena (Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Cirro e Ibas de Edessa), e dividia o episcopado oriental e ocidental. A iniciativa de Aureliano mostra que, mesmo distante da capital, o bispo de Arles estava plenamente integrado na política eclesiástica do seu tempo e mantinha comunicação direta com a cátedra de São Pedro.
As fundações monásticas e as regras que escreveu
A grande obra disciplinar de Santo Aureliano em Arles foi a fundação de dois mosteiros. Com o apoio do rei merovíngio Childeberto I (†558) e de sua esposa Ultrogota, ergueu:
- Um mosteiro masculino dedicado aos Santos Apóstolos (ou a São Pedro, conforme a Wikipedia inglesa), entregue à direção do abade Florentino — possivelmente o mesmo São Florentino de Arles venerado no séc. VI.
- Um mosteiro feminino dedicado à Virgem Maria, no interior dos muros da cidade.
A fundação desses dois mosteiros inscreve-se numa longa tradição arelatense: Cesário de Arles (†542), predecessor de Santo Aureliano na cátedra, havia fundado no século anterior um mosteiro de virgens e redigido para ele a Regula ad Virgines, considerada a mais antiga regra monástica ocidental dirigida especificamente a mulheres. Santo Aureliano tomou esse legado como ponto de partida e foi além: redigiu duas regras monásticas independentes, uma para monges e uma para monjas.
A Regula Monachorum de Santo Aureliano baseia-se amplamente na tradição de Cesário de Arles, incorporando também elementos da Regula ad Virgines do mesmo predecessor. A Regula ad Virgines (ou Regula Monacharum) que redigiu para o mosteiro feminino revela, segundo os estudiosos modernos, um apreço notável pela igualdade de tratamento entre a vida monástica masculina e feminina: o texto apresenta mínimos ajustes de gênero em relação à regra dos monges, o que sugere que Aureliano via as duas comunidades como chamadas à mesma perfeição evangélica pelos mesmos meios. Ambas as regras foram preservadas no Codex Regularum compilado por Bento de Aniane (†821), obra que reuniu as principais regras monásticas do Ocidente e garantiu sua transmissão à posteridade.
Rohrbacher anota que as fundações se fizeram «à imitação do predecessor» Cesário — confirmando a consciência de Santo Aureliano de estar em continuidade com a grande tradição monástica arelatense, cujo prestígio atravessara o século V e chegara íntegro ao séc. VI.
Morte e culto
Santo Aureliano faleceu em Lião a 16 de junho de 551, durante uma viagem ao rei Childeberto I. O Martirológio Romano 2004 regista o dia 16 de junho como o da sua deposição — isto é, do sepultamento —, indicando que essa data corresponde à liturgia mais antiga, provavelmente iniciada logo após a sua morte. Foi sepultado na basílica dos Santos Apóstolos em Arles, segundo Rohrbacher; a Wikipedia francesa acrescenta que uma inscrição funerária foi descoberta na Igreja de Saint-Nizier em Lião em 1308, o que sugere que, morto na cidade, recebeu primeiro sepultura provisória ali antes de ser trasladado a Arles — ou que coexistem tradições distintas de veneração em ambas as cidades.
O culto a Santo Aureliano é de origem imemorial, sem processo formal de canonização registrado. A Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa o veneraram ao longo dos séculos, e o Martirológio Romano 2004 confirma sua presença no calendário universal no dia 16 de junho. Sua memória permanece especialmente viva na tradição eclesiástica do sul da França, onde Arles e Lião guardam a lembrança desse bispo que, com o apoio da realeza merovíngia e sob a autoridade do papa Vigílio, deu ao monaquismo gaulês do séc. VI um dos seus mais duradouros fundamentos legislativos.
Referências
- Martirologio Romano (Editrice Vaticana, 2004), 16 giugno — fonte primária do elogio.
- Rohrbacher, Histoire Universelle de l’Église Catholique, vol. 10 (ed. portuguesa, ObrasCatolicas.com) — entrada calendário 16 de junho.
- Wikipedia francesa: «Aurélien d’Arles» — https://fr.wikipedia.org/wiki/Aur%C3%A9lien_d%27Arles (consultada 2026-05-28).
- Wikipedia inglesa: «Aurelianus of Arles» — https://en.wikipedia.org/wiki/Aurelianus_of_Arles (consultada 2026-05-28).
- Bento de Aniane, Codex Regularum (séc. IX) — preserva as duas regras monásticas de Santo Aureliano.

