São Bernardo de Claraval
Também conhecido como Doctor Mellifluus (Doutor da Boca de Mel), Pai dos Cistercienses, Mestre Espiritual da Idade Média
Identificação
São Bernardo de Claraval (1090-1153) — abade cisterciense, figura central da Igreja medieval do séc. XII. Doutor da Igreja (Doctor Mellifluus) declarado por Pio VIII em 1830. Reformador, pregador, místico, conselheiro de 5 papas e conselheiros de monarcas. Pregador da Segunda Cruzada (1146). Mariólogo sublime — “Memorare”, oração mariana clássica, atribuída a ele. Frase imortal: “Crede mihi, plus invenies in silvis quam in libris” (“Crê-me, encontrarás mais nos bosques do que nos livros”).
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Memória de São Bernardo, abade e doutor da Igreja, que, jovem nobre, juntou-se com seus irmãos ao mosteiro cisterciense reformado de Cister; abade do mosteiro de Claraval, fundou ramos cistercienses em diversos lugares na Europa. Dedicou-se com habilidade à pacificação dos príncipes e à reforma da Igreja, contribuindo para a vitória da fé e dos costumes.
Vida
Origens
Bernard de Fontaine nasceu em 1090 no Castelo de Fontaine-lès-Dijon (Borgonha), 3º de 7 filhos de Tescelin Sorrel (cavaleiro nobre) e Aleth de Montbard. Educação clássica, ambiente piedoso. Aleth morreu quando Bernardo tinha 17 anos.
Cister (1112)
1112: Bernardo, com 22 anos, arrastou consigo 30 nobres companheiros (incluindo 4 irmãos e o tio Gaudry) ao mosteiro cisterciense de Cister — recém-fundado em 1098 por Roberto de Molesmes como reforma rigorosa do beneditismo cluníaco (excessivamente luxuoso aos olhos dos reformadores).
A entrada coletiva quase dobrou a comunidade.
Claraval (1115)
1115: o abade Estêvão Harding enviou Bernardo, com 25 anos, a fundar mosteiro novo no vale de Wormwood (que Bernardo renomeou Claraval — Clairvaux, “Vale Claro”). Bernardo permaneceu como abade de Claraval por 38 anos (1115-1153).
Sob seu governo, a Ordem de Cister explodiu: - 1115: 1 mosteiro (Claraval). - 1153 (sua morte): 343 mosteiros cistercienses pela Europa, dos quais 160 fundados diretamente a partir de Claraval.
A Ordem de Cister (OCist) modelou a paisagem rural medieval da Europa — drenagem de pântanos, agricultura, criação de gado, gestão econômica.
Atuação pública
Cisma papal (1130-1138)
1130: dupla eleição papal — Inocêncio II vs Anacleto II (antipapa). Bernardo, com sua autoridade moral, persuadiu a França, Inglaterra, Castela e Sacro Império a apoiar Inocêncio II. Vitória de Inocêncio II em 1138 atribuída a Bernardo.
Conflitos teológicos
1140: refutou Pedro Abelardo no Concílio de Sens — Abelardo condenado por uso ousado da dialética em teologia trinitária. (Polêmica historicamente complexa: hoje há mais simpatia pela coragem intelectual de Abelardo.)
Pregação da II Cruzada (1146)
1146: papa Eugênio III (ex-monge de Claraval, discípulo de Bernardo) pediu a Bernardo que pregasse a II Cruzada. Bernardo pregou em Vézelay (31 mar 1146) e por toda a Europa. Cruzada partiu em 1147, sob Luís VII de França e Conrado III da Alemanha, mas fracassou militarmente em Damasco (1148). Bernardo aceitou a culpa moral pública.
Reforma da Igreja
Aconselhou cardinais, bispos, reis. Escreveu De Consideratione (1148-1153) ao papa Eugênio III sobre os deveres do papado.
Morte
Faleceu em Claraval em 20 de agosto de 1153, com 63 anos.
Obras
Bernardo deixou vasta obra escrita:
Sermões
- 86 Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (1135-1153) — obra-prima mística inacabada (chegou ao cap. 3,1). Comentário alegórico: a Esposa = Igreja/alma, o Esposo = Cristo. Maior obra mariana implícita da Idade Média.
- Sermões do Tempo, dos Santos, etc.
Tratados
- De Diligendo Deo (Sobre o Amor a Deus) — síntese da espiritualidade cisterciense. “Causa diligendi Deum, Deus est; modus, sine modo diligere” (“A razão de amar a Deus é o próprio Deus; o modo, é amar sem medida”).
- Apologia (1124) — contra excessos de Cluny.
- De Gratia et Libero Arbitrio — síntese sobre graça e livre-arbítrio.
- De Consideratione — sobre o ofício papal.
Cartas
~500 cartas sobreviventes — a maior coleção epistolar medieval depois das de Gregório Magno.
Mariologia
- Sermões na Festa da Bem-aventurada Virgem (Natividade, Anunciação, Assunção, etc).
- Memorare — atribuído tradicionalmente a Bernardo (sua autoria histórica é debatida): “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que recorreram à vossa proteção, implorando vossa assistência…”
Doutor da Igreja
- Canonizado em 18 de janeiro de 1174 por Alexandre III — apenas 21 anos após a morte.
- Doutor da Igreja declarado em 1830 por Pio VIII, com o título Doctor Mellifluus (“Doutor da Boca de Mel”) — pela doçura e fluidez do estilo.
“Doutor Mariano”
A devoção mariana de Bernardo é exemplar: - “Per Mariam ad Iesum” (“por Maria até Jesus”) — atribuído a ele. - “De Maria nunquam satis” (“nunca se diz o suficiente sobre Maria”). - Memorare (oração).
Dante o coloca como guia final da Divina Comédia (substituindo Beatriz no Paraíso XXXI-XXXIII), conduzindo o poeta à visão de Maria e da Trindade.
Iconografia
- Hábito cisterciense branco.
- Crucifixo ou Cristo crucificado abraçando-o (referência ao êxtase em que o Crucifixo desprendeu-se da cruz para abraçá-lo).
- 3 mitras aos pés (Bernardo recusou 3 episcopados: Reims, Châlons, Milão).
- Cão branco aos pés (símbolo da fidelidade).
- Abelhas ou colmeia (referência ao “doutor mellifluus”).
Backlinks
- Dia litúrgico: por-data/08-agosto/20
- Século: por-seculo/seculo-xii
- País: por-pais/frança
- Doutores da Igreja:
- Cistercienses:
- Reforma cisterciense:
- Mariologia clássica:
- Memorare:
- II Cruzada:
- Aluno: papa Eugênio III (cisterciense)
- Adversário (no debate): abelardo (não santo)
- Dante (cap.): Paraíso XXXI-XXXIII
- Fonte: _fontes/martirologio-romano-2004

