Santo Exuperâncio de Ravena
Também conhecido como Exuperâncio
Identificação
Santo Exuperâncio de Ravena (†c. 477), décimo nono bispo de Ravena, governou aquela Igreja metropolitana no período mais turbulento da Antiguidade tardia: os anos em que o general bárbaro Odoacro depôs o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augústulo, e se apoderou da Itália. O Martirológio Romano de 2004 o recorda em 29 de maio, realçando sua liderança prudente neste tempo de colapso político.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Em Ravena, na Flamínia, hoje na Emília-Romanha, também região da Itália, Santo Exuperâncio, bispo, que presidiu com sábia prudência a esta Igreja, no tempo em que o rei Odoacro se apoderou da Itália e desta cidade.
Vida
O episcopado de Ravena no fim do Império
Santo Exuperâncio sucedeu ao bispo Neone na cátedra de Ravena por volta de 458 — data aproximada, pois as fontes antigas são escassas — e ali permaneceu até sua morte, em maio de 477. A sé de Ravena ocupava posição singular: desde que o imperador Honório transferira a corte para a cidade em 402, por sua posição defensiva nos pântanos da Emília, Ravena tornara-se a capital do Ocidente romano e, portanto, palco de todos os grandes conflitos político- religiosos do século V. Ser bispo de Ravena neste período era governar no olho do furacão.
A principal fonte sobre Santo Exuperâncio é o Liber pontificalis ecclesiae ravennatis, redigido pelo cronista Agnello Ravennate no século IX. Agnello confessa abertamente que dispõe de poucas notícias sobre este bispo — o que explica a brevidade dos registros e torna o elogio do Martirológio Romano uma das caracterizações mais completas que chegaram até nós.
O contexto de Odoacro
Em 4 de setembro de 476, o general de origem bárbara Odoacro — chefe de mercenários hérulos, esciros, rugios e turcilingos — entrou em Ravena após sitiar a cidade e forçar a abdicação do jovem imperador Rômulo Augústulo. Com este ato consumava-se o fim do Império Romano do Ocidente. O ex-imperador foi exilado no Castel dell’Ovo, em Nápoles, e Odoacro passou a governar a Itália com o título de rex, reconhecido formalmente pelo imperador do Oriente, Zenão.
Para a Igreja Católica do Norte da Itália, a mudança de senhor levantava questões delicadas: Odoacro professava o arianismo, fé heterodoxa que negava a plena divindade do Filho. Não obstante, as fontes registram que o novo rei manteve, em geral, relações respeitosas com os bispos católicos — como atestado pelo papel de destaque que o bispo Epifânio de Pavia exerceu como mediador nas negociações com a corte bárbara. Santo Exuperâncio governava Ravena precisamente nos meses que antecederam e seguiram imediatamente a conquista de 476.
Ação pastoral e enriquecimento da Igreja
Apesar da escassez de documentos, Agnello Ravennate registra que Santo Exuperâncio empenhou-se em enriquecer o culto divino. Sob seu governo, o subdiácono Gemelo cuidou da construção da Basílica de Sant’Agnese em Ravena; o bispo dotou a igreja “de ouro, prata e véus sagrados” (aurum, argentum et vela sacra) e mandou executar, em honra da mártir romana Santa Inês, uma representação prateada — provavelmente uma cruz de prata ou uma imagem da cidade. Este patrocínio litúrgico, num momento em que o tesouro imperial estava desorganizado e a aristocracia romana em colapso, revela a capacidade de Santo Exuperâncio de manter a vida eclesial com dignidade em circunstâncias adversas.
O bispo morreu em maio de 477, poucos meses após a tomada da cidade por Odoacro. Seu sucessor, João I Angelopte, foi consagrado em julho do mesmo ano.
Nota sobre a lista episcopal e confusões cronológicas
Historiadores posteriores, ao reconstruir a lista episcopal de Ravena, confundiram por vezes Santo Exuperâncio com figuras homônimas de períodos distintos, propondo cronologias que recuavam seu episcopado para décadas anteriores. A erudição moderna — apoiada na análise interna do Liber pontificalis de Agnello — fixa o período 458?–477 como o mais provável.
A menção incidental de um “bispo Exuperâncio” da Lucânia no relato da morte de São Paulino de Nola (†431), presente na obra de Rohrbacher (Vidas dos Santos, vol. 11), parece referir-se a um personagem distinto ou a uma tradição confusa, dado que Santo Exuperâncio de Ravena só teria assumido a diocese por volta de 458. A identificação entre os dois permanece incerta.
Culto e relíquias
Santo Exuperâncio foi cultuado em Ravena desde a Antiguidade. Suas relíquias, que se encontravam na Basílica de Sant’Agnese, foram transladadas para a Catedral de Ravena em 1809, por ocasião das reformas napoleônicas que encerraram muitas igrejas históricas da cidade. O Martirológio Romano consigna sua memória em 29 de maio, que em alguns calendários antigos era registrada em 30 de maio.
Referências
- Agnello Ravennate, Liber pontificalis ecclesiae ravennatis (séc. IX) — fonte primária sobre os bispos de Ravena; o próprio Agnello admite escassez de dados sobre Santo Exuperâncio.
- Martirológio Romano 2004, 29 de maio — elogio utilizado nesta ficha.
- gcatholic.org, lista episcopal de Ravena — confirma “Archbishop Esuperanzio (458?–477.05), feast May 29”.
- Verbete Esuperanzio di Ravenna na Wikipédia italiana (consultado em 2026-05-27; em italiano).

