Santo Eutrópio de Orange
Também conhecido como Eutrope d'Orange, Eutropius Arausicanus
Identificação
Santo Eutrópio de Orange (Marselha, final do séc. IV ou início do V — Orange, c. 475), bispo de Orange na Provença, foi um dos pastores mais enérgicos da Gália do século V. Convertido da vida mundana pela santidade de sua esposa, tornou-se diácono, depois bispo, e governou a diocese de Orange por cerca de doze anos com caridade sem medida, trabalho manual e ação apostólica intensa. A Igreja celebra sua memória em 27 de maio.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Em Orange, na Provença, região da Gália, atualmente na França, Santo Eutrópio, bispo.
Vida
Origem e conversão
Santo Eutrópio nasceu em Marselha, no final do século IV ou nos primeiros anos do V, em família rica e de nome. Segundo o que o Rohrbacher narra com base na Vita escrita pelo seu sucessor Verus, a juventude de Eutrópio foi marcada por vida desordenada — ele próprio a recorda, mais tarde bispo, como uma dívida que precisava saldar perante Deus.
Foi sua esposa, mulher de profunda virtude, quem o retirou daquela vida. À morte dela, Eutrópio era já um homem transformado; e tal era a evidência da mudança que Santo Eustáquio, bispo de Marselha, o ordenou diácono — cargo que Eutrópio recebeu com resistência, por humildade. Ordenado, redobrou as austeridades que praticava desde a conversão, dominado pelo desejo de expiar as faltas passadas.
A tradição conservou dois sonhos que trouxeram paz a Eutrópio: num, um bando incontável de passarinhos negros levantava voo do seu corpo e era consumido por um clarão vindo do céu; noutro, uma nuvem de moscas tinha o mesmo fim. Um abade das redondezas interpretou os sonhos: os pássaros eram os pecados, as moscas os maus pensamentos — e Deus os havia perdoado a todos. Eutrópio recebeu o sinal como graça, não como mérito, e prosseguiu em penitência.
Eleição episcopal (463)
Em 463, com a morte do bispo Justo de Orange, Eutrópio foi designado para sucedê-lo. Conta-se que fugiu para escapar à dignidade; foi em vão. Aper, que havia sido discípulo de Santo Agostinho, convenceu-o de que aceitar era servir a Igreja — e Eutrópio cedeu.
Nessa época, Orange havia sofrido com as devastações dos bárbaros. O novo bispo encontrou uma cidade parcialmente arruinada e uma diocese que precisava ser recomposta tanto espiritualmente quanto materialmente.
Episcopado: caridade, trabalho e milagres
Santo Eutrópio governou Orange com caridade inesgotável. Distribuía tudo o que tinha; chegou a restar-lhe um único manto. Tendo dado todas as suas vestes aos pobres, passou a confeccioná-las com as próprias mãos para suprir os que não tinham o que vestir.
Participou dos Concílios de Arles de 463 e 475, manteve correspondência com o papa São Hilário e cultivou amizade com São Fausto de Riez, figura central do monaquismo gaulês do período.
A tradição atribui-lhe três milagres especialmente lembrados pelo sucessor Verus: a libertação de um barqueiro possuído pelo demônio; a cura e conversão de um velho pagão, deforme e blasfemador; e a extinção de um incêndio que ameaçava a cidade, conjurado pela oração de Eutrópio subido ao alto de um telhado.
Construiu em Orange a basílica dedicada a São Julião de Antioquia, onde viria a ser sepultado.
Morte e sepultura (c. 475)
Santo Eutrópio morreu no último quarto do século V — a data de 27 de maio de 475 é a mais aceita, embora aproximada. A Vita de Verus descreve os momentos finais: à beira da morte, Eutrópio viu o demônio espreitando, sentado sobre a estante dos seus livros. Olhou-o com calma e disse: “Nada há entre mim e ti. Creio em Deus, com cujo socorro hei de te vencer.” O diabo desapareceu. Ao som do cântico Omnis spiritus laudet Dominum entoado pelos presentes, o bispo fechou os olhos docemente e expirou.
Foi sepultado na basílica de São Julião que ele mesmo havia construído. Com o tempo, a basílica passou a ser chamada de basílica de Santo Eutrópio. Relíquias do santo foram posteriormente depositadas na catedral de Orange e em Reilhanette (Drôme).
A Vita de Verus
Pouco depois de 475, Verus, sucessor imediato de Santo Eutrópio na sede de Orange, redigiu a Vita Eutropii, dedicando-a ao arcebispo Estêvão de Lião. É a fonte hagiográfica principal sobre o santo e foi a base usada por Rohrbacher no século XIX e pelos estudiosos modernos. A obra de Verus é um exemplo raro de Vita episcopal provençal do século V que chegou até nós.
Referências
- Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 9 (27 de maio — «Santo Eutrópio de Orange, bispo e confessor»), pp. 256-259 [edição brasileira].
- Martirológio Romano 2004, 27 de maio.
- Verbete Eutrope d’Orange, na Wikipédia fr (em francês).
