São José de Anchieta
Também conhecido como Apóstolo do Brasil, José de Anchieta
Identificação
São José de Anchieta (1534–1597), presbítero da Companhia de Jesus, nascido nas Ilhas Canárias e missionário no Brasil durante quase toda a sua vida adulta. É venerado como o Apóstolo do Brasil — cofundador da vila de São Paulo de Piratininga e do Rio de Janeiro, autor da primeira gramática da língua tupi, poeta e pacificador de povos indígenas. Beatificado em 1980 por São João Paulo II e canonizado por equipolência em 3 de abril de 2014 pelo Papa Francisco, a Igreja celebra sua memória em 9 de junho, data de seu falecimento.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Em Retiriba, no Brasil, São José de Anchieta, presbítero da Companhia de Jesus, natural das Ilhas Canárias, que se consagrou intensa e frutuosamente durante quase todo o tempo da sua vida ao trabalho missionário no Brasil.
Vida
Nas Ilhas Canárias e o ingresso na Companhia de Jesus
José de Anchieta nasceu em 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, então pertencente à Coroa de Castela. Proveniente de família nobre — era primo, pelo lado materno, de Santo Inácio de Loyola —, recebeu sólida formação humanística. Em 1º de maio de 1551, ainda jovem, ingressou como noviço na Companhia de Jesus em Coimbra, Portugal, onde iniciou os estudos de filosofia e teologia. Uma afecção na coluna vertebral — que o acompanharia a vida toda — interrompeu seu percurso acadêmico, mas não abateu sua determinação apostólica. Ao contrário, a fragilidade física tornar-se-ia, ao longo dos anos, sinal da força sobrenatural que o sustentava.
Chegada ao Brasil (1553) e a saúde frágil
Em 13 de julho de 1553, São José de Anchieta desembarcou em Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos, integrando o grupo liderado pelo padre Luís de Grã, que vinha substituir os primeiros jesuítas enviados por São Francisco Xavier ao Novo Mundo. Tinha dezenove anos e já carregava a doença na espinha. O clima tropical, diferente de tudo que conhecera na Europa, impunha adaptações severas; mas o jovem irmão canariense consagrou-se imediatamente ao aprendizado das línguas locais e ao cuidado dos doentes, dos índios e dos colonos. Rohrbacher, nas Vidas dos Santos, descreve-o como “o mais humilde e modesto” entre os companheiros que aportaram naquela missão histórica.
Cofundação de São Paulo de Piratininga e do Rio de Janeiro
No planalto de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554 — dia da conversão de São Paulo Apóstolo —, São José de Anchieta participou, ao lado do padre Manuel da Nóbrega e de outros jesuítas, da fundação do Colégio de São Paulo, humilde casa de palha e barro que seria o embrião da cidade de São Paulo. Anchieta era o regente do colégio: ensinava latim, filosofia e as primeiras letras tanto aos filhos dos colonos quanto aos meninos indígenas. O padre Rohrbacher registrou versos que ilustram aquela pedagogia: “Agora vamos, filhos, / findar vossa lição; / primeiro é o trabalho, / depois a refeição.” Em 1565, São José de Anchieta esteve presente na fundação do Rio de Janeiro, ao lado de Estácio de Sá, colaborando na consolidação da nova cidade e na proteção dos índios aliados.
O gramático e poeta do tupi
A contribuição científica e literária de São José de Anchieta para o conhecimento do Brasil é singular. Dominou a língua tupi com tal profundidade que redigiu a primeira gramática da língua mais falada na costa do Brasil — a Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, impressa em Coimbra em 1595 —, instrumento indispensável para a evangelização e para os estudos posteriores sobre as línguas indígenas. Além da gramática, compôs autos teatrais em tupi e português, catecismos, poemas e cartas que constituem um patrimônio literário fundador da cultura brasileira. Rohrbacher cita as famosas cartas em que São José de Anchieta descrevia a terra de Santa Cruz com espanto e amor: “Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosques, e não se vê em todo o ano árvore nem erva seca.”
Refém entre os Tamoios e a pacificação — o poema à Virgem (1563)
O episódio mais célebre da vida de São José de Anchieta é o cativeiro voluntário em Iperoig (1563). A Confederação dos Tamoios — aliança de tribos indígenas com piratas franceses que ameaçava o ainda frágil Rio de Janeiro — havia entrado em conflito aberto com os portugueses. Para viabilizar negociações de paz, São José de Anchieta e o padre Nóbrega entregaram-se como reféns ao cacique dos Tamoios. Durante os meses de cativeiro, São José de Anchieta compôs, segundo a tradição, um extenso poema à Nossa Senhora — o De Beata Virgine Dei Matre Maria, com mais de cinco mil versos em latim —, gravando-o mentalmente enquanto não tinha papel, e depois transcrevendo-o na areia da praia de Iperoig. Rohrbacher evoca o momento com emoção:
“Enquanto entre os Tamoios conjurados / jovem refém de paz, / procurava apaziguar a raiva / do índio fero e audaz… / dirigia-se a Maria, cantando ternamente: / Ó doce Mãe, o teu amor materno / ao meu olhar sorriu: / tomou-me pela mão, e corpo e alma / c’ o manto me cobriu.”
A missão de paz teve êxito: a Confederação dos Tamoios foi dissolvida por via diplomática, e a cidade do Rio de Janeiro foi salva. O episódio consagrou São José de Anchieta como figura de reconciliação entre povos.
Últimos anos em Reritiba e morte (1597)
São José de Anchieta passou os últimos anos de sua vida em Reritiba (atual município de Anchieta, no Espírito Santo), aldeia que havia fundado e pastoreado ao longo de décadas. Ali exercia com simplicidade o ministério sacerdotal — ordenado presbítero em 1566 —, visitava enfermos, batizava crianças, instruía adultos, administrava os sacramentos e mantinha a paz entre índios e colonos. Enfraquecido pela doença que o afligia desde a juventude, faleceu em 9 de junho de 1597, rodeado pelos índios e pelos companheiros jesuítas. Tinha sessenta e três anos e havia passado quarenta e quatro no Brasil. À sua morte, a nova terra já contava com aldeias evangelizadas, colégios, igrejas e uma geração de cristãos formados à sombra de sua incansável caridade.
Beatificação (1980) e canonização (2014)
Em 22 de junho de 1980, o Papa São João Paulo II beatificou José de Anchieta durante sua visita ao Brasil, no estádio do Morumbi, em São Paulo — reconhecendo oficialmente a santidade de vida e o culto imemorial que o povo brasileiro lhe tributava há séculos. Trinta e quatro anos depois, em 3 de abril de 2014, o Papa Francisco o elevou à glória dos altares por canonização equipolente: modalidade prevista para santos de culto antiquíssimo e ininterrupto, dispensando a instrução formal do segundo milagre. A canonização de São José de Anchieta foi proclamada junto com a de outros grandes nomes da história da Igreja no Brasil e nas Américas, confirmando sua posição como patrono espiritual da evangelização do continente.
Referências
- Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 13 (junho — «Bem-Aventurado Inácio de Azevedo e Companheiros; São José de Anchieta, menção e versos»).
- Martirológio Romano 2004, 9 de junho (Editrice Vaticana).
- Verbete José de Anchieta, na Wikipédia.

