Santa Lutgarda
Também conhecido como Lutgarda de Aywières, Lutgardis, Lutgarda de Tongres, Lutgarda de Tongeren
Identificação
Santa Lutgarda (1182 – 1246), virgem e mística cisterciense, nasceu em Tongeren (Tongres), na atual Bélgica. Após anos como beneditina no mosteiro de Santa Catarina, perto de Sint-Truiden, transferiu-se para o mosteiro cisterciense de Aywières, no Brabante, onde viveu até a morte. É celebrada como uma das precursoras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e seu principal biógrafo foi o dominicano Tomás de Cantimpré, que redigiu a Vita Lutgardis pouco após a morte da santa. A Igreja celebra sua memória em 16 de junho.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
No mosteiro das monjas cistercienses de Aywières, no Brabante, na atual Bélgica, Santa Lutgarda, virgem, insigne pela sua devoção ao Sagrado Coração do Senhor.
Vida
A jovem flamenga e o ingresso na vida religiosa
Santa Lutgarda nasceu no ano de 1182 em Tongeren, cidade da região do Principado-Bispado de Liège, no Sacro Império Romano-Germânico, pertencente hoje ao território da Bélgica. Era filha de uma família de mercadores. Quando o dote destinado ao seu casamento se perdeu num malogro comercial, os pais — que, segundo Rohrbacher, eram pobres e sem meios de lhe oferecer sequer um pequeno dote — a entregaram ao mosteiro beneditino de Santa Catarina, perto de Sint-Truiden, por volta dos doze anos de idade. Ali, inicialmente, a jovem Lutgarda vivia com relativa liberdade, recebia visitas e entregava-se a atividades próprias de sua idade, sem vocação religiosa declarada.
A visão e a conversão interior
A transformação de Santa Lutgarda deu-se, segundo a tradição relatada por Tomás de Cantimpré, por volta dos vinte anos: em aparição no locutório do mosteiro, Cristo mostrou-lhe as suas chagas sagradas e pediu-lhe que O amasse exclusivamente. A partir desse momento, a jovem abandonou os costumes mundanos e se entregou à oração intensa e às mortificações, meditando a Paixão de Nosso Senhor com tal fervor que, por vezes, era vista com a cabeça coberta de suor ensanguentado. Professou como beneditina e, nos anos seguintes, teria tido numerosas visões de Cristo, da Virgem Maria e de São João Evangelista. Chegou a exercer o cargo de prioresa em 1205, embora tenha recusado o de abadessa.
A passagem ao Cister em Aywières
Em 1208, movida pelo desejo de uma vida mais austera e recolhida, Santa Lutgarda deixou o mosteiro de Santa Catarina e ingressou na comunidade cisterciense de Aywières, no Brabante, então pertencente à diocese de Namur. Rohrbacher observa que, não falando francês — a língua usada pelas irmãs daquele mosteiro — a santa encontrou nessa barreira linguística um meio providencial de silêncio e humildade. Longe das conversas e dos intercâmbios sociais, pôde dedicar-se ainda mais completamente à contemplação. Segundo os relatos hagiográficos, Maria de Oignies, santa mulher belga que vivia em reclusão perto de Namur, atestou que Lutgarda converteu grande número de pecadores e intercedeu pelas almas do purgatório.
A vida mística e a devoção ao Coração de Cristo
Santa Lutgarda é considerada uma das precursoras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Segundo a tradição consignada por Tomás de Cantimpré na Vita Lutgardis, Cristo teria, numa visão, realizado uma troca mística de corações com a santa — experiência que a hagiografia medieval descreve como sinal do amor singular de Deus pela alma contemplativa. Tais relatos, transmitidos pela tradição e pelo testemunho do seu biógrafo, antecedem em séculos a sistematização doutrinária da devoção que viria a ser promovida, mais tarde, por Santa Margarida Maria Alacoque. A Vita Lutgardis de Tomás de Cantimpré foi redigida em latim em menos de dois anos após a morte da santa, e tornou-se fonte primária indispensável para o conhecimento de sua vida espiritual. Uma tradução em verso em holandês médio (Leven van Lutgart), do século XIII, é considerada obra canônica da literatura neerlandesa medieval.
A cegueira final, a morte e o culto
Onze anos antes de morrer, segundo Rohrbacher, Santa Lutgarda ficou completamente cega. A tradição refere que, nesse período, Cristo lhe teria dito que se preparasse para deixar o mundo, rogando pelos pecadores e abandonando-se inteiramente a Deus. Santa Lutgarda faleceu em 16 de junho de 1246, com sessenta e quatro anos de idade, no mosteiro cisterciense de Aywières. É padroeira dos cegos e das pessoas com deficiência física. Durante a Revolução Francesa, em 1796, suas relíquias foram transladadas para Ittre, onde se encontram. Na iconografia barroca, a santa é representada em cenas de suas visões: notável é a estátua esculpida por Matthias Braun (1710) na Ponte Carlos, em Praga, e uma pintura de Goya. Seu culto permaneceu vivo no mundo cisterciense e difundiu-se especialmente nas regiões flamengas e neerlandesas.
Referências
- Rohrbacher, Vidas dos Santos, vol. 10 (16 de junho — «Santa Lutgarda, virgem»). [Em português, digitalizado em
~/martyr-fixes/rohrbacher/vol10.txt, linhas 11348–11382.] - Martirológio Romano 2004 (Editrice Vaticana), 16 de junho — elogio em português e italiano.
- Tomás de Cantimpré, Vita Lutgardis (c. 1246–1248) — fonte primária medieval.
- Verbete Lutgardis, na Wikipedia em inglês. (Wikipedia PT não possui artigo; Wikipedia FR retornou 404. Fonte consultada: EN.)

