Santos Sisínio, Martírio e Alexandre

Também conhecido como Mártires de Anáunia, Mártires anaunienses, Mártires de Val di Non

Identificação

Santos Sisínio, Martírio e Alexandre — conhecidos como os Mártires de Anáunia ou mártires anaunienses — foram três clérigos de origem capadócia que levaram o Evangelho ao vale de Non (Anáunia), no atual Trentino-Alto Ádige, Itália, e selaram a pregação com o sangue em 29 de maio de 397. São Sisínio exercia o ministério de diácono; São Martírio, o de leitor; Santo Alexandre, o de ostiário. A Igreja celebra sua memória em 29 de maio.

Elogio (Martirológio Romano 2004)

Em Val di Non, atualmente no Trentino Alto Ádige, região da Itália, os santos mártires Sisínio, diácono, Martírio, leitor, e Alexandre, ostiário, naturais da Capadócia, que nesta região edificaram uma igreja e introduziram os cânticos do louvor divino, mas foram mortos pelos pagãos num dia em que estes ofereciam os seus sacrifícios lustrais.

Vida

Os três capadócios enviados à Anáunia

A Capadócia, região do centro-leste da Anatólia (atual Turquia), foi berço de grandes figuras da Igreja do século IV. São Sisínio, São Martírio e Santo Alexandre eram clérigos capadócios — diácono, leitor e ostiário, respectivamente — quando foram enviados como missionários ao norte da Itália, numa das regiões que mais resistia à penetração cristã.

O responsável pelo envio foi Santo Ambrósio, bispo de Milão, à época a capital do Império Romano do Ocidente e centro irradiador da evangelização alpina. São Vigílio de Trento, bispo da diocese de Trento, havia solicitado a Santo Ambrósio que lhe enviasse colaboradores para a missão no interior montanhoso de sua diocese. A Anáunia — o vale do rio Noce, hoje Val di Non — permanecia em grande parte fiel às antigas práticas pagãs, e São Vigílio reconhecia a necessidade de pregadores preparados e corajosos.

A missão: a igreja e os cânticos divinos

Chegados à Anáunia, os três clérigos capadócios lançaram-se à evangelização com método e perseverança. Segundo o Martirológio Romano, edificaram uma igreja na região e nela introduziram os cânticos do louvor divino — elemento que marcou a identidade litúrgica da comunidade nascente e que se tornaria memória viva do seu apostolado.

Durante algum tempo os três atuaram entre as populações do vale, anunciando o Evangelho e consolidando a pequena comunidade de fiéis, ainda cercada por uma maioria pagã hostil.

O martírio em 397 durante os sacrifícios pagãos

Na noite de 28 de maio de 397, São Sisínio interveio para defender uma família cristã que estava sendo coagida a participar de um rito pagão. A intervenção custou-lhe graves ferimentos, e ele foi transportado para casa. Na manhã seguinte, 29 de maio, os pagãos voltaram e, num novo ataque, mataram os três — São Sisínio, São Martírio e Santo Alexandre — e lançaram seus corpos a uma fogueira.

O contexto litúrgico dos agressores eram os chamados Ambarvalia (ritos lustrais agrários), festas pagãs nas quais a comunidade circundava os campos em procissão sacrificial para purificá-los e garantir a fertilidade. Era exatamente nesses dias de festa pagã, quando a tensão religiosa estava no auge, que o confronto entre a fé cristã e as antigas tradições se tornava mais perigoso. A presença dos missionários e de famílias cristãs recusando participar dos ritos foi o estopim do massacre.

O local exato do martírio é identificado na localidade de Mecla, correspondente à atual Sanzeno, na Val di Non.

O testemunho de São Vigílio e Santo Ambrósio

A morte dos três missionários foi registrada pelo próprio São Vigílio de Trento em duas cartas de raro valor histórico. A primeira foi dirigida a Simpliciano, bispo de Milão e sucessor de Santo Ambrósio, provavelmente redigida logo após os acontecimentos; a segunda foi endereçada a São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla. Em ambas, São Vigílio lamenta profundamente não ter estado presente para partilhar o martírio de seus colaboradores e enaltece a glória do seu testemunho.

Santo Ambrósio, que havia pessoalmente enviado os três à missão, conheceu o desfecho dos homens que confiara a São Vigílio. A morte dos missionários que ele próprio designara tornou-se mais um capítulo na longa cadeia de mártires que a expansão cristã pelos Alpes produziu no século IV.

Culto e relíquias

Após o martírio, São Vigílio de Trento tornou-se o principal propagador do culto dos três mártires. As relíquias foram distribuídas: parte delas enviada a Simpliciano de Milão, onde foram depositadas na Basílica de São Simpliciano; outra parte enviada a São João Crisóstomo em Constantinopla, gesto que inscreveu os mártires anaunienses no horizonte da Igreja universal.

Em Sanzeno, sobre o local do martírio, foi erguida uma basílica em honra dos três santos, que até hoje subsiste e é gerida por uma comunidade franciscana, juntamente com o vizinho santuário de San Romedio. O culto local permaneceu vivo no Trentino ao longo dos séculos, e o Martirológio Romano 2004 manteve a celebração dos três mártires capadócios no dia 29 de maio.

Referências

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