São Trifílio de Nicósia
Também conhecido como Trifílio, Triphyllius
Identificação
São Trifílio de Nicósia (†c. 370) — bispo de Nicósia (chamada Leucósia pelas fontes latinas e gregas), capital espiritual e civil de Chipre no séc. IV. Jurista de formação, convertido ao cristianismo sob a influência direta de São Espiridião de Tremitúncia, tornou-se o mais eloquente pregador de sua época segundo o testemunho de São Jerónimo, e ardente defensor da fé definida pelo Concílio de Niceia (325) contra o arianismo.
Elogio (Martirológio Romano 2004)
Em Nicósia, na ilha de Chipre, São Trifílio, bispo, que defendeu vigorosamente a verdadeira fé nicena e, como escreve São Jerónimo, foi o orador mais eloquente do seu tempo e admirável comentador do “Cântico dos Cânticos”.
Original italiano
A Nicosía nell’isola di Cipro, san Trifillo, vescovo, che difese strenuamente la retta fede di Nicea e, come afferma san Girolamo, fu l’oratore più eloquente del suo tempo e straordinario commentatore del Cantico dei Cantici.
Vida
O jurista convertido e o discipulado junto a São Espiridião
Trifílio nasceu provavelmente em Constantinopla, no início do séc. IV, e recebeu formação jurídica na célebre escola de Direito de Beirute — a Schola Legum Berytensis —, um dos centros intelectuais mais prestigiados do Mediterrâneo oriental, que formava advogados e altos funcionários do Império Romano. Essa sólida cultura retórica e jurídica marcaria para sempre o seu estilo de pregação e de exegese.
A conversão à fé cristã e a subsequente orientação para a vida episcopal associam-se à figura de São Espiridião de Tremitúncia (c. 270–348), bispo de Tremitúncia em Chipre, conforme confirmado pelas fontes antigas. São Espiridião era um ancião de extraordinária simplicidade e poder espiritual: pastor de ovelhas antes do episcopado, célebre pelo dom da profecia e por milagres, havia participado do Concílio de Niceia (325), onde enfrentou os argumentos dos arianos com a limpidez da fé simples. Trifílio tornou-se seu discípulo e chegou a escrever-lhe um poema — obra que se perdeu, mas que ficou registrada na tradição —, a partir do qual hagiógrafos posteriores, como Teodoro de Pafos (séc. VII) e possivelmente Leôncio de Neápolis, recolheram dados para as vidas de São Espiridião. A relação mestre-discípulo entre o bispo-pastor analfabeto e o advogado eloquente constitui um dos contrastes mais iluminadores da Igreja antiga: a fé simples e os dons carismáticos de São Espiridião completando-se com a cultura humanística de São Trifílio, ambos a serviço da ortodoxia.
O episcopado de Nicósia e a defesa da fé nicena
Trifílio foi elevado à cátedra episcopal de Nicósia — Leucósia nos documentos latinos, capital da ilha de Chipre desde a Antiguidade — em data que as fontes não precisam, mas que pode situar-se em meados do séc. IV. O seu episcopado ocorreu num período de aguda controvérsia doutrinária: após o Concílio de Niceia (325), que definira a homoousía (consubstancialidade do Filho com o Pai), o arianismo ganhou proteção imperial sob Constâncio II (337–361) e exerceu forte pressão sobre as igrejas orientais. Muitos bispos capitularam ou adotaram fórmulas ambíguas.
São Trifílio recusou esse caminho. O Martirológio Romano 2004 regista que “defendeu vigorosamente a verdadeira fé nicena” — postura que o alinhou com os grandes defensores da ortodoxia do seu tempo, entre os quais São Atanásio de Alexandria, cujas lutas pelo credo niceno São Trifílio apoiou de maneira ativa. Rohrbacher, na Histoire Universelle de l’Église Catholique, descreve-o como “ardente defensor da ortodoxia”, confirmando o tom combativo que caracterizou o seu episcopado chipriota num contexto de pressão ariana.
A fama de eloquência e o testemunho de São Jerónimo
O traço que a tradição mais reteve de São Trifílio é a sua extraordinária eloquência. São Jerónimo (c. 347–420), no De viris illustribus (cap. XCII), a obra em que inventariou os escritores eclesiásticos de seu tempo, inclui São Trifílio e qualifica-o como o orador mais eloquente da sua época — distinção notável, considerando que o séc. IV foi o século de ouro da patrística grega, com figuras como São Basílio Magno, São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo.
São Jerónimo menciona igualmente um comentário ao Cântico dos Cânticos, obra exegética de São Trifílio que o Martirológio Romano 2004 sublinha ao chamá-lo “admirável comentador do Cântico dos Cânticos”. Esse comentário, à semelhança do poema a São Espiridião, não chegou aos nossos dias; o seu desaparecimento é uma das perdas da literatura patrística do séc. IV. A associação entre eloquência retórica e exegese da literatura sapiencial bíblica revela um intelectual cristão maduro, capaz de unir a cultura clássica à leitura espiritual da Escritura.
Vale notar uma cena transmitida pela hagiografia antiga: num sínodo de bispos, São Trifílio terá utilizado uma palavra técnica de vocabulário clássico ao citar o versículo do Cântico dos Cânticos em que aparece a palavra leito (lectulum), substituindo-a por um equivalente de registro mais elevado. São Espiridião, ao ouvir o discípulo, reprendeu-o publicamente, dizendo que não devia ter vergonha de usar a mesma palavra que o Espírito Santo inspirou. O episódio, registado na hagiografia de São Espiridião, ilumina tanto a personalidade dos dois bispos como o debate, vivo no séc. IV, entre cultura retórica clássica e humildade do texto sagrado.
Culto
São Trifílio faleceu em Nicósia por volta de 370. O seu culto é de origem imemorial e venerado tanto na Igreja Católica como nas Igrejas Ortodoxas do Oriente — reflexo natural da origem comum das tradições chipriota e mediterrânea oriental. A Igreja Católica o celebra em 13 de junho, data constante do Martirológio Romano 2004. Não há registo de canonização formal; o seu estado de santo repousa no reconhecimento imemorial e na inserção no Martirológio. Nenhum patronato específico lhe é atribuído pelas fontes.
Referências
- Martirologio Romano (Editrice Vaticana, 2004), 13 giugno — fonte primária do elogio PT e IT.
- São Jerónimo, De viris illustribus, cap. XCII (séc. IV) — testemunho patrístico sobre a eloquência de São Trifílio e o comentário ao Cântico dos Cânticos.
- R. Rohrbacher, Histoire Universelle de l’Église Catholique, vol. 10 (ed. portuguesa digitalizada, linha 8727) — “São Trifilo, bispo de Ledres, homem eloquentíssimo, ardente defensor da ortodoxia, falecido em 370”.
- Wikipedia inglesa: «Triphyllius» — https://en.wikipedia.org/wiki/Triphyllius (consultada 2026-05-28; artigo stub em inglês).
- Wikipedia inglesa: «Spyridon of Trimythous» — https://en.wikipedia.org/wiki/Spyridon_of_Trimythous (consultada 2026-05-28; em inglês).

