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A PARÓQUIA É CASA DE ORAÇÃO

Tem uma construção acontecendo nesta Setena do Sagrado Coração de Jesus, a festa da minha paróquia, e a cada dia eu me impressiono mais. Não fui eu que armei — foram os sacerdotes convidados que pregaram, cada um num dia, e a coisa vai subindo degrau por degrau, como se tivesse sido pensada de cabo a rabo. Eu sou paroquiano da Coração de Jesus, da Arquidiocese de Porto Alegre, e venho fazendo essas meditações aqui no Diário de um Paroquiano de Aldeia porque é exatamente disto que a gente trata: a vida ordinária do católico, a vida da paróquia.

Esta reflexão nasce da homilia do Pe. Querino Ludwig, o pregador do quarto dia. O tema dele foi o Coração de Jesus que ensina a rezar e adorar — e o paralelo com a paróquia é direto: a paróquia como casa de oração.

Onde a gente já chegou

Repara na escada. No primeiro dia, vimos que a paróquia é o lugar da vida do católico, o lugar ordinário onde a fé acontece. No segundo, que o centro dela é a Eucaristia — tudo parte dali. No terceiro, que a paróquia também ensina e prega a Palavra, que educa pra fé. E agora, no quarto dia, mais um degrau: a paróquia é também a casa de oração.

Olha o desenho que se forma. Primeiro a gente contempla a Deus na Eucaristia, o objeto da fé. Depois aprende que Deus nos fala. E agora aprende que a gente fala com Ele — que a gente responde a esse amor. O Coração de Cristo, o Coração que nos ama primeiro, espera uma resposta. E a oração é justamente isso: a resposta do coração.

A oração é a resposta de quem se sabe amado

Foi assim que o Pe. Querino colocou, e eu não consigo dizer melhor: a oração é a ação daquele que se compreende amado e que, entendendo-se amado, decide amar. Não é técnica, não é obrigação fria. É resposta.

E aí, na prática, isso se abre em muitas formas e muitas intensidades. Cada um de nós consegue amar a Deus, hoje, de um modo específico — talvez menor do que amanhã, se Deus quiser, pra que a gente vá crescendo na vida de oração e amando mais a cada dia. Não existe um modelo único de quem reza bem. Existe um caminho de quem reza mais.

Perder o coração, reconquistar o coração

O Pe. Querino trouxe uma reflexão belíssima da Dilexit Nos, a última encíclica do Papa Francisco. Lá o Papa adverte que o ser humano vem perdendo o coração — que a humanidade vai, aos poucos, perdendo o seu coração.

E aqui é preciso entender o que “coração” significa na Escritura. Não é só a parte emotiva, emocional, passional, como a gente usa a palavra hoje. O coração representa o ser por completo: as vontades, os desejos, a alma, a inteligência. Tudo que há no ser está resumido, de algum modo, no coração. Por isso é grave: se perdemos o coração, perdemos a nós mesmos, perdemos a nossa humanidade.

E o que reconquista o coração? A oração. A oração é a ação do coração novo, daquele que busca conformar o seu coração ao de Cristo. Pensa numa coisa que é até engraçada de tão verdadeira: quando a gente convive muito com alguém — um amigo, quando namora, quando casa —, pela força da convivência a gente vai se parecendo. Às vezes até fisicamente, mas sobretudo na personalidade, nos hábitos, no jeito de falar. A gente absorve um pouco do outro e passa um pouco pro outro. Pois então: se a gente quer que o nosso coração seja como o Coração de Cristo, a oração é a forma por excelência, porque a oração é a comunicação, é o relacionamento com o Senhor. Quem convive, se parece.

Por que a paróquia, e não só o meu quarto?

Aqui vem a pergunta que sempre aparece. “Mas eu não posso rezar na minha casa?” Claro que pode. “Não posso rezar no meu trabalho?” Deve! A gente não está dizendo que a paróquia é o único lugar de oração. O que a gente está dizendo é que ela é o lugar por excelência — a casa de oração por excelência.

E por quê? Porque é ali que a gente encontra o Deus feito carne, feito pão. É ali que a gente ouve o Deus que é Verbo. É o lugar dos sacramentos, como vimos no segundo dia. Portanto é o lugar onde a gente mais consegue se aproximar dele pra responder a esse amor.

A comparação que ajuda é a da amizade. Imagina um amigo que mora na mesma rua, no mesmo bairro, acessível, fácil de visitar. E vocês falam no WhatsApp o tempo todo, comentam foto no Instagram, fazem live juntos. E toda semana ele te convida pra jantar na casa dele, pra assistir um jogo — a Copa do Mundo começou hoje, vamos assistir junto. E tu nunca aceita. “Não, pra mim é suficiente a gente falar por WhatsApp. Nossa relação já está em todo lugar, eu falo contigo de qualquer canto, pra que eu preciso te visitar?” Que tipo de amizade é essa, em que nunca se está presente? Que amizade é essa que se contenta com o contato mínimo, o mais distante, o mais cômodo — e que, quando aperta um pouquinho a preguiça, a vaidade, o ego, já desiste?

Com Deus é a mesma coisa. Eu posso rezar o dia inteiro, em qualquer lugar — e devo. Mas se eu não tenho vida de paróquia, essa oração vai estar sempre um pouco afastada da fonte. Não estar lá, podendo estar, afasta a nossa vida espiritual, afasta a nossa caminhada em busca da santidade.

A presença não se terceiriza

É isso que me atravessou nesta meditação: buscar o coração de volta — o coração da humanidade, o meu coração — é se relacionar com Aquele que tem o Coração perfeito, o Coração modelo, com Aquele que criou o nosso coração. E esse relacionamento, como toda amizade de verdade, pede presença. Não basta o contato cômodo à distância.

A paróquia tem a primazia da vida de oração não por um capricho, mas porque é ali que mora o Deus feito pão e a Palavra que se faz ouvir. Rezar em casa é bom, é necessário, é devido. Mas a presença não se terceiriza. E o Coração que nos espera lá é um Coração que amou primeiro — e que continua esperando a nossa resposta.

Concorda? Discorda? Me conta. E me encontra na próxima reflexão da Setena, ou no Todo Santo Dia de amanhã, dia do Sagrado Coração de Jesus.

TL
Thiago Lacerda
Colunista do Hub Católico