Tem um assunto que todo católico acha que entende — e quase ninguém entende até o fim: o perdão. A gente fala dele o tempo todo. Reza, na oração que o próprio Cristo ensinou, “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. E, mesmo assim, carrega uma névoa silenciosa sobre o que perdoar significa de verdade.
Essa reflexão nasceu da homilia do Pe. Darlan Schwaab na Setena do Sagrado Coração de Jesus, a festa da minha paróquia. O tema do dia era exatamente esse: o Coração de Jesus que perdoa e reconcilia — e a paróquia como o lugar onde se cultiva o perdão.
Perdoar não é esquecer
Começo por onde uma boa definição precisa começar. E aqui eu acrescento uma coisa que é minha, não do padre — mas que me parece verdadeira: esquecer não faz parte do perdão. Pelo contrário.
Quando a gente esquece uma ofensa, não está perdoando. Está apenas deixando pra trás. E são coisas diferentes. O perdão pressupõe que algo aconteceu de verdade — uma ofensa real, uma ferida real. Se o erro foi esquecido, ou se nunca tivesse existido, não haveria o que perdoar. A gente perdoa aquilo que de fato aconteceu.
Por isso eu diria que esquecer é o caminho contrário do perdão. Perdoar é o oposto: é lembrar e, ainda assim, amar. É amar apesar daquilo.
O Coração chagado
Foi aqui que o Pe. Darlan clareou tudo, com uma imagem que está diante dos nossos olhos desde o primeiro dia desta Setena: o próprio Coração de Jesus.
Repara em como Ele é retratado. Um coração vivo, em chamas — mas coroado de espinhos, com a ferida aberta, muitas vezes sangrando, encimado pela cruz. Não é um coração que esqueceu. Não é um coração que fechou a ferida e seguiu em frente como se nada tivesse acontecido. É um coração que carrega as chagas e mesmo assim arde de amor. As feridas continuam ali. O amor, também.
Esse é o modelo. Perdoar é isto: amar com a ferida ainda aberta — não fingir que ela nunca existiu.
A paróquia é o lugar do perdão
E aqui entra o que a gente vem construindo, dia após dia, nesta Setena — não fui eu que armei essa construção, foi muito bem pensada pelos sacerdotes que pregaram. Vimos que a paróquia é o lugar da vida do católico; que o seu centro é a Eucaristia; que ali se ensina e se ouve a Palavra. Estabelecemos que a vida ordinária do católico acontece na paróquia.
Só que aí surge a pergunta inevitável: e quando eu falho? Quando, em algum momento, eu faço algo que contradiz, que ofende a Deus, que é o centro dessa comunidade? Eu posso simplesmente voltar a comungar como se nada fosse? Posso fingir que nada aconteceu? Não. É preciso pedir perdão. É a mesma lógica do sacramento da Reconciliação.
E tem um detalhe que me atravessou. Quando Cristo aparece a Saulo, o perseguidor, Ele não diz “por que persegues a minha comunidade?”, nem “por que persegues o meu povo?”. Ele diz: “Saulo, por que me persegues?”. Porque ao perseguir aquelas pessoas, Saulo perseguia o próprio Cristo. Vale para nós, ao contrário: quando eu, dentro da paróquia, ofendo alguém, falo mal, tramo, puxo o tapete — ou quando exerço uma liderança sem responsabilidade, sem método, sem me dedicar o suficiente —, eu não estou fazendo isso só para aquela pessoa ou para a comunidade. Estou fazendo isso a Cristo.
São Barnabé, e a providência do dia
Não foi coincidência. Hoje é dia de São Barnabé — e a festa do Sagrado Coração é móvel, então os dias da Setena mudam a cada ano, mas São Barnabé cai sempre no mesmo dia. A Providência cuida dos detalhes.
São Barnabé foi justamente aquele que recebeu São Paulo e convenceu os apóstolos de que o antigo perseguidor havia mudado, de que merecia o perdão e um lugar entre eles. A história da Igreja teria sido outra se São Barnabé não tivesse exercido o perdão que se exerce na comunidade. E há ainda o segundo ato: mais tarde, ele rompe com São Paulo numa divergência — porque acredita que São Marcos, que tinha desistido de uma missão no meio do caminho, merecia uma segunda chance. Dos dois lados, São Barnabé é o homem do perdão.
A reconciliação não cabe só no meu coração
E aqui está, talvez, a parte mais difícil. O perdão não termina dentro de mim. Eu posso, como ofendido, já me colocar numa atitude de perdão — amar aquela pessoa apesar de tudo, mesmo que ela nunca me peça perdão. Mas a reconciliação plena, aquela que se vive na comunidade, vai além: ela pede iniciativa, conversa, aberturas que nem sempre são dadas. Existem situações que se tornam intrincadas, em que não basta eu desejar o perdão ou acreditar que perdoei. É preciso uma série de gestos, de aceites, de sinais, para que ela aconteça de fato.
Eu sei bem como isso é difícil. Recebo muitas mensagens de vocês sobre as dores da vida paroquial — o que o padre fez, o que o coordenador fez, se é hora de sair da paróquia. Eu vivo as minhas próprias. E ainda assim: nada disso torna lícito não estar disposto a perdoar. A paróquia continua sendo o lugar do perdão. Porque o Coração que reina nela é um Coração ferido — que nunca deixou de amar.