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A PARÓQUIA FORMA DISCÍPULOS

Tem uma pergunta que eu ouço o tempo todo de quem está chegando agora na fé: “Thiago, como é que eu faço pra ser paroquiano?”. E a minha resposta sempre começa no mesmo lugar — começa pela missa dominical, pela Eucaristia vivida na comunidade. Mas chegou o dia, nesta Setena, em que eu precisei dar um passo a mais nessa resposta. Porque ser paroquiano não termina ali.

Essa reflexão nasce do terceiro dia da Setena do Sagrado Coração de Jesus, a festa da minha paróquia — o nosso titular, o nosso padroeiro. É uma festa diferente da maioria das que vocês conhecem: ela é móvel, não tem dia fixo no calendário. Cai sempre na sexta-feira da semana seguinte ao Corpus Christi. Por isso os dias da Setena dançam de ano pra ano. E, dia após dia, um sacerdote convidado prega sobre um aspecto do Coração de Jesus espelhado na vida da paróquia.

A homilia deste dia foi do Pe. Charles, um padre jovem da Arquidiocese de Porto Alegre — e o tema era preciso: o Coração de Jesus que forma discípulos, e a paróquia como o lugar de ensino da Palavra.

Onde a gente parou — e o passo a mais

Repara na construção. Não fui eu que armei isso; foi muito bem pensado pelos sacerdotes que pregaram, cada um no seu dia. No primeiro dia vimos a paróquia como o lugar da vida ordinária do católico. No segundo, vimos que o centro dessa comunidade é a Eucaristia. E agora, no terceiro, damos um passo a mais: a Palavra que faz parte da liturgia da Eucaristia, que está em volta da vivência da comunidade, é aquela que forma discípulos.

Quer dizer: quem vive a Eucaristia em comunidade, quem vive o centro da comunidade, também vive uma formação. Também se torna discípulo. Não por acaso o Coração de Jesus é o logo da minha paróquia, e está sempre inserido na temática da festa — Ele de fato é o alvo, é o centro da paróquia. De toda paróquia, não só da minha.

Que catequese é essa

E aqui eu preciso ser exato sobre uma palavra, pra ninguém entender errado. Quando o Pe. Charles fala em paróquia como escola de discípulos, não estou falando de catequese de primeira comunhão, de catequese de crisma. Estou falando da catequese de vida — o nosso ensino para a santidade. Aquilo que se aprende não numa sala, mas na vivência da comunidade.

A gente aprende, claro, no ensino da Palavra, que foi o centro da homilia. Mas a gente aprende também na vivência pastoral, nos eventos, trazendo a família pra dentro. A gente aprende sendo um ser humano dentro daquele grupo de pessoas — um ser social, num ambiente social, que é um ambiente católico. É ali que isso acontece.

Por que isso me move

E aqui entra uma coisa que eu falo há muito tempo, e que — confesso — é boa parte da motivação que me fez abrir o Diário de um Paroquiano de Aldeia, lá quando era um projeto solo, antes de estar dentro do Hub Católico. É o seguinte: por décadas, boa parte das paróquias, em vários momentos, ou abriu mão ou não conseguiu ser de fato essa catequese, essa escola de discípulos.

Graças a Deus a gente está vendo isso voltar em muitos lugares. Mas o trabalho do dPA nasceu pra conscientizar esta geração — e eu não me limito a ela, mas falo especialmente desta geração que se converteu fora da paróquia, ou que se converteu apesar da paróquia. Gente que encontrou a fé num curso, num canal, num livro, mas longe da comunidade. O que eu preciso dizer pra essas pessoas é: vocês precisam da paróquia. E vocês têm que estar lá, pra que as paróquias voltem a ter o seu vigor, a cumprir a sua missão.

Não é que a paróquia seja o único lugar de aprendizado. Ninguém vai deixar de assinar um curso do Pe. Paulo Ricardo porque “tem que aprender só na paróquia” — de jeito nenhum, não é isso. Mas a gente não pode excluir a paróquia do seu lugar natural. A paróquia e a família são os que ensinam o catolicismo, que convertem, que dão o catolicismo como herança. Perdemos isso nas últimas décadas. Recuperar faz parte do trabalho.

Não é um balcão de sacramentos

O Pe. Charles reforçou uma frase que já tinha aparecido nos outros dias, e que vale repetir: a paróquia não é um balcão de sacramentos. Falamos que a Eucaristia é o centro da comunidade — e de fato é. Mas aqui se avança um passo.

Eu disse no dia anterior que ser paroquiano começa por celebrar a Eucaristia na comunidade, na tua mesa paroquial, sem ficar pipocando de paróquia em paróquia. E se tu já faz isso, ó, tu já está muito à frente na vida comunitária. Mas a formação como discípulo — no fim, como católico, como evangelizador, como alguém que busca a santidade — tem que se dar também na paróquia.

E tem um caráter missionário nisso que eu não quero deixar passar, porque é dele que tudo depende. A comunidade não existe voltada pra dentro, pros seus próprios indivíduos. Ela existe voltada pra salvação das almas. Quanto mais almas ali estiverem, mais almas serão salvas. No fundo, a gente está falando da certeza que a Igreja tem de que a salvação está na Igreja Católica. E se eu amo aqueles que estão fora, o que eu quero é que eles estejam dentro. Não há motivo nenhum pra eu não querer isso.

Viver bem a Eucaristia é viver esse “além”

É uma evolução muito inteligente de conteúdo, esse terceiro dia — um aprofundamento. Entender que, pra além da Eucaristia em comunidade, há muito mais. E que viver bem a Eucaristia é justamente viver esse “além”.

A Eucaristia não se limita ao instante em que a hóstia toca a minha língua. Ela me projeta pros outros momentos da vida de comunidade. E o primeiro momento pra onde ela me projeta — que é, ao mesmo tempo, uma preparação pra ela própria — é o momento do aprendizado, do ensino da Palavra. É ali que o discípulo se forma.

Concorda? Discorda? Me conta. E eu te espero amanhã, pra mais uma reflexão desta Setena.

TL
Thiago Lacerda
Colunista do Hub Católico