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Patrono

OS DOIS NOMES QUE VOCÊ REZA NA MISSA SEM SABER QUEM SÃO

Existe uma lista de nomes que você talvez já tenha rezado dezenas de vezes sem nunca ter parado para perguntar quem são. Ela está dentro da missa — não em qualquer missa, mas na mais solene, aquela em que o padre escolhe a Oração Eucarística I, o velho Cânon Romano. Em certo momento, ele começa a recitar uma fileira de mártires antigos: Lino, Cleto, Clemente, Sisto, Cornélio, Cipriano, Lourenço, Crisógono, João e Paulo, Cosme e Damião. E, no meio dessa fileira, dois nomes que passam depressa, colados um no outro como irmãos: Marcelino e Pedro.

Quem foram esses dois? A pergunta parece pequena. Não é. Porque a resposta diz muito sobre o tipo de santidade em que vale a pena apostar a própria vida.

Dois trabalhadores da fé

Estamos no começo do século IV, em Roma, durante a perseguição de Diocleciano — a mais sistemática de todas, a última grande tentativa do império de apagar o cristianismo do mapa. E os dois homens desta história não são figuras de poder. São Marcelino era um presbítero, um padre. São Pedro era um exorcista — naquele tempo, uma das ordens menores, um ministério de bastidor da Igreja. Não eram bispos famosos nem intelectuais célebres. Eram gente miúda, do clã obscuro dos que servem sem aparecer.

Guarde isso, porque é o coração de tudo o que vem a seguir: Deus escolheu dois ninguéns.

A crueldade a mais

Presos na perseguição, confessaram a fé sem recuar e foram condenados à morte. Até aí, a sorte de tantos. Mas os juízes quiseram acrescentar uma crueldade a mais. Em vez de matá-los em praça pública, mandaram levá-los a um descampado, no meio de uma floresta, e ali — conta a tradição, recolhida pelo próprio papa São Dâmaso, que ouviu o relato da boca de quem tinha sido o executor — obrigaram os dois a cavar, com as próprias mãos, a cova onde seriam enterrados.

Pare um instante nessa cena. Dois homens, de joelhos na terra, abrindo o próprio túmulo, sabendo que dali a pouco morreriam ali. E não recuam. Cavam. São decapitados naquele lugar escondido, sem nenhuma testemunha além do carrasco e de Deus. A intenção era limpa e fria: que os cristãos jamais descobrissem onde estavam os corpos, para não terem onde rezar, onde venerar, onde lembrar. Apagar a memória.

O que os carrascos não calcularam

Deu tudo errado para eles. Uma mulher cristã, chamada Lucina, descobriu o lugar. Foi até lá, recolheu os corpos dos dois mártires e deu a eles um sepultamento digno, em Roma, junto à Via Labicana, num cemitério que se tornaria célebre. E aqueles dois homens que tinham sido escondidos no mato viraram um lugar de peregrinação. O imperador Constantino mandou erguer uma grande basílica sobre o túmulo deles. E foi nessa mesma basílica que a própria mãe de Constantino, Santa Helena, quis ser sepultada — para ficar perto de São Marcelino e São Pedro.

É aquela coisa que acontece o tempo todo na história da Igreja, e que nunca deixa de ser bonita: tentaram apagar dois ninguéns, e Deus fez desses dois ninguéns um nome que o mundo reza até hoje.

Por que isso está na missa

Porque os nomes deles entraram no Cânon Romano. Há mil e setecentos anos, quando o padre, na missa solene, chega àquela parte e vai recitando os mártires — “Marcelino e Pedro” —, são eles: o padre e o exorcista que cavaram a própria cova. A Igreja não os esqueceu. Pelo contrário: amarrou o nome deles ao centro de tudo, à Eucaristia, ao ponto mais alto da oração cristã.

E aqui está a lição que eu queria deixar com você, sem transformá-la em sermão. Nós vivemos rodeados de santos sem perceber. Rezamos nomes de santos sem saber quem são. A santidade que de fato muda o mundo quase nunca é a barulhenta — a dos gestos espetaculares, a que rende manchete. É a fiel. A de um padre e de um exorcista anônimos que, postos diante da escolha entre a verdade e a vida, escolheram a verdade e foram cavar, em silêncio, a própria sepultura.

No dia em que você descobre quem foi um santo, aquele nome para de ser uma palavra solta na missa e vira um amigo: alguém de quem você pode se lembrar, por quem pode pedir, e que pode pedir por você. Não precisa de muito. Às vezes precisa só de saber a história.

Da próxima vez que o padre rezar “Marcelino e Pedro”, você vai saber quem são. E isso muda a missa.

TL
Thiago Lacerda
Colunista do Hub Católico