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Cruzes

QUEM MERECE AMOR?

Ninguém merece amor, diz um; Todos merecem amor, diz outra;
Afinal, quem é que merece amor?

Caro leitor, já aviso de antemão que este não será um texto sobre a justiça do amor, tampouco sobre méritos e honrarias que possam te fazer merecedor dele. Também ao incauto seguidor que aqui chegou em primeira viagem, indico-lhes a leitura de alguns artigos – especialmente os já citados inicialmente: NINGUÉM MERECE AMOR, deste autor que vos fala; e TODOS MERECEM AMOR, da queridíssima E.R. Dickel – entre outros que podem ser facilmente encontrados na página inicial deste blog. Assim partiremos todos de algumas premissas já trabalhadas.

Voltemos, pois, ao amor!

Para saber quem o merece, precisamos entender o que é o amor. Uma decisão? Uma virtude? Na verdade, ambas estão corretas, mas, sobretudo,

O Amor é uma pessoa!

E não qualquer pessoa. O Amor não foi amado e por amor, entregou-se. Por este ângulo é muito mais fácil entender porque ninguém merece Amor. Acaso algum de nós pensa-se digno do sacrifício de Jesus Cristo? Ainda que enfrentássemos o martírio na cruz por um dos nossos, teríamos nós alcançado o mesmo patamar da entrega do Salvador? Nenhuma dor humana terá a capacidade de aproximar-se da doação daquEle que é, por excelência, O próprio Amor.

Mas, de fato, ele foi transpassado por causa das nossas próprias culpas e transgressões, foi esmagado por conta das nossas iniquidades; o castigo que nos propiciou a paz caiu todo sobre ele, e mediante suas feridas fomos curados.

Is 53,5

Mas e pensando no amor mais “terreno”, na expressão do amor? Além de Pessoa, poderia o amor ser virtude? ou seria decisão?

O amor é uma virtude

Se já concluímos que Deus é Amor – vocês não acreditaram quando São João disse e precisaram me ouvir dizer? Tá lá em 1 Jo 4,8 – como poderia ser uma decisão? Decisão é algo íntimo e pessoal: eu preciso tomar minha própria decisão, já que se tomada por outro, a decisão é dele, e não minha. É claro que é uma virtude. E quem disse isso também não fui eu, mas o próprio magistério da Igreja na compreensão do que disse São Paulo em sua primeira carta à comunidade de Corinto (1 Cor 13, 13); é ali, ao final do conhecidíssimo Hino de Amor, que o Apóstolo das Nações cita aquelas que conhecemos como virtudes teologais: a fé, a esperança e o AMOR.

Então, sim, o amor é uma virtude. E, como tal, vem de Deus; um dom; um presente; O próprio Catecismo da Igreja Católica (n. 1812) nos lembra que as “virtudes teologais adaptam as faculdades do homem à participação na natureza divina”. Pelo amor – virtude teologal – nos aproximamos de Deus. Como poderíamos nós, por iniciativa própria, alcançarmos Ele, senão por iniciativa Dele próprio? O amor é virtude. Logo, todos merecem amor? Não é bem assim.

O amor é uma decisão

Ainda que Deus seja a origem e o próprio amor, o nosso livre arbítrio exige que tomemos a DECISÃO de recebê-lo a cada momento. Amar é uma virtude ativa. O Senhor nos presenteia com o amor, mas nem todos aceitam essa dádiva. Amar é difícil e requer renúncia; é, tá aí algo que ninguém quer saber mais: renúncia.

“Se alguém quiser me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”

Mt 16,24

Renunciar-se a si mesmo e aceitar a sua cruz não é fácil. Não é apenas uma decisão. É uma decisão que só pode ser tomada, de fato, com determinada determinação, como dizia Santa Teresa d’Ávila. Apesar de presente, é necessário esforço quase sobre-humano para amar. Se não há esforço, ainda não há amor. Eis o nosso erro: não saber, em verdade, o que é o amor. Pode haver carinho, afeto, paixão, amizade, preocupação e diversos outros sentimentos, mas sem a dificuldade, a renúncia, o esforço, não há amor. A cada novo dilema precisamos decidir pela cruz, abandonando as nossas vontades, para que então seja amor. E tudo bem, é bem difícil mesmo, e muitas, e muitas, e muitas vezes, não conseguiremos. Lembra que isso aqui não é um texto sobre justiça? Não faço aqui um julgamento de quem ama ou não, quantas vezes e com qual intensidade.

Todos merecem amor, mas ninguém merece amor. Afinal, quem merece amor?

Não, isso não é um diálogo esquizofrênico, muito menos um texto filosófico que termina dizendo que a dúvida é mais importante que a certeza; e também não caia nessa de pensar que tem que escolher um time. Se até aqui você era #teamTodosMerecem ou #teamNinguémMerece, é a hora de abrir os olhos.

Ninguém é digno do amor; ninguém deve exigir o amor; nem os maiores santos foram merecedores de amor. Nada que façamos poderá gerar uma dívida paga com amor. Simples. Nada no MUNDO está à altura do amor.

Mas o amor é, de fato, amor, quando é DADO SEM MERECIMENTO. E como NENHUM DE NÓS MERECE AMOR, todos merecem amor. Complicado? Na verdade, é mesmo. Deus é assim mesmo, meus amigos. Dois milênios de história não o puderam compreender, quem dirá nós, em nossos 15, 20 ou 40 anos. Mas vamos tentar facilitar um pouco as coisas:

Receba como se ninguém merecesse o amor; Ame como se todos merecessem o amor.

Decida amar por amor; Quando for amado, surpreenda-se, regozije-se, fique feliz por ganhar de alguém algo que você jamais mereceria. Quando olhar o outro, ame por entender que aquela alma precisa de amor; ame porque o seu amor pode ser o detalhe que Deus planejou para salvar aquela vida.


Ouça também esse artigo lido pelo próprio autor.

TL
Thi Lacerda
Colunista do Hub Católico

Texto recuperado do arquivo histórico do Hub Católico (publicado originalmente em 3 de fevereiro de 2020). Importação fiel ao original.