Ninguém merece amor, diz um; Todos merecem amor, diz outra;
Afinal, quem é que merece amor?
Caro leitor, já aviso de antemão que este não será um texto sobre a justiça do amor, tampouco sobre méritos e honrarias que possam te fazer merecedor dele. Também ao incauto seguidor que aqui chegou em primeira viagem, indico-lhes a leitura de alguns artigos – especialmente os já citados inicialmente: NINGUÉM MERECE AMOR, deste autor que vos fala; e TODOS MERECEM AMOR, da queridíssima E.R. Dickel – entre outros que podem ser facilmente encontrados na página inicial deste blog. Assim partiremos todos de algumas premissas já trabalhadas.
Voltemos, pois, ao amor!
Para saber quem o merece, precisamos entender o que é o amor. Uma decisão? Uma virtude? Na verdade, ambas estão corretas, mas, sobretudo,
O Amor é uma pessoa!
E não qualquer pessoa. O Amor não foi amado e por amor, entregou-se. Por este ângulo é muito mais fácil entender porque ninguém merece Amor. Acaso algum de nós pensa-se digno do sacrifício de Jesus Cristo? Ainda que enfrentássemos o martírio na cruz por um dos nossos, teríamos nós alcançado o mesmo patamar da entrega do Salvador? Nenhuma dor humana terá a capacidade de aproximar-se da doação daquEle que é, por excelência, O próprio Amor.
Mas, de fato, ele foi transpassado por causa das nossas próprias culpas e transgressões, foi esmagado por conta das nossas iniquidades; o castigo que nos propiciou a paz caiu todo sobre ele, e mediante suas feridas fomos curados.
Mas e pensando no amor mais “terreno”, na expressão do amor? Além de Pessoa, poderia o amor ser virtude? ou seria decisão?
O amor é uma virtude
Se já concluímos que Deus é Amor – vocês não acreditaram quando São João disse e precisaram me ouvir dizer? Tá lá em 1 Jo 4,8 – como poderia ser uma decisão? Decisão é algo íntimo e pessoal: eu preciso tomar minha própria decisão, já que se tomada por outro, a decisão é dele, e não minha. É claro que é uma virtude. E quem disse isso também não fui eu, mas o próprio magistério da Igreja na compreensão do que disse São Paulo em sua primeira carta à comunidade de Corinto (1 Cor 13, 13); é ali, ao final do conhecidíssimo Hino de Amor, que o Apóstolo das Nações cita aquelas que conhecemos como virtudes teologais: a fé, a esperança e o AMOR.
Então, sim, o amor é uma virtude. E, como tal, vem de Deus; um dom; um presente; O próprio Catecismo da Igreja Católica (n. 1812) nos lembra que as “virtudes teologais adaptam as faculdades do homem à participação na natureza divina”. Pelo amor – virtude teologal – nos aproximamos de Deus. Como poderíamos nós, por iniciativa própria, alcançarmos Ele, senão por iniciativa Dele próprio? O amor é virtude. Logo, todos merecem amor? Não é bem assim.
O amor é uma decisão
Ainda que Deus seja a origem e o próprio amor, o nosso livre arbítrio exige que tomemos a DECISÃO de recebê-lo a cada momento. Amar é uma virtude ativa. O Senhor nos presenteia com o amor, mas nem todos aceitam essa dádiva. Amar é difícil e requer renúncia; é, tá aí algo que ninguém quer saber mais: renúncia.
“Se alguém quiser me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”
Renunciar-se a si mesmo e aceitar a sua cruz não é fácil. Não é apenas uma decisão. É uma decisão que só pode ser tomada, de fato, com determinada determinação, como dizia Santa Teresa d’Ávila. Apesar de presente, é necessário esforço quase sobre-humano para amar. Se não há esforço, ainda não há amor. Eis o nosso erro: não saber, em verdade, o que é o amor. Pode haver carinho, afeto, paixão, amizade, preocupação e diversos outros sentimentos, mas sem a dificuldade, a renúncia, o esforço, não há amor. A cada novo dilema precisamos decidir pela cruz, abandonando as nossas vontades, para que então seja amor. E tudo bem, é bem difícil mesmo, e muitas, e muitas, e muitas vezes, não conseguiremos. Lembra que isso aqui não é um texto sobre justiça? Não faço aqui um julgamento de quem ama ou não, quantas vezes e com qual intensidade.
Todos merecem amor, mas ninguém merece amor. Afinal, quem merece amor?
Não, isso não é um diálogo esquizofrênico, muito menos um texto filosófico que termina dizendo que a dúvida é mais importante que a certeza; e também não caia nessa de pensar que tem que escolher um time. Se até aqui você era #teamTodosMerecem ou #teamNinguémMerece, é a hora de abrir os olhos.
Ninguém é digno do amor; ninguém deve exigir o amor; nem os maiores santos foram merecedores de amor. Nada que façamos poderá gerar uma dívida paga com amor. Simples. Nada no MUNDO está à altura do amor.
Mas o amor é, de fato, amor, quando é DADO SEM MERECIMENTO. E como NENHUM DE NÓS MERECE AMOR, todos merecem amor. Complicado? Na verdade, é mesmo. Deus é assim mesmo, meus amigos. Dois milênios de história não o puderam compreender, quem dirá nós, em nossos 15, 20 ou 40 anos. Mas vamos tentar facilitar um pouco as coisas:
Receba como se ninguém merecesse o amor; Ame como se todos merecessem o amor.
Decida amar por amor; Quando for amado, surpreenda-se, regozije-se, fique feliz por ganhar de alguém algo que você jamais mereceria. Quando olhar o outro, ame por entender que aquela alma precisa de amor; ame porque o seu amor pode ser o detalhe que Deus planejou para salvar aquela vida.
Ouça também esse artigo lido pelo próprio autor.
Texto recuperado do arquivo histórico do Hub Católico (publicado originalmente em 3 de fevereiro de 2020). Importação fiel ao original.