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POR QUE A IGREJA PÔS NO ALTAR O HOMEM QUE LIMA PÔS NO ÚLTIMO LUGAR?

Paul R. Burley, imagem de São Martinho de Porres (séc. XIX), Igreja da Ordem Terceira de São Domingos, Salvador (2018), recortada · Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Hoje, 3 de novembro, a Igreja recorda São Martinho de Porres, religioso da Ordem dos Pregadores, morto em Lima em 1639. E é provável, caro leitor, que já o conheças de cartão-postal: o frade de vassoura na mão. Fica-se com a ternura da imagem e perde-se o escândalo da biografia. Porque este santo nasceu no lugar exato em que a sociedade do seu tempo colocava as pessoas para esquecê-las; viveu ali, servindo; e a Igreja, passados os séculos, o inscreveu entre os santos. A pergunta que ele nos deixa é incômoda: quem decide quem vale o quê?

O filho que ninguém reconhecia

São Martinho de Porres nasceu em Lima, em 1579, filho de um fidalgo espanhol e de uma mulher negra liberta, Ana Velázquez. Era filho ilegítimo; o pai só o reconheceria anos depois. Tinha, portanto, dois sinais contra si naquela ordem de coisas: a cor da mãe e a falta do nome do pai. O mundo, quando classifica, costuma ser rápido e pouco criativo; separa, rotula, arquiva.

Aos doze anos, o menino já era aprendiz de barbeiro-cirurgião. Convém não passar por cima disso. Foi numa oficina modesta que São Martinho de Porres aprendeu o ofício que levaria para a enfermaria: tratar o corpo ferido de um homem sem perguntar de quem ele era filho.

A porta que se abriu pela metade

Quando bateu à porta dos dominicanos, não o receberam como frade. Por ser mulato, foi aceito como auxiliar, donado, sem direito ao hábito. Eis o paradoxo da casa de Deus nas mãos dos homens: a casa era de pregadores, gente da Palavra, e a porta do convento ainda calculava a quem deixar passar inteiro.

Eu sei o que estás pensando: um santo de verdade teria se revoltado. Pois repara no que ele fez. Ficou. Trabalhou. Em 1603, professou como irmão cooperador, e a própria casa que o admitira pela metade viu-se obrigada a reconhecê-lo por inteiro. Sem alarde de protesto, com uma fidelidade tão paciente que a injustiça ficou sem chão para se sustentar.

A vassoura e a enfermaria

Do convento do Rosário, em Lima, ele assumiu a enfermaria. Ali tratava frades, nobres e escravos, na mesma sala e com as mesmas mãos. Foi barbeiro do convento, deu conselhos de saúde, aplicou a arte aprendida na oficina da infância. O Martirológio Romano, na edição de 2004, resume a vida dele em poucas linhas: a arte médica posta “em favor dos pobres”, o jejum, a penitência e a oração, a existência áspera e humilde, “irradiante de caridade”.

Segundo a tradição, os frades o chamavam “Frei Vassoura”, e a vassoura e a cruz teriam sido as suas duas companheiras. Que seja assim. A vassoura limpa o chão que ninguém quer limpar; a cruz sustenta o que nenhuma vassoura alcança. Daí a palavra humildade, do latim humilitas, que vem de humus, a terra. Humilde é quem se deixa pôr rente ao chão; só que o chão, em Lima como em qualquer lugar, é onde os pobres estão deitados.

E aqui se desfaz a falsa ideia de que humildade seja encolher-se. Nosso Senhor propôs: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Quem a recebe de Cristo levanta-se e serve. São Martinho de Porres varria, e também tratava, alimentava, acolhia. A tradição lhe atribui uma escola para crianças pobres, a bondade com os animais e, num episódio curioso, ratos que teriam saído do convento depois de lhes ser prometido alimento. Há quem sorria. Eu prefiro ver ali um homem para quem nenhuma criatura, por mais pequena, estava fora do alcance da misericórdia.

A compaixão antes da limpeza

Uma frase lhe é atribuída pelo Vatican News, e ela diz tudo: “A compaixão, meu irmão, é preferível à limpeza.”

Repara no peso dela, vinda de quem era um homem de vassoura. Ele sabia o valor da limpeza; viveu dela. E ainda assim ensina que existe uma ordem de coisas em que a pureza da casa vem depois do socorro ao irmão. Outro relato do Vatican News o mostra dizendo: “Não venda os objetos, me venda como escravo.” Quem fala assim já deixou de contar o que possui; conta apenas o que pode dar.

É a lógica do Evangelho em estado quase puro: “Tive fome e me destes de comer; estava doente e me visitastes.” E, à pergunta de quando foi que isso se fez a Ele, a resposta: “Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35-40). A enfermaria do convento do Rosário foi, durante anos, o lugar onde essa passagem se cumpria à letra. Por isso o povo de Lima dava a São Martinho de Porres um nome que nenhuma cátedra lhe teria conferido: Martín de la Caridad.

O que São João XXIII enxergou

Passaram-se séculos. Ele foi beatificado em 1837, por Gregório XVI. Em 1945, Pio XII o proclamou patrono das instituições sociais da República do Peru. E em 6 de maio de 1962, São João XXIII o canonizou. Na homilia, o Papa disse julgar muito oportuno que, no ano em que se haveria de celebrar o Concílio, fosse ele inscrito no catálogo dos santos. A escolha do momento é eloquente. Na hora em que a Igreja se preparava para falar de si mesma ao mundo, apresentava ao mundo um irmão leigo, filho sem pai, mulato, enfermeiro, varredor.

O Papa lembrou que São Martinho de Porres favoreceu camponeses, negros e mestiços, e que ganhou o coração de gente de raças e procedências as mais diversas, porque amava a todos como irmãos, por serem filhos de Deus. Tudo o que a sociedade usava para separar, ele ignorava; tudo o que a fé afirma para unir, ele tomava ao pé da letra. No discurso do dia seguinte, São João XXIII chamou-o “humilde irmão leigo da Ordem dos Pregadores” e “o anjo de Lima”, e apontou os três amores que lhe sustentaram a vida: Cristo crucificado, Nossa Senhora do Rosário e São Domingos.

Há ainda um detalhe que a Igreja guarda com cuidado. Segundo o Vaticano, ele foi batizado na mesma pia de Santa Rosa de Lima. Uma só fonte, duas vidas; duas santidades que nasceram do mesmo gesto simples, a água sobre a testa de uma criança. E o Vatican News registra que, vinte e cinco anos depois da morte, seu corpo foi encontrado incorrupto. Que Deus honre o corpo de quem honrou os corpos dos outros, não me parece nenhum exagero.

Quem varre hoje o teu chão?

São Martinho de Porres morreu em 3 de novembro de 1639, aos 59 anos. A Igreja o recorda hoje, em memória facultativa, e a facultatividade faz parte da lição: ninguém te obriga a lembrar de quem nunca exigiu que lembrassem dele.

Pergunta-te, então, caro leitor: quem, na tua paróquia, no teu trabalho, na tua rua, está sendo mantido no último lugar por causa da cor, do sobrenome, da origem, do que os outros já decidiram sobre ele? E, mais perto: em qual desses últimos lugares tu mesmo te deixas pôr?

Pega a vassoura. Entra na enfermaria. Visita quem ninguém visita; acolhe o filho sem nome; trata o doente que o mundo classificou. Cristo está lá, e o que fizeres a Ele, é a Ele que fazes.

São Martinho de Porres, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico