Hoje, 27 de outubro, o Martirológio Romano manda lembrar Santo Evaristo, papa, e o faz em uma frase: “Em Roma, Santo Evaristo, papa, que dirigiu a Igreja Romana como quarto sucessor de São Pedro, no tempo do imperador Trajano.” Sem milagre, sem sentença, sem cena de tribunal. Caro leitor, aviso desde já: quase tudo o que se pode afirmar com segurança sobre ele cabe nessa linha. O resto pertence à tradição, e a cada passo vou dizer em qual das duas terras estamos pisando.
O que está documentado
O elogio do Martirológio Romano de 2004 diz três coisas. Que Santo Evaristo esteve em Roma; que foi papa, à frente da Igreja Romana; que ocupou o lugar de quarto sucessor de São Pedro, no tempo do imperador Trajano. O mesmo Martirológio fixa, como ano de morte, o 108, e a ressalva cabe no próprio adjetivo: é o ano tradicional.
Faça a conta do “quarto sucessor”, que ela diz muito: antes dele, a cadeira de São Pedro já havia passado de mão em mão por três sucessores. Santo Evaristo entra, portanto, no meio de uma corrente que se movia sem pausa, de um pescador para outro homem, e de outro homem para outro ainda.
O que a tradição acrescenta
A tradição, recolhida no Liber Pontificalis e retomada por Rohrbacher nas Vidas dos Santos, acrescenta o seguinte: Santo Evaristo sucedeu a São Clemente I; era grego, de Antioquia, filho de pai judeu, e a tradição situa o seu nascimento em Belém. Governou a Igreja por nove anos e dez meses, atravessando os reinados de Domiciano, morto em 96, de Nerva, de 96 a 98, e de Trajano, morto em 117.
Repare no desenho. Um grego que carrega o sangue de Israel e nasce na terra onde nasceu Nosso Senhor, para governar em Roma a Igreja de todos os povos. Não garanto cada ponto desse desenho; garanto apenas que a tradição o transmitiu assim, sem pressa de enfeitar.
O nome ajuda a guardar a figura. Evaristo vem do grego Euáristos, “muito agradável”, “bem-aceito”. A etimologia não prova nada sobre a vida dele; fica como moldura, e a moldura é bonita.
Quando as fontes discordam
Aqui a honestidade pede que se abra a mesa. Rohrbacher, que escreveu no século XIX e seguia o calendário antigo, que celebrava Santo Evaristo em 26 de outubro, escreve num mesmo trecho duas coisas que não se encaixam. Na primeira, o martírio ocorre “sob o imperador Adriano”; mas Trajano, segundo o próprio Rohrbacher, morreu em 117, de modo que Adriano vem depois. Na segunda, Santo Evaristo morre no ano 100. O Martirológio Romano de 2004 fixa o 108, ainda sob Trajano, e não menciona Adriano.
Três datas para um mesmo homem: 100, 108 e algo posterior a 117. Quem escreve com seriedade sobre os primeiros papas precisa admitir que a cronologia desses anos chegou a nós em fragmentos. Eu fico com o Martirológio Romano de 2004, que é a voz oficial da Igreja, e registro que as fontes antigas não concordam entre si.
Papa e mártir?
Rohrbacher chama-o “papa e mártir”, título que a tradição antiga deu em sentido amplo a vários dos primeiros papas de Roma; o elogio do Martirológio de 2004, note bem, diz apenas “papa”. Quanto ao modo, ao lugar e às circunstâncias da morte, nenhuma das fontes que consultei diz uma palavra. Eu poderia pintar para você uma perseguição, um cárcere e uma sentença, e o texto ficaria mais vistoso. Ficaria também falso, e nesta casa o santo merece a verdade antes do efeito.
Um último cuidado, porque o nome engana. Existe outro Santo Evaristo, mártir, de Gortina, lembrado em 23 de dezembro; e Rohrbacher lista ainda um Santo Evaristo mártir em 14 de outubro. Nenhum dos dois é o papa de hoje.
A objeção do leitor
Eu sei o que você está pensando: se as fontes são tão escassas, para que um artigo inteiro? Que se guarde o nome na lista e se passe ao santo do dia seguinte, que tem mais história para contar.
Respondo com a própria lista. A Igreja de Roma jamais dependeu de que cada papa deixasse biografia farta; dependeu de que cada um recebesse o que o anterior guardou e entregasse ao seguinte. Quarto sucessor quer dizer elo, e o elo cumpre a função quando segura. Nosso Senhor ensinou que quem é fiel no pouco também é fiel no muito (Lc 16,10), e há poucas coisas mais pequenas, aos olhos do mundo, que um pontificado sem crônica. O Pai, que vê o que se faz em segredo, guardou o resto (Mt 6,4).
Repare ainda numa coincidência de época. Foi no tempo de Trajano que Santo Inácio de Antioquia, acorrentado, seguiu para Roma, e você pode reler a história dele aqui. Um antioqueno chegava a Roma entre feras e soldados; outro antioqueno, segundo a tradição, já se sentava na cadeira de São Pedro. A Igreja desses anos tinha homens de grande voz e homens de voz quase nenhuma, e precisava dos dois.
O que fazer com um santo sem biografia
Santo Evaristo nos treina para uma santidade que a nossa época quase não sabe medir: a de quem recebe e transmite. Sem espetáculo, sem frases para citar, sem data certa. Quase toda fé que chegou até você veio assim, por mãos que ninguém fotografou.
Então leve três tarefas para o dia. A primeira: lembre o nome de quem lhe passou a fé, a avó, o catequista, o padre da primeira confissão, e reze uma dezena do Rosário por essa pessoa, nomeando-a em voz alta. A segunda: reze hoje pelo Papa, pelo nome, que é o sucessor de São Pedro que Cristo lhe deu para o seu tempo. A terceira: escolha uma obrigação pequena e escondida que você anda adiando, e cumpra-a hoje sem contar a ninguém. Quem tem a fé pela mão dos outros deve entregá-la a alguém, caro leitor, e a fila é mais longa do que parece.
Você encontra o verbete de Santo Evaristo no Martirológio do Hub, e os santos de cada dia no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube. Santo Evaristo, papa, rogai por nós.