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O QUE RESTA DE UM MÁRTIR QUANDO A HISTÓRIA GUARDOU APENAS UMA LINHA?

Menológio de Basílio II (c. 1000) — Wikimedia Commons (domínio público)

Hoje, 21 de outubro, o Martirológio Romano nos põe diante de três nomes e de uma única frase. Em Nicomédia, na Bitínia, hoje Izmit, na Turquia, os Santos Dásio, Zótico e Caio, “servos do imperador Diocleciano e, falsamente acusados de terem incendiado o palácio, foram condenados à morte e lançados ao mar com grandes pedras atadas ao pescoço”. No original latino, em poucas palavras: domestici Diocletiani, incendii palatii insimulati, e mais adiante, alligatis ad collum molaribus, in mare demersi. É tudo o que o martirológio diz.

Caro leitor, você talvez ache pouco. Eu também achei, num primeiro momento; mas leia de novo, devagar, que há muita coisa dentro dessa linha.

Servos de um palácio

Domestici, diz o latim: gente da casa do imperador, que servia dentro do palácio. O martirológio não lhes atribui cargo, púlpito nem título. Registra o ofício e o lugar, e a data é 303, o ano em que o palácio de Nicomédia pegou fogo.

Esse incêndio é conhecido por outras fontes. Lactâncio o menciona no De mortibus persecutorum (14), e Eusébio de Cesareia, na História Eclesiástica (VIII, 6), e ambos o põem no começo da perseguição de Diocleciano, com os cristãos entre os acusados. O martirológio não escreve, com todas as letras, que a acusação contra os nossos três nasceu dali; a coincidência de lugar e de circunstância, porém, convida a ler a frase sobre esse fundo. Eu a leio assim, e deixo ao leitor a liberdade de ler com a cautela que o texto pede.

Duas fontes, dois retratos

Rohrbacher, nas Vidas dos Santos (vol. 18, 21 de outubro), registra a mesma festa com outros traços: a morte dos Santos Dásio, Zótico, Caio “e mais dez soldados, que, depois de terem sofrido diversos tormentos, foram atirados ao mar” (século IV). Note a diferença. O martirológio diz servos do palácio; Rohrbacher fala de dez soldados a mais e de tormentos antes do mar. Não me cabe costurar os dois relatos num só, nem inventar o que cada um deixou de dizer. Fica o que ambos afirmam: Nicomédia, os três nomes, e o mar como sepultura.

A acusação falsa

Pare na palavra insimulati, falsamente acusados. A Igreja, ao celebrar esses três, não os lembra por terem feito alguma coisa grandiosa; lembra que foram condenados por um crime que não cometeram. Há outro Condenado inocente na raiz de tudo isso, e quem segue Cristo não deve estranhar o caminho do Mestre.

O próprio Nosso Senhor avisou: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). E ao anjo da Igreja de Esmirna o Apocalipse dirige a palavra que parece escrita para gente como esta: “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Ap 2,10).

Eu sei o que você pensa

Você pensa: de que adianta um santo de quem não sabemos nada? Não temos diálogo diante do juiz, nem a idade, nem a terra natal, nem uma palavra de despedida. A objeção é boa. Só que a Igreja nunca precisou de roteiro para reconhecer uma testemunha; precisou apenas de uma coisa, a fidelidade até o fim. As atas minuciosas, se existiram, não chegaram até nós, e o martirológio guarda só o essencial: quem eram, onde morreram, como morreram. Diante do Senhor, ao que parece, isso foi o bastante.

Pense no mar. As pedras ao pescoço queriam fazer desaparecer os corpos e, com eles, a lembrança; mais de mil e setecentos anos depois, estou escrevendo os nomes deles numa página, e você os está lendo. Neste mesmo dia a Igreja lembra também Santa Úrsula e as Santas Virgens de Colônia; o tempo apagou muito de todos eles, e a Igreja guardou os nomes.

Leve para o dia

Santo Dásio, Santo Zótico e Santo Caio ensinam uma coisa simples. Sua fidelidade talvez nunca vire biografia, nem filme, nem capítulo de livro; talvez fique reduzida a uma linha. Seja fiel assim mesmo. Cumpra o seu ofício, em casa, na paróquia, no trabalho, como quem serve a um Senhor que vê o que ninguém registra. Aceite que parte do seu bem ficará sem aplauso, e entregue ao Céu o que a terra não guardar.

Santos Dásio, Zótico e Caio, rogai por nós.

Lembramos os Santos Dásio, Zótico e Caio no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube, e você encontra os santos de cada dia no Martirológio do Hub.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico