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QUEM PEDIU AO PAPA QUE ABRISSE AS PORTAS?

Bernard Gotfryd, “Pope John Paul II visits Katowice church, Poland” (1983) — Library of Congress · Wikimedia Commons (domínio público)

Hoje, 22 de outubro, a Igreja faz memória de São João Paulo II, papa, e quem procurava no calendário o dia da morte dele, 2 de abril, encontra outra data. A memória foi fixada em 2014, por decreto da Congregação para o Culto Divino de 4 de setembro, no aniversário da Missa de início do pontificado, celebrada em 22 de outubro de 1978. Festejamos, portanto, um começo; e nesse começo havia uma frase que ainda faz a pergunta do título girar na cabeça, caro leitor: quem pediu ao Papa que abrisse as portas?

A frase de uma Missa

Seis dias antes, em 16 de outubro de 1978, o Colégio dos Cardeais elegera o 264º papa da história, depois da morte do Beato João Paulo I, que governou a Igreja por apenas 33 dias. O eleito era o primeiro não-italiano em 455 anos, o primeiro polonês, o primeiro eslavo. Na Missa de início solene do pontificado, ele disse: “Não tenhais medo! Abri, mais ainda, abri totalmente as portas a Cristo!”

Leia o imperativo devagar. Ele aparece duas vezes, e o “mais ainda” no meio denuncia que já havia portas entreabertas; o que se pedia era o resto da folha. O Martirológio Romano guardou o eco dessa Missa no elogio do santo: governou a Igreja levando a sua presença missionária a todas as partes da terra, alimentando a doutrina com esclarecidos documentos, e convocando todos os homens da sua época a abrir as suas portas ao Redentor.

O homem que conheceu as portas fechadas

Quem manda abrir, de ordinário, já bateu em muita madeira. São João Paulo II nasceu Karol Józef Wojtyła, em 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polônia, filho de um oficial militar, Karol, e de Emília Kaczorowska. Aos 9 anos perdeu a mãe, em 1929. Em 1932 morreu o irmão, Edmund, médico, de escarlatina contraída dos pacientes que tratava. Em 1941 morreu o pai.

Em 1938 entrou para a Universidade Jaguelônica de Cracóvia, para estudar Letras, e fez teatro, o Teatro Rapsódico, que na ocupação alemã (1939-1945) só podia existir às escondidas. Para escapar da deportação, trabalhou numa pedreira e na fábrica química Solvay. Entre 1942 e 1946 estudou no seminário clandestino do Cardeal Adam Sapieha; foi ordenado sacerdote em Cracóvia, em 1º de novembro de 1946.

Faça a conta, que ela diz muito: três sepulturas em família, uma pedreira, uma fábrica, um teatro proibido e um seminário de portas trancadas. O homem que mandaria o mundo abrir sabia, por experiência, o que se sente do lado de dentro de uma casa fechada à força.

Totus tuus

Depois vieram o doutorado, em Roma e em Lublin, com uma tese sobre São João da Cruz, a capelania universitária em Cracóvia, o episcopado em 1958 (bispo auxiliar aos 38 anos, o mais jovem da Polônia), o Concílio Vaticano II, com contribuição na Gaudium et Spes, o arcebispado em 1964 e o cardinalato em 1967, por São Paulo VI.

Mas o lema que ele levou ao trono de São Pedro vinha de outro lugar: Totus tuus. Totus, em latim, é o inteiro, o que não guarda sobra, de onde vem o nosso “total”; tuus é “teu”. Todo teu, todo de Nossa Senhora, na escola de São Luís Maria Grignion de Montfort. Um homem que se entrega inteiro tem pouco a esconder atrás da porta.

Em 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, Ali Ağca atirou nele. Sobreviveu, e atribuiu a sobrevivência a Nossa Senhora de Fátima; em 13 de maio de 1982 esteve em Fátima. Quem ouve “abri as portas” e imagina um otimista sem cicatriz precisa conferir a data do atentado.

A objeção do leitor

Eu sei o que o leitor pensa: frase de abertura de pontificado, discurso de ocasião, e a ocasião passa. Só que o texto tem consequências datadas. Em 1979, a primeira encíclica, Redemptor Hominis, e a visita à Polônia comunista, com multidões inéditas; em 1985, o Dia Mundial da Juventude; em 1992, a publicação do Catecismo da Igreja Católica; entre as encíclicas, Dives in Misericordia, Laborem Exercens, Veritatis Splendor, Evangelium Vitae, Ut Unum Sint e Fides et Ratio; de 1979 a 1984, as 129 catequeses da Teologia do Corpo; no Grande Jubileu de 2000, o pedido de perdão pelos pecados históricos dos filhos da Igreja; em 2002, os Mistérios Luminosos do Rosário.

Some a isso 104 viagens apostólicas internacionais, 129 países, 26 anos, 5 meses e 17 dias de pontificado, o terceiro mais longo da história. Cada viagem foi uma porta empurrada com o corpo, e o corpo era de um homem baleado na praça. Um discurso de ocasião costuma durar menos.

Quem bate à porta

Voltemos à pergunta. Quem pediu ao Papa que abrisse as portas? O Apocalipse responde: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). O Papa mandou abrir porque o dono da casa estava do lado de fora, batendo; e quem pede em nome de Outro pode pedir duas vezes, “abri, mais ainda, abri”.

A vida dele fecha o círculo com uma precisão que nenhum roteirista ousaria. Em 2000, instituiu o Domingo da Misericórdia, que você conhece melhor se ler o que escrevemos sobre Santa Faustina Kowalska. Morreu em 2 de abril de 2005, às 21h37, num sábado, a véspera desse mesmo domingo. Foi beatificado por Bento XVI em 1º de maio de 2011, Domingo da Divina Misericórdia, e canonizado por Francisco em 27 de abril de 2014, na Praça de São Pedro, junto com São João XXIII.

Então leve duas tarefas para o dia. A primeira: identifique a porta que você mantém trancada diante de Cristo, por medo, por vergonha, por hábito; leia Ap 3,20 em voz alta antes de dormir e diga, com o nome dela, que hoje você a abre mais um palmo. A segunda: reze uma dezena dos Mistérios Luminosos, que ele propôs ao Rosário em 2002, e termine com a oferta que resume o pontificado dele, Totus tuus. Quem bate não se cansa de bater, e a chave, caro leitor, está do seu lado da porta.

Lembramos São João Paulo II no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube, e você encontra o verbete dele no Martirológio do Hub. São João Paulo II, rogai por nós.

P
Patrono
Colunista do Hub Católico