Hoje, 1º de novembro, a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos. O Martirológio Romano a define como a memória, feita na alegria, daqueles que entraram com Cristo no convite das Bem-aventuranças, e a apresenta como uma exortação: a Igreja ainda peregrina na terra manda os seus filhos pôr os olhos na esperança alta da pátria celeste. Pergunta, caro leitor: quando você ouve “todos os santos”, vê o quê? Uma galeria de estátuas com nome e data de festa? Então falta no seu quadro a maior parte da gente.
A visão de São João
No capítulo 7 do Apocalipse, São João vê “uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua, de pé diante do trono e diante do Cordeiro” (Ap 7,9). E, quando um dos anciãos lhe pergunta quem são aqueles vestidos de branco, a resposta já vem pronta: são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro (Ap 7,14). É essa a primeira leitura da solenidade de hoje.
Repare no que o texto não faz. Não dá lista, não dá número, não dá sobrenome. Ninguém podia contá-los. Mesmo assim, a Igreja inteira os celebra de uma só vez, em um único dia, porque a santidade que ela venera começa muito antes do processo de canonização e vai muito além dele.
A objeção do leitor
Eu sei o que você está pensando: santo é quem foi canonizado, e o resto é piedade de avó. Só que a canonização, quando a Igreja a proclama, declara com certeza que determinada pessoa está no céu e a propõe como modelo e intercessor. Ela não esgota o céu. O Martirológio fala dos que a Igreja conhece e dos que só Deus conhece, e é por isso mesmo que existe uma solenidade para os santos sem nome: a mãe que rezou o terço até o fim, o operário que morreu em graça, a criança batizada que partiu cedo, gente que nenhum calendário registra e que o Cordeiro registrou.
Sanctus, em latim, vem de sancire: separar, consagrar. Santo é o consagrado, o separado para Deus, e o batismo faz isso com cada um de nós. Por isso o Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium (39-42), ensina a vocação universal à santidade, e por isso a Escritura repete a ordem a todo o povo: “Sede santos, porque eu sou santo” (Lv 11,44; 1Pd 1,16).
Como uma festa de mártires virou festa de todos
A história é mais longa do que parece. O Padre Rohrbacher, em Vidas dos Santos, lembra que desde o século IV as Igrejas do Oriente celebravam uma festa comum a todos os mártires da terra. Santo Efrém compôs um hino para a ocasião, e em Edessa a festa caía em 13 de maio; na Síria, na sexta-feira depois da Páscoa; e São João Crisóstomo, numa homilia sobre os mártires, a situa no primeiro domingo depois de Pentecostes, data que a liturgia bizantina conserva até hoje.
Em Roma, o passo decisivo veio pelas mãos de São Bonifácio IV, que por volta de 609 ou 610 consagrou o Panteão, antigo templo dos deuses pagãos, a Nossa Senhora e a todos os mártires, a igreja Sancta Maria ad Martyres. Pense na cena: o edifício que fora de todos os deuses de Roma passou a abrigar a memória de todos os que morreram pelo único Deus. A consagração se celebrava em 13 de maio.
No século VIII, o papa Gregório III dedicou uma capela da basílica de São Pedro a todos os santos, e a data era 1º de novembro. Cerca do ano 835, o papa Gregório IV estendeu a festa de 1º de novembro à Igreja inteira. Rohrbacher registra que Gregório IV determinou que a festa, já celebrada de maneiras diversas pelas várias Igrejas, fosse feita com solenidade, em honra de todos os santos, perpetuamente.
Por que novembro? Rohrbacher mesmo levanta a pergunta e a deixa como pergunta: sabe-se que, entre os celtas, o 1º de novembro era dia de grandes solenidades, e se pensa que a Igreja tenha querido cristianizar essas celebrações. Trate como hipótese, e não como certeza de arquivo. O que consta com firmeza é que Roma celebrou a festa em maio e só adotou o 1º de novembro depois, sob influências das Igrejas da Gália, e que ela logo se tornou popular.
A véspera e o dia seguinte
All Hallows’ Eve quer dizer “véspera de Todos os Santos”: hallow, no inglês antigo, é “santo”. Dessa contração nasceu o Halloween. Quem o celebra hoje costuma ignorar o nome que carrega, e vale a pena recuperá-lo: a noite de 31 de outubro é a vigília de uma festa de alegria, a da Igreja do céu.
E a festa tem continuação. Amanhã, 2 de novembro, a Igreja reza pelos fiéis defuntos. Rohrbacher explica a lógica dos dois dias seguidos: a Igreja triunfante do céu, a Igreja militante da terra e a Igreja sofredora do purgatório são uma só e mesma Igreja, que a caridade, mais forte que a morte, une do céu à terra e da terra ao purgatório. Quem visita o cemitério e leva flores nestes dias está fazendo, sem saber, teologia da comunhão dos santos. Há um verbete dedicado a eles no Martirológio do Hub.
O Evangelho que nos descreve
O Evangelho da solenidade é o das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a): pobres em espírito, mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, misericordiosos, puros de coração, pacificadores, perseguidos por causa da justiça. Leia a lista devagar e perceba que nenhuma das oito exige milagre, aparição ou estigma. Cada uma descreve um jeito de viver a vida comum, e vale até o fim. A multidão do Apocalipse é feita dessa matéria.
A Carta aos Hebreus chama essa gente de “nuvem de testemunhas” (Hb 12,1) e conclui sem rodeios: já que temos uma nuvem dessas ao redor, corramos com perseverança a prova que nos é proposta. Os santos não fecharam a sua porta ao morrer; eles olham de cima a corrida, rezam por nós e esperam que cheguemos.
Leve para casa
Hoje, vá à Missa; a solenidade é dia de preceito em muitos países, e vale conferir o seu. Escolha um nome da sua família que já morreu na fé e peça a ele, em voz alta, que reze por você. Releia as Bem-aventuranças e marque a que mais lhe custa. E depois não diga que a santidade é coisa de outro tempo, de outra gente, de outro calendário: o seu nome pode estar naquela multidão que ninguém podia contar, e a data de entrada é a que Deus escolher. Comece hoje.
Lembramos Todos os Santos no Todo Santo Dia, no canal Patrono, no YouTube, e você encontra a solenidade no Martirológio do Hub. Todos os Santos e Santas de Deus, rogai por nós.