Há datas que acumulam. Há vidas em que Deus não dispersa os marcos — escolhe um único dia e o assina três vezes, como se quisesse que ninguém perdesse o recado.
Neste 29 de maio, a Igreja celebra São Paulo VI. E não é porque São Paulo VI morreu hoje — morreu em 6 de agosto de 1978, em Castel Gandolfo. A memória litúrgica está neste dia por outra razão: foi em 29 de maio que Giovanni Battista Montini foi ordenado padre, em 1920; foi em 29 de maio que, décadas depois, recebeu a nomeação de arcebispo de Milão; foi em 29 de maio que, anos mais tarde ainda, foi eleito para a Sé de Roma. Três degraus, um só dia. Como se Deus tivesse assinado a vida dele sempre na mesma data, para que ninguém duvidasse de quem estava conduzindo aquela história.
Isso, meus amigos, já diz muito sobre o homem. Mas a data não é o mais importante. O mais importante é o que São Paulo VI fez depois.
O homem que recebeu um Concílio pela metade
Pra entender São Paulo VI, você precisa entender o que ele herdou. São João XXIII convocou o Concílio Vaticano II em 1962 — aquele esforço enorme da Igreja de conversar com o mundo moderno sem perder a própria alma, de abrir janelas sem perder a estrutura da casa. E São João XXIII morreu em 1963, no meio do Concílio. Com o Concílio inacabado. Com os bispos do mundo inteiro divididos entre os que queriam mudar tudo e os que não queriam mudar nada; com correntes teológicas se digladiando nos bastidores; com o mundo do lado de fora numa agitação que só iria crescer nos anos seguintes.
Quem o conclave escolheu pra terminar aquilo? O Montini. Que assumiu o nome de Paulo VI.
Ora pois, imagina o peso. Receber um Concílio pela metade é como ser chamado pra pilotar um avião depois que o motor já está rugindo e os passageiros já estão ansiosos — sem poder desviar da rota e sem poder pousar cedo. São Paulo VI tinha que conduzir até o fim, votar os documentos, manter a unidade entre bispos que quase não falavam a mesma língua, e fazer tudo aquilo aterrissar sem rachar a Igreja ao meio.
Ele consegue.
Em 1965, o Concílio Vaticano II é encerrado. A missa que você reza hoje em português, o jeito como a Igreja entende o papel do leigo no mundo, o diálogo com as outras religiões — muita coisa do catolicismo que você vive passou pelas mãos desse homem. O Martirológio Romano diz que São Paulo VI «completou feliz e diligentemente o Concílio» e «promoveu a renovação da vida eclesial». Feliz e diligentemente — não é elogio fácil de ganhar quando se está no olho do furacão.
E São Paulo VI não foi só um administrador de Concílio. Foi o primeiro papa a sair da Itália de avião. Foi à Terra Santa em 1964 — o primeiro papa a pisar lá desde os tempos antigos. Foi à Índia, à África, às Filipinas, onde quase morreu num atentado a faca. E em outubro de 1965, subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e gritou pro mundo inteiro: “Jamais a guerra, nunca mais a guerra!” Era a Guerra Fria, era o mundo fatiado entre duas bombas atômicas, e ali estava o Bispo de Roma, de pé no púlpito da política mundial, falando de paz com a autoridade de quem não representa nenhum estado, mas representa todos os homens.
“Ah, mas São Paulo VI foi o papa que…”
E aqui vem a objeção que eu sei que está na sua cabeça. Porque quando o nome de São Paulo VI aparece em certas rodas, alguém logo completa a frase com alguma coisa negativa sobre o pós-Concílio, sobre liturgia, sobre os anos de confusão que se seguiram. E não vou fingir que esses anos não existiram ou que não foram pesados — foram. Padres abandonando o sacerdócio; divisões dentro da Igreja; tensões que São Paulo VI carregou no lombo durante anos, e que o fizeram sofrer de verdade. Ele era um homem sensível, e a dor de ver a Casa dividida doía nele de um jeito visível.
Mas há um episódio naquele pontificado que resume São Paulo VI melhor do que qualquer outro. E é justamente o que o atacou mais.
A profecia que ninguém quis ouvir em 1968
Em 1968, São Paulo VI publica a Humanae Vitae — a encíclica sobre a transmissão da vida humana. O mundo inteiro esperava que a Igreja cedesse. A pílula anticoncepcional tinha chegado há poucos anos e já estava remodelando os comportamentos do Ocidente. Comissões tinham sido montadas dentro da própria Igreja para estudar a questão; a maioria dos consultores recomendava que o papa abrisse espaço para os métodos artificiais de controle de natalidade.
São Paulo VI leu tudo. Pesou tudo. E disse não.
Reafirmou, sozinho, contra a corrente, contra boa parte da própria opinião católica da época, que o amor conjugal e a abertura à vida não podem ser separados sem que algo essencial se perca. Que instrumentalizar o ato conjugal separando-o de sua capacidade de gerar vida não é progresso — é uma fratura na própria linguagem do amor.
Foi crucificado. Jornais, intelectuais, padres, teólogos — muita gente se virou contra ele. E São Paulo VI sofreu com isso. A Humanae Vitae foi o documento mais atacado do seu pontificado.
Hoje, mais de cinquenta anos depois, leia aquela carta e preste atenção. Ela não é uma proibição burocrática. É um retrato antecipado do que aconteceria com a família quando o amor conjugal fosse reduzido a prazer sem consequência; é uma advertência sobre a forma como o mundo passou a tratar a vida como variável ajustável. São Paulo VI não recuou da verdade quando recuar teria sido muito mais fácil — e quando o tempo passou, ficou claro que ele via mais longe do que seus contemporâneos.
A verdade NÃO É DEMOCRÁTICA. Ela simplesmente é. Quer a maioria queira, ou não.
Os anos de cruz
Os últimos dez anos do pontificado de São Paulo VI foram anos de cruz — sem metáfora. Não a cruz bela dos retratos, mas a cruz pesada, a cruz que cansa. Divisões que não saíam; ataques que vinham de dentro e de fora; e, em 1978, a dor particular de perder um amigo de um jeito brutal.
O cardeal Aldo Moro, político italiano próximo de São Paulo VI, foi sequestrado e assassinado por terroristas. E o papa, já velho, já doente, presidiu pessoalmente a missa pelo amigo. A oração que pronunciou naquela missa é uma das mais comoventes que um papa já rezou — não o discurso de um estadista, mas o grito de um homem que amava e perdeu.
Poucos meses depois, em 6 de agosto de 1978, São Paulo VI morreu.
Santo. Simplesmente santo.
O Papa Francisco o canonizou em 14 de outubro de 2018. E a palavra que ficou foi essa: santo.
Não “controverso”; não “o papa do Concílio”; não “o papa da Humanae Vitae”. Santo. Que é a palavra que a Igreja usa quando olha para uma vida inteira e reconhece que ali Deus foi maior do que o homem.
São Paulo VI segurou o Concílio quando ele poderia ter despedaçado a Igreja. Abraçou o mundo inteiro num avião, quando o papado ainda era coisa de gabinete romano. Não recuou da verdade quando recuar teria sido muito mais fácil — e quando chegou a hora, presidiu a missa pelo amigo morto e rezou sem retórica.
Três vezes consagrado no mesmo dia; uma vida inteira assinada pela mesma Mão.
Hoje, no Todo Santo Dia do Patrono, a gente celebra isso. Se você quer saber quem mais partilha este 29 de maio no Martirológio — são doze santos e beatos, de Santo Hesíquio da Síria ao Beato José Gerard do Lesoto — está tudo no martirológio do Hub, em hubcatolico.com/martirologio.
São Paulo VI, rogai por nós.